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2Cor 7, 10

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Matos Soares

10porque a tristeza, que é segundo Deus, produz uma penitência estável para a salvação, pelo contrário, a tristeza do século produz a morte (eterna).

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que há uma tristeza contrária ao prazer da contemplação. Pois o Apóstolo diz (2 Cor 7,10): «A tristeza que é segundo Deus obra penitência firme para a salvação». Ora, olhar para Deus pertence à razão superior, cujo ato é entregar-se à contemplação, segundo Agostinho (De Trin. XII, 3.4). Logo, há uma tristeza contrária ao prazer da contemplação. Objeção 2: Ademais, coisas contrárias produzem efeitos contrários. Se, portanto, a contemplação de um contrário causa prazer, o outro contrário causará tristeza; e assim haverá uma tristeza contrária ao prazer da contemplação. Objeção 3: Ademais, assim como o objeto do prazer é o bem, assim o objeto da tristeza é o mal. Ora, a contemplação pode ser um mal, pois o Filósofo diz (Metaph. XII, 9) que «não convém pensar em certas coisas». Portanto, a tristeza pode ser contrária ao prazer da contemplação. Objeção 4: Ademais, qualquer obra, enquanto desimpedida, pode ser causa de prazer, como se afirma em Ethic. VII, 12.13; X, 4. Mas a obra da contemplação pode ser impedida de muitas maneiras, seja destruindo-a por completo, seja tornando-a difícil. Logo, na contemplação pode haver uma tristeza contrária ao seu prazer. Objeção 5: Ademais, a aflição da carne é causa de tristeza. Mas, como está escrito (Ecle 12,12): «Muito estudo é aflição da carne». Logo, a contemplação admite tristeza contrária ao seu prazer. Em contrário, está escrito (Sab 8,16): «A sua» – isto é, da sabedoria – «conversação não tem amargura, nem a sua companhia tédio; mas alegria e gozo». Ora, a conversação e a companhia da sabedoria encontram-se na contemplação. Portanto, não há tristeza contrária ao prazer da contemplação. Respondo que o prazer da contemplação pode ser entendido de dois modos. De um modo, de maneira que a contemplação seja a causa, mas não o objeto do prazer; e então o prazer não é tomado no contemplar, mas na coisa contemplada. Ora, é possível contemplar algo nocivo e triste, assim como contemplar algo conveniente e agradável. Consequentemente, se o prazer da contemplação for tomado desse modo, nada impede que alguma tristeza seja contrária ao prazer da contemplação. De outro modo, entende-se o prazer da contemplação de maneira que a contemplação seja seu objeto e causa; como quando alguém sente prazer no próprio ato de contemplar. E assim, segundo Gregório de Nissa [*Nemésio, De Nat. Hom. XVIII], «nenhuma tristeza é contrária àquele prazer que é acerca da contemplação»; e o Filósofo diz o mesmo (Topic. I, 13; Ethic. X, 3). Isto, porém, deve ser entendido como sendo o caso propriamente falando. A razão é porque a tristeza é por si mesma contrária ao prazer num objeto contrário: assim, o prazer no calor é contrário à tristeza causada pelo frio. Mas não há contrário do objeto da contemplação: porque os contrários, enquanto apreendidos pela mente, não são contrários, mas um é o meio de conhecer o outro. Por isso, propriamente falando, não pode haver uma tristeza contrária ao prazer da contemplação. Nem tem ela tristeza anexada, como os prazeres corporais, que são como remédios contra certas perturbações; assim, um homem sente prazer em beber por estar aflito com a sede, mas, expulsa a sede por completo, cessa também o prazer de beber. Porque o prazer da contemplação não é causado pelo fato de alguém se ver livre de uma perturbação, mas pelo fato de a contemplação ser em si mesma agradável; pois o prazer não é um «devir», mas uma operação perfeita, como foi dito acima (Q. 31, A. 1). Acidentalmente, todavia, a tristeza mistura-se com o prazer da contemplação; e isto de dois modos: primeiro, da parte do órgão; segundo, por algum impedimento na apreensão. Da parte do órgão, a tristeza ou dor mistura-se com a apreensão diretamente, quanto às potências apreensivas da parte sensitiva, que têm um órgão corporal; seja porque o objeto sensível desagrada à condição normal do órgão, como o gosto de algo amargo e o cheiro de algo fétido; seja porque o objeto sensível, embora agradável, age sobre o sentido de modo tão contínuo que excede a condição normal do órgão, como foi dito acima (Q. 33, A. 2), resultando que uma apreensão que a princípio era agradável torna-se tediosa. Ora, essas duas coisas não podem ocorrer diretamente na contemplação da mente, porque a mente não tem órgão corpóreo; por isso, na autoridade citada acima, diz-se que a contemplação intelectual não tem «amargura» nem «tédio». Contudo, porque a mente humana, na contemplação, se serve das potências sensitivas de apreensão, em cujos atos é acidental a fadiga, por isso alguma aflição ou dor se mistura indiretamente com a contemplação. Todavia, de nenhum desses modos a dor assim acidentalmente misturada com a contemplação é contrária ao prazer desta. Porque a dor causada por um impedimento à contemplação não é contrária ao prazer da contemplação, mas antes tem afinidade e harmonia com ele, como é evidente pelo que foi dito acima (A. 4); enquanto a dor ou tristeza causada pela fadiga corporal não pertence ao mesmo gênero, pelo que é totalmente dispar. Por conseguinte, é evidente que nenhuma tristeza é contrária ao prazer tomado no próprio ato de contemplar; nem há tristeza alguma ligada a ele senão acidentalmente. Resposta à Objeção 1: A «tristeza que é segundo Deus» não é causada pelo próprio ato da contemplação intelectual, mas por algo que a mente contempla, a saber, pelo pecado, que a mente considera como contrário ao amor de Deus. Resposta à Objeção 2: As coisas que são contrárias segundo a natureza não são contrárias enquanto existem na mente; pois coisas que são contrárias na realidade não o são na ordem do pensamento; antes, um contrário é a razão para conhecer o outro. Por isso, uma mesma ciência considera os contrários. Resposta à Objeção 3: A contemplação em si mesma nunca é má, visto que não é senão a consideração da verdade, que é o bem do intelecto; pode, contudo, ser má acidentalmente, isto é, enquanto a contemplação de um objeto menos nobre impede a contemplação de um objeto mais nobre; ou da parte do objeto contemplado, ao qual o apetite está desordenadamente apegado. Resposta à Objeção 4: A tristeza causada por um impedimento à contemplação não é contrária ao prazer da contemplação, mas está em harmonia com ele, como foi dito acima. Resposta à Objeção 5: A aflição da carne afeta a contemplação acidental e indiretamente, como foi dito acima.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether there is any sorrow contrary to the pleasure of contemplation? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1ª: Parece que a tristeza é incompatível com a virtude. Porque as virtudes são efeitos da sabedoria, segundo a Sabedoria 8,7: «Ela», isto é, a divina sabedoria, «ensina a temperança, e a prudência, e a justiça, e a fortaleza». Ora, a «conversação» da sabedoria «não tem amargura», como mais adiante se lê (verso 16). Logo, também a tristeza é incompatível com a virtude. Objecção 2ª: Além disso, a tristeza é um estorvo para a obra, como diz o Filósofo (Ética, VII, 13; X, 5). Mas um estorvo para as boas obras é incompatível com a virtude. Logo, a tristeza é incompatível com a virtude. Objecção 3ª: Além disso, Túlio chama à tristeza uma doença do espírito (Questões Tusculanas, IV). Ora, a doença do espírito é incompatível com a virtude, que é uma boa disposição do espírito. Logo, a tristeza é oposta à virtude e é incompatível com ela. Em contrário, Cristo foi perfeito em virtude. Mas houve tristeza n'Ele, pois disse (Mateus 26,38): «A minha alma está triste até à morte.» Portanto, a tristeza é compatível com a virtude. Respondo que, como diz Agostinho (A Cidade de Deus, XIV, 8), os Estoicos sustentavam que no espírito do sábio há três *eupatheiai*, isto é, «três paixões boas», em lugar das três perturbações: a saber, em vez da cobiça, o «desejo»; em vez da alegria, o «gozo»; em vez do temor, a «cautela». Mas negavam que algo correspondente à tristeza pudesse estar no espírito do sábio, por duas razões. Primeira, porque a tristeza é por um mal já presente. Ora, eles sustentavam que nenhum mal pode acontecer ao sábio: pois pensavam que, assim como o único bem do homem é a virtude, e os bens do corpo não são bem algum para o homem, assim o único mal do homem é o vício, que não pode estar no homem virtuoso. Mas isto é desarrazoado. Porque, sendo o homem composto de alma e corpo, tudo o que conduz a preservar a vida do corpo é algum bem para o homem; contudo, não o seu bem supremo, porque pode abusar dele. Consequentemente, o mal contrário a este bem pode estar no sábio e pode causar-lhe moderada tristeza. Além disso, embora o homem virtuoso possa estar sem pecado grave, todavia não se encontra homem que viva sem cometer pecados leves, segundo 1 João 1,8: «Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos.» Uma terceira razão é porque o homem virtuoso, embora não esteja actualmente em estado de pecado, pode tê-lo estado no passado. E deve ser louvado se se entristece por esse pecado, segundo 2 Coríntios 7,10: «A tristeza que é segundo Deus obra uma penitência estável para a salvação.» Quarta, porque pode entristecer-se louvávelmente pelo pecado alheio. Portanto, a tristeza é compatível com a virtude moral do mesmo modo que as outras paixões, quando moderadas pela razão. A segunda razão deles para sustentar esta opinião era que a tristeza é acerca do mal presente, ao passo que o temor é acerca do mal futuro; assim como o prazer é acerca do bem presente, enquanto o desejo é acerca do bem futuro. Ora, o gozo de um bem possuído, ou o desejo de ter o bem que não se possui, pode ser compatível com a virtude; mas a depressão do espírito resultante da tristeza por um mal presente é totalmente contrária à razão; pelo que é incompatível com a virtude. Mas isto é desarrazoado. Porque há um mal que pode estar presente ao homem virtuoso, como acabámos de afirmar; mal esse que é rejeitado pela razão. Por onde, o apetite sensitivo segue a rejeição da razão entristecendo-se por esse mal; contudo, moderadamente, segundo a razão dita. Ora, pertence à virtude que o apetite sensitivo seja conforme à razão, como acima se disse (Artigo 1, ad 2). Por isso, a tristeza moderada por um objecto pelo qual nos devemos entristecer é sinal de virtude, como também diz o Filósofo (Ética, II, 6-7). Além disso, isto se mostra útil para evitar o mal: pois, assim como o bem é mais prontamente buscado por causa do prazer, assim o mal é mais intrepidamente evitado por causa da tristeza. Por conseguinte, devemos conceder que a tristeza por coisas pertencentes à virtude é incompatível com a virtude: pois a virtude se alegra com o que é seu. Por outro lado, a virtude se entristece moderadamente por tudo o que se opõe à virtude, seja de que modo for. Resposta à 1ª objecção: A passagem citada prova que o sábio não é entristecido pela sabedoria. Contudo, ele se entristece por tudo o que impede a sabedoria. Por conseguinte, não há lugar para a tristeza nos bem-aventurados, nos quais não pode haver impedimento à sabedoria. Resposta à 2ª objecção: A tristeza impede a obra que nos entristece; mas nos ajuda a fazer mais prontamente tudo o que afasta a tristeza. Resposta à 3ª objecção: A tristeza imoderada é uma doença do espírito; mas a tristeza moderada é sinal de um espírito bem disposto, segundo o estado presente da vida.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether sorrow is compatible with moral virtue? · séc. XIII

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