Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os anjos conhecem os mistérios da graça. Pois o mistério da Encarnação é o mais excelente de todos os mistérios. Mas os anjos o conheceram desde o princípio; porque Agostinho diz (Gen. ad lit. V, 19): "Este mistério esteve escondido em Deus desde os séculos, contudo de tal modo que era conhecido dos príncipes e potestades nos lugares celestiais." E o Apóstolo diz (1 Tim. 3,16): "Esse grande mistério da piedade apareceu aos anjos." [*Vulg.: 'Grande é o mistério da piedade, o qual... foi visto dos anjos.'] Logo, os anjos conhecem os mistérios da graça. Objeção 2: Além disso, as razões de todos os mistérios da graça estão contidas na sabedoria divina. Mas os anjos contemplam a sabedoria de Deus, que é a Sua essência. Logo, conhecem os mistérios da graça. Objeção 3: Além disso, os profetas são iluminados pelos anjos, como é claro por Dionísio (Coel. Hier. iv). Mas os profetas conheceram os mistérios da graça; pois está dito (Amós 3,7): "Porque o Senhor Deus não faz nada sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas." Logo, os anjos conhecem os mistérios da graça. Ao contrário, Ninguém aprende o que já sabe. Contudo, os mais altos anjos investigam e aprendem os mistérios da graça. Pois está declarado (Coel. Hier. vii) que "a Sagrada Escritura descreve algumas essências celestiais como interrogando a Jesus, e aprendendo dEle o conhecimento de Sua obra divina por nós; e Jesus como ensinando-as diretamente": como é evidente em Isaías 63,1, onde, perguntando os anjos: "Quem é este que sobe de Edom?", Jesus respondeu: "Sou eu, que falo de justiça." Logo, os anjos não conhecem os mistérios da graça. Respondo que: Há um duplo conhecimento no anjo. O primeiro é o seu conhecimento natural, segundo o qual conhece as coisas tanto por sua essência como por espécies inatas. Por tal conhecimento os anjos não podem conhecer os mistérios da graça. Pois estes mistérios dependem da pura vontade de Deus; e se um anjo não pode aprender os pensamentos de outro anjo, que dependem da vontade desse anjo, muito menos pode ele averiguar o que depende inteiramente da vontade de Deus. O Apóstolo argumenta desta maneira (1 Cor. 2,11): "Pois quem dentre os homens conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus." Há outro conhecimento dos anjos, que os torna bem-aventurados; é o conhecimento pelo qual veem o Verbo, e as coisas no Verbo. Por tal visão conhecem os mistérios da graça, mas não todos os mistérios; nem todos os conhecem igualmente; mas assim como Deus quer que aprendam por revelação; como diz o Apóstolo (1 Cor. 2,10): "Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito"; contudo, de modo que os anjos superiores, contemplando a sabedoria divina mais claramente, aprendem mais e mais profundos mistérios na visão de Deus, os quais comunicam aos anjos inferiores, iluminando-os. Alguns destes mistérios conheceram desde o próprio princípio de sua criação; outros lhes são ensinados depois, segundo convém a seus ministérios. Resposta à Objeção 1: Pode-se falar do mistério da Encarnação de dois modos. Primeiramente, em geral; e deste modo foi revelado a todos desde o começo de sua beatitude. A razão disto é que este é como que um princípio geral ao qual se ordenam todos os seus ofícios. Pois "todos são [*Vulg.: 'Porventura não são todos eles?'] espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação" (Heb. 1,14); e isto é realizado pelo mistério da Encarnação. Por isso foi necessário que todos fossem instruídos neste mistério desde o princípio. Podemos falar do mistério da Encarnação de outro modo, quanto às suas condições especiais. Assim, nem todos os anjos foram instruídos em todos os pontos desde o princípio; até os anjos superiores aprenderam estas coisas depois, como se vê na passagem de Dionísio já citada. Resposta à Objeção 2: Embora os anjos bem-aventurados contemplem a sabedoria divina, contudo não a compreendem. Logo, não é necessário que conheçam tudo o que nela está escondido. Resposta à Objeção 3: Tudo o que os profetas conheceram por revelação dos mistérios da graça foi revelado de modo mais excelente aos anjos. E embora Deus tenha revelado em geral aos profetas o que um dia havia de fazer acerca da salvação do gênero humano, contudo os apóstolos conheceram algumas particularidades do mesmo, que os profetas não conheceram. Assim lemos (Efés. 3,4-5): "Como, lendo, podeis entender a minha inteligência no mistério de Cristo, que em outras gerações não foi conhecido dos filhos dos homens, como agora foi revelado aos seus santos apóstolos." Entre os profetas também, os posteriores conheceram o que os anteriores não conheceram; segundo o Salmo 118,100: "Mais entendi do que os anciãos"; e Gregório diz: "O conhecimento das coisas divinas aumentou com o passar do tempo" (Hom. xvi in Ezech.).
Summa Theologiae — First Part · Article. 5 - Whether the angels know the mysteries of grace? · séc. XIII
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