Trechos em que os Padres comentam diretamente esta passagem ou o seu contexto imediato.
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Citações internas
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Trechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.
TA
Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que as esmolas não devem ser dadas em abundância. Pois devemos dar esmolas principalmente àqueles que nos são mais próximos. Mas não devemos dar-lhes de modo que por isso se tornem mais ricos, como diz Ambrósio (De Officiis i, 30). Logo, também não devemos dar abundantemente aos outros.
Objeção 2: Além disso, diz Ambrósio (De Officiis i, 30): "Não devemos esbanjar de uma só vez a nossa riqueza com os outros, mas distribuí-la aos poucos." Ora, dar abundantemente é dar com largueza. Portanto, as esmolas não devem ser dadas em abundância.
Objeção 3: Além disso, diz o Apóstolo (2 Cor 8,13): "Não para que outros sejam aliviados", isto é, vivam de vós sem trabalhar, "e vós sobrecarregados", isto é, empobrecidos. Mas isso seria o resultado se as esmolas fossem dadas em abundância. Logo, não devemos dar esmolas abundantemente.
Ao contrário, está escrito (Tob 4,93): "Se tiveres muito, dá abundantemente."
Respondo que a esmola pode ser considerada abundante em relação ao doador ou ao recipiente. Em relação ao doador, quando aquilo que alguém dá é grande em comparação com seus recursos. Dar assim é louvável, e por isso Nosso Senhor (Lc 21,3-4) louvou a viúva porque, "da sua pobreza, lançou tudo o que tinha para viver". Contudo, devem ser observadas aquelas condições que foram estabelecidas quando falamos de dar esmolas dos bens necessários (A[9]).
Da parte do recipiente, a esmola pode ser abundante de dois modos: primeiro, suprindo suficientemente a sua necessidade, e neste sentido é louvável dar esmola; segundo, suprindo a sua necessidade mais que suficientemente; isto não é louvável, e seria melhor dar a muitos necessitados; por isso o Apóstolo diz (1 Cor 13,3): "Se eu distribuir todos os meus bens para alimentar os pobres", sobre o que uma glosa comenta: "Assim somos advertidos a sermos prudentes ao dar esmolas, e a dar, não a um só, mas a muitos, para que aproveitemos a muitos."
Resposta à objeção 1: Esta objeção considera a abundância da esmola como excedente às necessidades do recipiente.
Resposta à objeção 2: O texto citado considera a abundância da esmola da parte do doador; mas o sentido é que Deus não quer que um homem esbanje de uma só vez toda a sua riqueza, exceto quando muda de estado de vida; por isso ele prossegue dizendo: "Exceto se imitarmos Eliseu, que matou os seus bois e com o que tinha alimentou os pobres, para que nenhum cuidado doméstico o retivesse" (3 Rs 19,21).
Resposta à objeção 3: No texto citado, as palavras "não para que outros sejam aliviados ou confortados" referem-se àquela abundância de esmola que supera a necessidade do recipiente, a quem se deve dar esmola não para que tenha vida fácil, mas para que tenha alívio. Contudo, devemos usar de discrição no assunto, por causa das diversas condições dos homens, alguns dos quais são criados com mais delicadeza e precisam de comida e roupa mais finas. Por isso, diz Ambrósio (De Officiis i, 30): "Quando deres esmola a um homem, deves considerar a sua idade e a sua fraqueza; e às vezes a vergonha que revela o seu bom nascimento; e ainda que talvez tenha caído das riquezas à indigência por culpa não sua."
Quanto às palavras que se seguem, "e vós sobrecarregados", referem-se à abundância da parte do doador. Contudo, como diz uma glosa sobre a mesma passagem, "ele diz isso, não porque seja melhor dar em abundância, mas porque teme pelos fracos, e admoesta-os a dar de modo que não lhes falte para si mesmos".
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 10 - Whether alms should be given in abundance? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que a pobreza não é necessária para a perfeição religiosa. Pois aquilo que é ilícito fazer não pertence, ao que parece, ao estado de perfeição. Ora, pareceria ilícito a um homem abandonar tudo quanto possui; visto que o Apóstolo (2 Cor 8,12) prescreve a maneira pela qual os fiéis devem dar esmola, dizendo: «Se a vontade está pronta, é aceita segundo o que cada um tem», isto é, «deveis reter o que vos é necessário», e depois acrescenta (2 Cor 8,13): «Porque não digo isto para que os outros tenham alívio e vós sobrecarga», i.e., «de pobreza», segundo uma glosa. Além disso, uma glosa sobre 1 Tim 6,8, «Tendo alimento e com que nos cobrir», diz: «Embora nada tenhamos trazido e nada possamos levar, não devemos abandonar totalmente essas coisas temporais.» Logo, parece que a pobreza voluntária não é necessária para a perfeição religiosa.
**Objeção 2:** Ademais, quem quer que se exponha ao perigo peca. Ora, aquele que renuncia a tudo quanto tem e abraça a pobreza voluntária expõe-se ao perigo — não só espiritual, segundo Prov 30,9: «Para que, obrigado pela pobreza, não venha a furtar e a jurar falso contra o nome do meu Deus», e Eclo 27,1: «Pela pobreza muitos pecaram» — mas também corporal, pois está escrito (Ecl 7,13): «Assim como a sabedoria é defesa, assim o dinheiro é defesa», e o Filósofo diz (Ética IV, 1) que «o desperdício da propriedade parece uma espécie de ruína de si mesmo, visto que por ele o homem vive.» Logo, parece que a pobreza voluntária não é necessária para a perfeição da vida religiosa.
**Objeção 3:** Ademais, «a virtude observa o meio», como se diz na Ética (II, 6). Ora, aquele que renuncia a tudo pela pobreza voluntária parece ir ao extremo, e não observar o meio. Logo, não age virtuosamente; e assim isso não pertence à perfeição da vida.
**Objeção 4:** Ademais, a perfeição última do homem consiste na felicidade. Ora, as riquezas conduzem à felicidade; pois está escrito (Eclo 31,8): «Bem-aventurado o homem rico que foi achado sem mácula», e o Filósofo diz (Ética I, 8) que «as riquezas contribuem instrumentalmente para a felicidade.» Logo, a pobreza voluntária não é necessária para a perfeição religiosa.
**Objeção 5:** Ademais, o estado episcopal é mais perfeito que o estado religioso. Ora, os bispos podem ter propriedade, como se estabeleceu acima (Q. 185, A. 6). Logo, os religiosos também podem.
**Objeção 6:** Ademais, a esmola é uma obra mui aceitável a Deus, e, como diz Crisóstomo (Hom. IX sobre a Epístola aos Hebreus), «é um remédio eficacíssimo na penitência». Ora, a pobreza exclui a esmola. Logo, parece que a pobreza não pertence à perfeição religiosa.
**Em contrário,** Gregório diz (Moral. VIII, 26): «Há alguns dos justos que, fortalecendo-se para alcançar a própria altura da perfeição, enquanto visam a objetivos mais elevados no interior, abandonam todas as coisas exteriores.» Ora, como se disse acima (AA. 1 e 2), pertence propriamente aos religiosos fortalecer-se para alcançar a própria altura da perfeição. Logo, pertence-lhes abandonar todas as coisas exteriores pela pobreza voluntária.
**Respondo que,** como se disse acima (A. 2), o estado religioso é um exercício e uma escola para alcançar a perfeição da caridade. Para isso, é necessário que o homem retire completamente suas afeições das coisas mundanas; pois Agostinho diz (Confissões X, 29), falando a Deus: «Mui pouco Te ama quem ama algo contigo que não ama por Ti.» Por isso ele diz (Quest. LXXXIII, q. 36) que «maior caridade significa menor cupidez; a caridade perfeita significa nenhuma cupidez.» Ora, a posse das coisas mundanas atrai a mente do homem ao amor delas; por isso Agostinho diz (Epístola XXXI a Paulino e Terasia) que «somos mais firmemente apegados às coisas terrenas quando as possuímos do que quando as desejamos; pois por que aquele jovem se retirou triste, senão porque tinha grandes riquezas? Porque uma coisa é não querer lançar mão do que não se tem, e outra é renunciar ao que já se possui; aquelas são rejeitadas como estranhas a nós, estas são cortadas como um membro.» E Crisóstomo diz (Hom. LXIII sobre Mateus) que «a posse da riqueza acende uma chama maior, e o desejo dela se torna mais forte.»
Por isso, na consecução da perfeição da caridade, o primeiro fundamento é a pobreza voluntária, pela qual o homem vive sem propriedade própria, segundo a palavra de Nosso Senhor (Mt 19,21): «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e vem, segue-Me.»
**Resposta à Objeção 1:** Como acrescenta a glosa, «quando o Apóstolo disse isto (a saber, "não para que sejais sobrecarregados", i.e., de pobreza)», não quis dizer que «fosse melhor não dar; mas temeu pelos fracos, aos quais exortou a dar de modo a não sofrer privação.» Portanto, do mesmo modo, a outra glosa não quer dizer que seja ilícito renunciar a todos os bens temporais, mas que isso não é exigido como necessidade. Por isso Ambrósio diz (Dos Ofícios I, 30): «Nosso Senhor não quer», isto é, não nos manda «derramar de uma só vez nossas riquezas, mas distribuí-las; ou talvez fazer como Eliseu, que matou os seus bois e alimentou os pobres com o que era seu, para que nenhum cuidado doméstico o detivesse.»
**Resposta à Objeção 2:** Aquele que renuncia a todas as suas possessões por amor de Cristo não se expõe a nenhum perigo, nem espiritual nem corporal. Pois o perigo espiritual resulta da pobreza quando esta não é voluntária; porque aqueles que são pobres contra a vontade, pelo desejo de ganhar dinheiro, caem em muitos pecados, segundo 1 Tim 6,9: «Os que querem tornar-se ricos caem em tentação e no laço do diabo.» Este apego é afastado por aqueles que abraçam a pobreza voluntária, mas se fortalece naqueles que têm riquezas, como se disse acima. Também o perigo corporal não ameaça aqueles que, intentos em seguir a Cristo, renunciam a todos os seus bens e se confiam à divina providência. Por isso Agostinho diz (Do Sermão do Senhor no Monte II, 17): «Aqueles que buscam primeiro o reino de Deus e a sua justiça não são oprimidos pela ansiedade de lhes faltar o necessário.»
**Resposta à Objeção 3:** Segundo o Filósofo (Ética II, 6), o meio da virtude é tomado segundo a reta razão, não segundo a quantidade de uma coisa. Consequentemente, o que quer que seja feito de acordo com a reta razão não se torna pecaminoso pela grandeza da quantidade, mas tanto mais virtuoso. Seria, contudo, contra a reta razão lançar fora todas as possessões por intemperança, ou sem qualquer propósito útil; ao passo que é de acordo com a reta razão renunciar à riqueza a fim de se dedicar à contemplação da sabedoria. Diz-se que mesmo certos filósofos fizeram isso; pois Jerônimo diz (Epístola XLVIII a Paulino): «O famoso tebano Crates, outrora homem riquíssimo, quando ia a Atenas para estudar filosofia, lançou fora grande quantidade de ouro; pois considerava que não podia possuir ao mesmo tempo ouro e virtude.» Muito mais, portanto, é segundo a reta razão que um homem renuncie a tudo quanto tem para perfeitamente seguir a Cristo. Por isso Jerônimo diz (Epístola CXXV a Rústico, Monge): «Pobre, segue a Cristo pobre.»
**Resposta à Objeção 4:** A felicidade ou beatitude é dupla. Uma é perfeita, que esperamos na vida futura; a outra é imperfeita, em relação à qual alguns são ditos felizes nesta vida. A felicidade desta vida é dupla: uma segundo a vida ativa, outra segundo a vida contemplativa, como afirma o Filósofo (Ética X, 7 e 8). Ora, as riquezas concorrem instrumentalmente para a felicidade da vida ativa, que consiste em ações exteriores, porque, como diz o Filósofo (Ética I, 8), «fazemos muitas coisas por meio de amigos, riquezas, influência política, como que por instrumentos». Por outro lado, não concorrem para a felicidade da vida contemplativa; antes, são um obstáculo, na medida em que a ansiedade que envolvem perturba o sossego da alma, que é mui necessário ao que contempla. Por isso o Filósofo afirma (Ética X, 8) que «para as ações muitas coisas são necessárias, mas o homem contemplativo não necessita de tais coisas», isto é, de bens exteriores, «para a sua operação; antes, são obstáculos à sua contemplação».
O homem é dirigido à felicidade futura pela caridade; e como a pobreza voluntária é um exercício eficaz para alcançar a caridade perfeita, segue-se que é de grande proveito para adquirir a felicidade do céu. Por isso Nosso Senhor disse (Mt 19,21): «Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.» Ora, as riquezas, uma vez possuídas, são por sua natureza aptas a impedir a perfeição da caridade, especialmente seduzindo e distraindo a mente. Por isso está escrito (Mt 13,22) que «o cuidado deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra» de Deus, pois, como diz Gregório (Hom. XV sobre os Evangelhos), «impedindo o bom desejo de entrar no coração, destroem a vida desde o seu início». Consequentemente, é difícil salvaguardar a caridade no meio das riquezas; por isso Nosso Senhor disse (Mt 19,23) que «dificilmente um rico entrará no reino dos céus», o que devemos entender como se referindo a quem realmente possui riquezas, pois Ele diz que isso é impossível para quem põe sua afeição nas riquezas, segundo a explicação de Crisóstomo (Hom. LXIII sobre Mateus), pois acrescenta (Mt 19,24): «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus.» Por isso não se diz simplesmente que o «rico» é bem-aventurado, mas «o homem rico que foi achado sem mácula e que não foi atrás do ouro», e isto porque fez uma coisa difícil; por isso o texto continua (Eclo 31,9): «Quem é ele? e nós o louvaremos; porque fez coisas maravilhosas em sua vida», ou seja, não amando as riquezas, embora colocado no meio delas.
**Resposta à Objeção 5:** O estado episcopal não se ordena à consecução da perfeição, mas antes a que, em virtude da perfeição que já possui, o homem governe os outros, administrando não só as coisas espirituais, mas também as temporais. Isto pertence à vida ativa, na qual ocorrem muitas coisas que podem ser feitas mediante as riquezas como instrumento, como se disse (ad 4). Por isso não se exige dos bispos, que fazem profissão de governar o rebanho de Cristo, que nada tenham de seu; ao passo que se exige dos religiosos, que fazem profissão de aprender a alcançar a perfeição.
**Resposta à Objeção 6:** A renúncia às próprias riquezas se compara à esmola como o universal ao particular, e como o holocausto ao sacrifício. Por isso Gregório diz (Hom. XX sobre Ezequiel) que aqueles que «socorrem os necessitados com as coisas que possuem, pelos seus atos de bondade oferecem sacrifício, pois oferecem algo a Deus e retêm algo para si; ao passo que aqueles que nada retêm para si oferecem um holocausto, que é maior do que o sacrifício». Por onde também Jerônimo diz (Contra Vigilâncio): «Quando declaras que fazem melhor aqueles que retêm o uso de suas possessões e distribuem os frutos delas aos pobres, não sou eu, mas o Senhor que te responde: "Se queres ser perfeito", etc.» E depois continua: «Este homem que louvas pertence ao segundo e terceiro grau, e nós também o louvamos; contanto que reconheçamos que o primeiro deve ser preferido ao segundo e ao terceiro.» Por esta razão, para excluir o erro de Vigilâncio, diz-se (Dos Dogmas da Igreja, XXXVIII): «É bom dar os próprios bens, distribuindo-os aos pobres; é melhor dá-los de uma vez por todas com a intenção de seguir o Senhor e, livre de solicitude, ser pobre com Cristo.»
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether poverty is required for religious perfection? · séc. XIII
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TA
Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que nenhuma ordem religiosa pode ser estabelecida para pregar ou ouvir confissões. Porque está dito (VII, qu. i [*Cap. Hoc nequaquam; Cf. Q[187], A[1], OBJ[1]]): "A vida monástica é de sujeição e discipulado, não de ensino, autoridade ou cuidado pastoral", e o mesmo parece aplicar-se aos religiosos. Ora, pregar e ouvir confissões são ações de pastor e mestre. Logo, uma ordem religiosa não deve ser estabelecida para este fim.
Objeção 2: Além disso, o fim para o qual uma ordem religiosa é estabelecida parece ser algo muito próprio da vida religiosa, como foi dito acima (A[1]). Ora, as referidas ações não são próprias dos religiosos, mas dos bispos. Logo, uma ordem religiosa não deve ser estabelecida para a prática de tais ações.
Objeção 3: Além disso, parece inconveniente que a autoridade de pregar e ouvir confissões seja confiada a um número ilimitado de homens; e não há número fixo dos que são recebidos numa ordem religiosa. Logo, é inconveniente que uma ordem religiosa seja estabelecida para a prática das referidas ações.
Objeção 4: Além disso, os pregadores têm direito de receber o seu sustento dos fiéis de Cristo, conforme 1 Cor. 9. Se, pois, o ofício de pregar for confiado a uma ordem religiosa estabelecida para esse fim, segue-se que os fiéis de Cristo são obrigados a sustentar um número ilimitado de pessoas, o que lhes seria um pesado fardo. Logo, uma ordem religiosa não deve ser estabelecida para o exercício destas ações.
Objeção 5: Além disso, a organização da Igreja deve estar de acordo com a instituição de Cristo. Ora, Cristo primeiro enviou os doze apóstolos a pregar, como se relata em Lucas 9, e depois enviou os setenta e dois discípulos, como está dito em Lucas 10. Além disso, segundo a glosa de Beda sobre "E depois destas coisas" (Lc. 10:1), "os apóstolos são representados pelos bispos, os setenta e dois discípulos pelos sacerdotes menores", i.e., os párocos. Portanto, além dos bispos e párocos, nenhuma ordem religiosa deve ser estabelecida para o fim de pregar e ouvir confissões.
Em contrário, nas Conferências dos Padres (Coll. xiv, 4), o Abade Nestoro, falando dos vários tipos de ordens religiosas, diz: "Uns, escolhendo o cuidado dos enfermos, outros, dedicando-se ao alívio dos aflitos e oprimidos, ou aplicando-se ao ensino, ou dando esmolas aos pobres, foram altamente estimados por sua devoção e piedade." Portanto, assim como uma ordem religiosa pode ser estabelecida para o cuidado dos enfermos, também pode sê-lo para ensinar o povo mediante a pregação e obras semelhantes.
Respondo: Como foi dito acima (A[2]), é conveniente que uma ordem religiosa seja estabelecida para as obras da vida ativa, na medida em que se ordenam ao bem do próximo, ao serviço de Deus e à manutenção do culto divino. Ora, o bem do próximo é promovido pelas coisas que pertencem ao bem espiritual da alma, mais do que pelas que pertencem ao suprimento das necessidades corporais, na proporção da excelência das coisas espirituais sobre as corporais. Por isso foi dito acima (Q[32], A[3]) que as obras de misericórdia espirituais superam as corporais. Além disso, isto é mais pertinente ao serviço de Deus, a quem nenhum sacrifício é mais aceitável que o zelo pelas almas, como diz Gregório (Hom. xii in Ezech.). Ademais, é coisa maior empregar armas espirituais na defesa dos fiéis contra os erros dos hereges e as tentações do demônio, do que proteger os fiéis com armas corporais. Portanto, é muito conveniente que uma ordem religiosa seja estabelecida para a pregação e obras semelhantes que pertencem à salvação das almas.
Resposta à objeção 1: Quem obra pela virtude de outro, age como instrumento. E o ministro é como um "instrumento animado", como diz o Filósofo (Polit. i, 2 [*Cf. Ethic. viii, 11]). Portanto, se um homem prega ou faz algo semelhante pela autoridade de seus superiores, não se eleva acima do grau de "discipulado" ou "sujeição", que é próprio dos religiosos.
Resposta à objeção 2: Algumas ordens religiosas foram estabelecidas para a milícia, para guerrear, não por autoridade própria, mas pela do soberano ou da Igreja, que são competentes para guerrear por força de seu ofício, como foi dito acima (A[3], ad 4). Do mesmo modo, certas ordens religiosas são estabelecidas para pregar e ouvir confissões, não por autoridade própria, mas pela autoridade dos superiores maiores e menores, a quem estas coisas pertencem por força de seu ofício. Consequentemente, auxiliar os superiores em tal ministério é próprio de uma ordem religiosa deste tipo.
Resposta à objeção 3: Os bispos não permitem que estes religiosos preguem ou ouçam confissões indistintamente, mas segundo o critério dos superiores religiosos, ou segundo a sua própria nomeação.
Resposta à objeção 4: Os fiéis não são obrigados por lei a contribuir para o sustento de outros além de seus prelados ordinários, que recebem os dízimos e as ofertas dos fiéis para esse fim, bem como outras rendas eclesiásticas. Mas, se alguns homens estão dispostos a ministrar aos fiéis exercendo gratuitamente os referidos atos, sem exigir pagamento como de direito, os fiéis não ficam por isso onerados, porque suas contribuições temporais podem ser liberalmente retribuídas por esses homens, nem são obrigados por lei a contribuir, mas por caridade, e contudo não de modo que sejam onerados e outros aliviados, como está dito em 2 Cor. 8:13. Se, porém, ninguém se encontrar que se dedique gratuitamente a tais serviços, o prelado ordinário é obrigado, se não puder bastar por si mesmo, a procurar outras pessoas idóneas e sustentá-las ele mesmo.
Resposta à objeção 5: Os setenta e dois discípulos são representados não só pelos párocos, mas por todos os de ordem inferior que de algum modo auxiliam os bispos em seu ofício. Pois não lemos que nosso Senhor tenha designado os setenta e dois discípulos a paróquias fixas, mas que "os enviou dois a dois diante de sua face a todas as cidades e lugares aonde ele mesmo havia de ir". Foi, no entanto, conveniente que, além dos prelados ordinários, outros fossem escolhidos para estes ofícios, por causa da multidão dos fiéis e da dificuldade de encontrar número suficiente de pessoas para serem designadas a cada localidade, assim como foi necessário estabelecer ordens religiosas para o serviço militar, por não poderem os príncipes seculares fazer frente aos infiéis em certos países.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a religious order can be established for preaching or hearing confessions? · séc. XIII