Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1.** Parece que a graça de Cristo podia aumentar. Pois a toda coisa finita se pode fazer adição. Ora, a graça de Cristo era finita. Logo, podia aumentar. **Objeção 2.** Demais: é pelo poder divino que a graça se aumenta, conforme 2 Cor 9,8: *E Deus é poderoso para fazer abundar toda a graça em vós.* Ora, o poder divino, sendo infinito, não é confinado por limites. Portanto, parece que a graça de Cristo podia ser maior. **Objeção 3.** Demais: está escrito (Lc 2,52) que o menino *Jesus crescia em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e para com os homens.* Logo, a graça de Cristo podia aumentar. **Ao contrário,** está escrito (Jo 1,14): *Vimos a sua glória, como glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.* Ora, nada pode ser nem pensar-se maior do que alguém ser o Unigênito do Pai. Portanto, não pode ser nem pensar-se graça maior do que aquela de que Cristo estava cheio. **Respondo.** Uma forma ser incapaz de aumentar dá-se de dois modos: primeiro, por parte do sujeito; segundo, por parte da própria forma. Por parte do sujeito, quando este atinge o último limite pelo qual participa dessa forma, a seu modo, como, por exemplo, se dissermos que o ar não pode aumentar em calor quando chegou ao último limite do calor que pode existir na natureza do ar, embora possa haver maior calor em ato, a saber, o calor do fogo. Mas por parte da forma, a possibilidade de aumento é excluída quando um sujeito atinge a máxima perfeição que essa forma pode ter por natureza, como, por exemplo, se dissermos que o calor do fogo não pode ser aumentado, porque não pode haver grau mais perfeito de calor do que aquele a que o fogo atinge. Ora, a medida própria da graça, como a das outras formas, é determinada pela sabedoria divina, conforme Sab 11,21: *Todas as coisas dispuseste em número, peso e medida.* E é em relação ao seu fim que se estabelece uma medida para toda forma, assim como não há gravidade maior do que a da terra, porque não há lugar mais baixo do que o da terra. Ora, o fim da graça é a união da criatura racional com Deus. Mas não pode haver nem pensar-se maior união da criatura racional com Deus do que a que se dá na Pessoa. E, por isso, a graça de Cristo atingiu a máxima medida da graça. Donde é claro que a graça de Cristo não pode ser aumentada por parte da graça. Mas também não pode ser aumentada por parte do sujeito, porque Cristo, como homem, foi verdadeiro e pleno compreensor desde o primeiro instante da sua conceição. Logo, não pôde haver em Cristo aumento de graça, assim como não pode haver no resto dos bem-aventurados, cuja graça não pode aumentar, porque já alcançaram o seu último fim. Mas quanto aos homens que são totalmente viandantes, a sua graça pode aumentar, não só por parte da forma, pois não atingiram o sumo grau de graça, mas também por parte do sujeito, porque ainda não alcançaram o seu fim. **Resposta à Objeção 1.** Se falarmos de quantidade matemática, a toda quantidade finita se pode fazer adição, porque não há nada por parte da quantidade finita que seja repugnante à adição. Mas se falarmos de quantidade natural, pode haver repugnância por parte da forma a que é devida uma quantidade determinada, assim como os outros acidentes são determinados. Por isso o Filósofo diz (De Anima II, 41) que *há naturalmente um termo de todas as coisas, e um limite fixo de grandeza e de aumento.* E, por conseguinte, à quantidade do todo não se pode fazer adição. E muito mais devemos supor um termo nas próprias formas, para além do qual não possam ir. Portanto, não é necessário que se possa fazer adição à graça de Cristo, embora seja finita na sua essência. **Resposta à Objeção 2.** Embora o poder divino possa fazer algo maior e melhor do que a graça habitual de Cristo, não poderia contudo fazê-lo ordenar-se a algo maior do que a união pessoal com o Unigênito do Pai; e a esta união, pelo desígnio da sabedoria divina, a medida da graça é suficiente. **Resposta à Objeção 3.** Alguém pode crescer em sabedoria e graça de dois modos. Primeiro, enquanto os próprios hábitos de sabedoria e graça se aumentam; e deste modo Cristo não cresceu. Segundo, quanto aos efeitos, isto é, enquanto faz obras mais sábias e maiores; e deste modo Cristo crescia em sabedoria e graça, assim como em idade, porque, no decurso do tempo, fazia obras mais perfeitas, para provar que era verdadeiro homem, tanto nas coisas de Deus como nas coisas dos homens.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 12 - Whether the grace of Christ could increase? · séc. XIII
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