Santo Thomas Aquinas
Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Terceira Parte (Cristologia e Sacramentos), sobre o Artigo 8 – Se em Cristo houve o dom da profecia. Objecção 1: Parece que em Cristo não houve o dom da profecia. Porque a profecia implica um certo conhecimento obscuro e imperfeito, segundo Núm. 12,6: «Se entre vós houver um profeta do Senhor, aparecer-lhe-ei em visão, ou falarei com ele em sonho.» Ora, Cristo tinha conhecimento pleno e descoberto, muito mais do que Moisés, de quem se acrescenta que «claramente e não por enigmas e figuras vê a Deus» (Núm. 6,8). Portanto, não devemos admitir profecia em Cristo. Objecção 2: Ademais, assim como a fé tem por objecto o que não se vê, e a esperança o que não se possui, assim a profecia tem por objecto o que não é presente, mas distante; pois profeta significa, por assim dizer, um anunciador de coisas distantes. Ora, em Cristo não podia haver nem fé nem esperança, como foi dito acima (AA[3],4). Logo, também a profecia não deve ser admitida em Cristo. Objecção 3: Ademais, o profeta está em ordem inferior ao anjo; por isso Moisés, que foi o maior dos profetas, como foi dito acima (SS, Q[174], A[4]), diz-se (Act. 7,38) que falou com um anjo no deserto. Mas Cristo foi «feito menor que os anjos», não quanto ao conhecimento de sua alma, mas somente quanto aos sofrimentos de seu corpo, como se mostra em Hb 2,9. Portanto, parece que Cristo não foi profeta. Pelo contrário, está escrito dele (Dt 18,15): «O teu Deus te suscitará um profeta da tua nação e de teus irmãos», e ele diz de si mesmo (Mt 13,57; Jo 4,44): «Nenhum profeta é sem honra, senão na sua própria pátria.» Respondo que Profeta significa, por assim dizer, um anunciador ou vidente de coisas longínquas, enquanto conhece e anuncia o que está longe dos sentidos dos homens, como diz Agostinho (Contra Fausto, XVI, 18). Ora, devemos ter em mente que ninguém pode ser chamado profeta por conhecer e anunciar o que está distante de outros, com os quais ele não está. E isto é claro quanto ao lugar e ao tempo. Pois se alguém vivendo na França conhecesse e anunciasse a outros que vivem na França o que se passava na Síria, isso seria profético, como Eliseu disse a Geazi (4 Reis 5,26) como aquele homem havia saltado do seu carro para encontrá-lo. Mas se alguém vivendo na Síria anunciasse o que lá se passava, não seria profético. E o mesmo se vê quanto ao tempo. Pois foi profético de Isaías anunciar que Ciro, rei dos persas, reedificaria o templo de Deus, como se vê em Is 44,28. Mas não foi profético de Esdras escrevê-lo, em cujo tempo se cumpriu. Portanto, se Deus ou os anjos, ou mesmo os bem-aventurados, conhecem e anunciam o que está além do nosso conhecimento, isso não pertence à profecia, pois de modo algum tocam o nosso estado. Ora, Cristo antes da sua paixão tocava o nosso estado, enquanto não era apenas «compreensor», mas também «viandante». Por isso era profético nele conhecer e anunciar o que estava além do conhecimento dos outros «viandantes»; e por esta razão é chamado profeta. Quanto à objecção 1, digo que estas palavras não provam que o conhecimento enigmático, a saber, por sonho e visão, pertence à natureza da profecia; mas a comparação é feita entre os outros profetas, que viam as coisas divinas em sonhos e visões, e Moisés, que via a Deus claramente e não por enigmas, e que contudo é chamado profeta, segundo Dt 24,10: «E nunca mais se levantou em Israel profeta como Moisés.» Não obstante, pode-se dizer que, embora Cristo tivesse conhecimento pleno e descoberto quanto à parte intelectiva, contudo na parte imaginativa tinha certas semelhanças, nas quais as coisas divinas podiam ser contempladas, enquanto não era apenas «compreensor», mas também «viandante». Quanto à objecção 2, digo que a fé diz respeito àquelas coisas que não são vistas por aquele que crê; e também a esperança é daquelas coisas que não são possuídas por aquele que espera; mas a profecia é daquelas coisas que estão além do sentido dos homens, com quem o profeta habita e conversa neste estado de vida. E, portanto, a fé e a esperança repugnam à perfeição da beatitude de Cristo; mas a profecia não. Quanto à objecção 3, digo que os anjos, sendo «compreensores», estão acima dos profetas, que são apenas «viandantes»; mas não acima de Cristo, que era ao mesmo tempo «compreensor» e «viandante».
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 8 - Whether in Christ there was the gift of prophecy? · séc. XIII
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