Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a caridade não aumenta indefinidamente. Porque todo movimento é para algum fim e termo, como se afirma na Metaf. II, texto 8,9. Ora, o aumento da caridade é um movimento. Logo, tende para um fim e termo. Portanto, a caridade não aumenta indefinidamente. Objeção 2: Ademais, nenhuma forma ultrapassa a capacidade do seu sujeito. Ora, a capacidade da criatura racional, que é o sujeito da caridade, é finita. Logo, a caridade não pode aumentar indefinidamente. Objeção 3: Ademais, toda coisa finita pode, por aumento contínuo, atingir a quantidade de outra coisa finita, por maior que seja, a menos que a grandeza do seu aumento seja sempre menor. Assim, o Filósofo afirma (Fís. III,6) que, se dividirmos uma linha em um número indefinido de partes, e as retirarmos e as adicionarmos indefinidamente a outra linha, jamais chegaremos a uma quantidade determinada resultante daquelas duas linhas, a saber, daquela da qual subtraímos e daquela à qual adicionamos o que foi subtraído. Ora, isto não ocorre no caso presente, porque não é necessário que o segundo aumento da caridade seja menor que o primeiro; antes, é provável que seja igual ou maior. Portanto, assim como a caridade dos bem-aventurados é algo finito, se a caridade do viandante pode aumentar indefinidamente, seguir-se-ia que a caridade da via poderia igualar a caridade do céu, o que é absurdo. Logo, a caridade do viandante não pode aumentar indefinidamente. Em contrário, diz o Apóstolo (Filip. 3,12): «Não que já a tenha alcançado, ou que já seja perfeito; mas prossigo, para ver se de algum modo a posso compreender», sobre o que diz uma glosa: «Ainda que tenha feito grande progresso, nenhum dos fiéis diga: «Basta». Pois quem diz isto deixa o caminho antes de chegar ao seu destino.» Portanto, a caridade do viandante pode sempre aumentar cada vez mais. Respondo que um termo para o aumento de uma forma pode ser fixado de três maneiras: primeiro, pela razão da própria forma, que tem uma medida fixa, e quando esta é atingida já não é possível avançar mais naquela forma; mas se algum avanço ulterior se fizer, outra forma é alcançada. Exemplo disto é a palidez, cujos limites podem, por alteração contínua, ser ultrapassados, seja para que sobrevenha a brancura, seja para que se produza a negrura. Segundo, por parte do agente, cujo poder não se estende a um maior aumento da forma no seu sujeito. Terceiro, por parte do sujeito, que não é capaz de perfeição ulterior. Ora, de nenhuma destas maneiras se impõe um limite ao aumento da caridade do homem, enquanto está no estado de viandante. Pois a caridade em si mesma, considerada como tal, não tem limite para o seu aumento, visto ser uma participação da caridade infinita que é o Espírito Santo. De modo semelhante, a causa do aumento da caridade, a saber, Deus, possui poder infinito. Além disso, por parte do sujeito, não se pode determinar nenhum limite para este aumento, porque, sempre que a caridade aumenta, há uma capacidade acrescida para receber um ulterior aumento. É evidente, portanto, que não é possível fixar quaisquer limites para o aumento da caridade nesta vida. Resposta à objeção 1: O aumento da caridade se ordena para um fim, que não está nesta vida, mas na vida futura. Resposta à objeção 2: A capacidade da criatura racional é aumentada pela caridade, porque o coração é dilatado por ela, segundo 2 Cor. 6,11: «O nosso coração se dilatou»; de modo que permanece ainda capaz de receber um aumento ulterior. Resposta à objeção 3: Este argumento vale para as coisas que têm o mesmo gênero de quantidade, mas não para as que têm gêneros diversos: assim, por mais que uma linha aumente, não atinge a quantidade de uma superfície. Ora, a quantidade da caridade do viandante, que segue o conhecimento da fé, não é do mesmo gênero que a quantidade da caridade dos bem-aventurados, que segue a visão clara. Logo, o argumento não prova.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether charity increases indefinitely? · séc. XIII
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