Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que esta doutrina não é matéria de argumento. Pois Ambrósio diz (De Fide 1): «Deixai de lado os argumentos onde se busca a fé.» Ora, nesta doutrina busca-se especialmente a fé: «Estas coisas, porém, foram escritas para que vós creiais» (Jo 20,31). Logo, a sacra doutrina não é matéria de argumento. Objeção 2: Demais, se é matéria de argumento, o argumento ou é de autoridade ou de razão. Se é de autoridade, parece não convir à sua dignidade, pois a prova de autoridade é a mais fraca das provas. Mas se é de razão, isto não convém ao seu fim, porque, segundo Gregório (Hom. 26), «a fé não tem mérito naquelas coisas de que a razão humana traz a sua própria experiência». Logo, a sacra doutrina não é matéria de argumento. Em contrário, a Escritura diz que o bispo deve «reter a fiel palavra, que é conforme à doutrina, para que seja poderoso para exortar com a sã doutrina e convencer os contradizentes» (Tt 1,9). Respondo que, assim como as outras ciências não argumentam em prova de seus princípios, mas a partir de seus princípios argumentam para demonstrar outras verdades nessas ciências, assim também esta doutrina não argumenta em prova de seus princípios, que são os artigos de fé, mas a partir deles passa a provar algo mais; como o Apóstolo, a partir da ressurreição de Cristo, argumenta em prova da ressurreição geral (1 Cor 15). Contudo, deve-se ter em mente, no que diz respeito às ciências filosóficas, que as ciências inferiores nem provam seus princípios nem disputam com quem os nega, mas deixam isso a uma ciência superior; enquanto a mais elevada delas, a saber, a metafísica, pode disputar com quem nega seus princípios, se ao menos o oponente fizer alguma concessão; mas se ele nada concede, não pode ter disputa com ele, embora possa responder às suas objeções. Por isso, a Sagrada Escritura, por não ter nenhuma ciência acima de si, pode disputar com quem nega seus princípios somente se o oponente admitir ao menos algumas das verdades obtidas por revelação divina; assim podemos argumentar com hereges a partir de textos da Sagrada Escritura, e contra aqueles que negam um artigo de fé podemos argumentar a partir de outro. Se nosso oponente não crê em nada da revelação divina, já não há meio de provar os artigos de fé pelo raciocínio, mas apenas de responder às suas objeções — se ele as tiver — contra a fé. Visto que a fé se funda na verdade infalível, e que o contrário de uma verdade nunca pode ser demonstrado, é claro que os argumentos trazidos contra a fé não podem ser demonstrações, mas são dificuldades que podem ser respondidas. Resposta à Objeção 1: Embora argumentos da razão humana não possam valer para provar o que deve ser recebido pela fé, contudo esta doutrina argumenta a partir dos artigos de fé para outras verdades. Resposta à Objeção 2: Esta doutrina baseia-se especialmente em argumentos de autoridade, na medida em que seus princípios são obtidos por revelação: assim devemos crer na autoridade daqueles a quem foi feita a revelação. E isso não diminui a dignidade desta doutrina, pois, embora o argumento de autoridade fundado na razão humana seja o mais fraco, contudo o argumento de autoridade fundado na revelação divina é o mais forte. Mas a sacra doutrina faz uso também da razão humana, não, por certo, para provar a fé (pois então o mérito da fé cessaria), mas para esclarecer outras coisas que são apresentadas nesta doutrina. Visto que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa, a razão natural deve ministrar à fé como a inclinação natural da vontade ministra à caridade. Por isso o Apóstolo diz: «Levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo» (2 Cor 10,5). Assim, a sacra doutrina faz uso também da autoridade dos filósofos naquelas questões em que eles puderam conhecer a verdade pela razão natural, como Paulo cita um dito de Arato: «Como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois nós somos também sua descendência» (At 17,28). Contudo, a sacra doutrina usa essas autoridades como argumentos extrínsecos e prováveis; mas usa propriamente a autoridade das Escrituras canônicas como prova incontroversa, e a autoridade dos doutores da Igreja como algo que pode ser usado propriamente, mas apenas como provável. Pois nossa fé se funda na revelação feita aos apóstolos e profetas que escreveram os livros canônicos, e não nas revelações (se é que as houve) feitas a outros doutores. Por isso Agostinho diz (Ep. a Jerônimo, XIX, 1): «Somente os livros da Escritura que são chamados canônicos aprendi a ter em tal honra que acredito que seus autores não erraram de modo algum ao escrevê-los. Mas os outros autores leio de tal maneira que não julgo tudo em suas obras ser verdadeiro, unicamente por eles assim terem pensado e escrito, seja qual for a sua santidade e doutrina.»
Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether sacred doctrine is a matter of argument? · séc. XIII
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