Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que Cristo desceu ao inferno dos condenados, porque está dito pela boca da Sabedoria divina (Eclo 24,45): «Penetrarei todas as partes inferiores da terra.» Ora, o inferno dos condenados se conta entre as partes inferiores da terra, segundo o Sl 62,10: «Irão às partes inferiores da terra.» Logo, Cristo, que é a Sabedoria de Deus, desceu até ao inferno dos condenados. **Objeção 2:** Demais, Pedro diz (At 2,24) que «Deus ressuscitou a Cristo, desatadas as dores do inferno, porquanto era impossível que Ele fosse retido por ele.» Ora, não há dores no inferno dos Padres, nem no inferno das crianças, pois não são punidos com dor sensível por nenhum pecado atual, mas tão-somente com a pena de dano pelo pecado original. Portanto, Cristo desceu ao inferno dos condenados, ou então ao Purgatório, onde os homens são atormentados com dor sensível por pecados atuais. **Objeção 3:** Demais, está escrito (1 Pe 3,19) que «Cristo, indo em espírito, pregou aos espíritos que estavam na prisão, os quais noutro tempo foram incrédulos»; e isto se entende da descida de Cristo ao inferno, como diz Atanásio (Ep. ad Epict.). Pois diz que «o corpo de Cristo foi posto no sepulcro quando Ele foi pregar aos espíritos que estavam em cativeiro, como disse Pedro.» Mas é claro que os incrédulos estavam no inferno dos condenados. Logo, Cristo desceu ao inferno dos condenados. **Objeção 4:** Demais, Agostinho diz (Ep. ad Evod. clxiv): «Se as sagradas Escrituras tivessem dito que Cristo veio ao seio de Abraão, sem nomear o inferno nem suas dores, pergunto se alguém ousaria afirmar que Ele desceu ao inferno. Mas, como testemunhos evidentes mencionam o inferno e suas dores, não há razão para crer que Cristo foi para lá senão para livrar os homens dessas mesmas dores.» Ora, o lugar das dores é o inferno dos condenados. Logo, Cristo desceu ao inferno dos condenados. **Objeção 5:** Demais, como diz Agostinho num sermão sobre a Ressurreição: Cristo, descendo ao inferno, «libertou todos os justos que estavam detidos nos laços do pecado original.» Entre eles estava Jó, que diz de si mesmo (Jó 17,16): «Tudo quanto tenho descerá ao profundo abismo.» Portanto, Cristo desceu ao profundo abismo. **Em contrário:** Acerca do inferno dos condenados está escrito (Jó 10,21): «Antes que eu vá, e não volte mais, a uma terra tenebrosa e coberta da névoa da morte.» Ora, não há «comunhão da luz com as trevas», segundo 2 Cor 6,14. Logo, Cristo, que é «a luz», não desceu ao inferno dos condenados. **Respondo:** Diz-se que uma coisa está num lugar de dois modos. Primeiro, pelo seu efeito; e deste modo Cristo desceu a cada um dos infernos, mas de maneira diversa. Pois, descendo ao inferno dos condenados, produziu este efeito: que, descendo aí, os envergonhou por sua incredulidade e malícia; mas àqueles que estavam detidos no Purgatório deu esperança de alcançar a glória; enquanto aos santos Padres detidos no inferno unicamente pelo pecado original, derramou a luz da glória eterna. De outro modo, diz-se que uma coisa está num lugar pela sua essência; e deste modo a alma de Cristo desceu somente àquela parte do inferno onde os justos estavam detidos, de modo que os visitou «localmente», quanto à sua alma, a quem visitava «interiormente pela graça», quanto à sua Divindade. Portanto, permanecendo numa parte do inferno, produziu este efeito de certo modo em toda a parte do inferno, assim como, padecendo numa parte da terra, livrou o mundo inteiro pela sua Paixão. **Resposta à objeção 1:** Cristo, que é a Sabedoria de Deus, penetrou todas as partes inferiores da terra, não passando por elas localmente com a sua alma, mas difundindo nelas de certo modo os efeitos do seu poder; contudo, só iluminou os justos, porque o texto citado continua: «E iluminarei todos os que esperam no Senhor.» **Resposta à objeção 2:** A dor é dupla. Uma é o sofrimento da pena que os homens suportam pelo pecado atual, segundo o Sl 17,6: «Cercaram-me as dores do inferno.» Outra dor provém da esperança da glória diferida, segundo Pv 13,12: «A esperança que se difere aflige a alma»; e tal era a dor que os santos Padres sofriam no inferno, e Agostinho a ela se refere num sermão sobre a Paixão, dizendo que «rogavam a Cristo com lágrimas e súplicas.» Ora, descendo ao inferno, Cristo tirou ambas as dores, mas de modos diversos: pois removeu as dores das penas preservando as almas delas, assim como se diz que um médico livra um homem da doença afastando-a com remédio. Do mesmo modo, removeu as dores causadas pela glória diferida, conferindo a glória. **Resposta à objeção 3:** Estas palavras de Pedro são referidas por alguns à descida de Cristo ao inferno; e as explicam neste sentido: «Cristo pregou àqueles que outrora foram incrédulos e estavam encerrados na prisão» — isto é, no inferno — «em espírito» — isto é, pela sua alma. Por isso, Damasceno diz (De Fide Orth. iii): «Assim como evangelizou os que estão sobre a terra, assim também os que estavam no inferno»; não para converter os incrédulos à fé, mas para envergonhá-los da sua incredulidade, pois a pregação não pode entender-se senão como a manifestação aberta da sua Divindade, que lhes foi patenteada nas regiões inferiores pela sua descida em poder ao inferno. Contudo, Agostinho oferece uma melhor exposição do texto na sua Epístola a Evódio já citada, a saber, que a pregação não se refere à descida de Cristo ao inferno, mas à operação da sua Divindade, à qual deu efeito desde o princípio do mundo. Consequentemente, o sentido é que «àqueles (espíritos) que estavam na prisão» — isto é, vivendo no corpo mortal, que é como que a prisão da alma — «pelo espírito» da sua Divindade «veio e pregou» por inspirações internas e externamente pelas admoestações proferidas pelos justos; àqueles, digo, pregou «que noutro tempo foram incrédulos», isto é, não creram na pregação de Noé, «quando esperavam a paciência de Deus», pela qual se adiava o castigo do dilúvio; por isso, (Pedro) acrescenta: «Nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca.» **Resposta à objeção 4:** A expressão «seio de Abraão» pode tomar-se de dois modos. Primeiro, como significando aquele descanso, ali existente, da dor sensível; de modo que, neste sentido, não pode chamar-se inferno, nem há nele dores. De outro modo, pode tomar-se como significando a privação da glória desejada; neste sentido, tem caráter de inferno e de dor. Por consequência, aquele descanso dos bem-aventurados chama-se agora seio de Abraão, contudo não se denomina inferno, nem se diz que há agora dores no seio de Abraão. **Resposta à objeção 5:** Como diz Gregório (Moral. xiii): «As regiões superiores do inferno, ele chama de profundo abismo... Pois, se relativamente à altura do céu este ar tenebroso é infernal, então relativamente à altura deste mesmo ar, a terra subjacente pode considerar-se infernal e profunda. E ainda, em comparação com a altura da mesma terra, aquelas partes do inferno que são mais altas que as outras mansões infernais podem, deste modo, designar-se como o profundo abismo.»
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ went down into the hell of the lost? · séc. XIII
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