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Cl 2, 11

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Matos Soares

11também nele estais circuncidados com uma circuncisão não feita por mão de homem, mas que consiste no despojo do corpo da carne, (isto é) na circuncisão de Cristo.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que Cristo não devia ter sido circuncidado. Pois, vindo a realidade, cessa a figura. Ora, a circuncisão foi prescrita a Abraão como sinal da aliança acerca da sua posteridade, como se vê em Gn 17. Ora, esta aliança foi cumprida no nascimento de Cristo. Logo, a circuncisão deveria ter cessado imediatamente. Objeção 2: Ademais, "toda ação de Cristo é uma lição para nós" [Inocêncio III, Serm. xxii de Temp.]; por isso está escrito (Jo 3,15): "Eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, vós também o façais." Mas nós não devemos ser circuncidados, segundo Gálatas 5,2: "Se vos circuncidardes, Cristo de nada vos aproveitará." Logo, parece que nem Cristo devia ter sido circuncidado. Objeção 3: Ademais, a circuncisão foi prescrita como remédio do pecado original. Ora, Cristo não contraiu o pecado original, como acima se disse (Q. 14, a. 3; Q. 15, a. 1). Logo, Cristo não devia ter sido circuncidado. Em contrário, está escrito (Lc 2,21): "E completados que foram oito dias para circuncidar o menino." Respondo que, por várias razões, Cristo devia ter sido circuncidado. Primeiro, para provar a realidade da sua natureza humana, em contradição com os maniqueus, que diziam ter Ele um corpo imaginário; e em contradição com Apolinário, que dizia ser o corpo de Cristo consubstancial com a sua Divindade; e em contradição com Valentim, que dizia ter Cristo trazido o seu corpo do céu. Segundo, para mostrar a sua aprovação da circuncisão, que Deus havia instituído antigamente. Terceiro, para provar que descendia de Abraão, que recebera o mandamento da circuncisão como sinal da sua fé n'Ele. Quarto, para tirar aos judeus a desculpa de não O receberem, se fosse incircunciso. Quinto, "para, com o seu exemplo, nos exortar à obediência" [Beda, Hom. x in Evang.]. Por isso foi circuncidado ao oitavo dia, segundo a prescrição da Lei (Lv 12,3). Sexto, "para que Aquele que viera na semelhança da carne do pecado não rejeitasse o remédio com que a carne pecadora costumava ser curada". Sétimo, para que, tomando sobre Si o jugo da Lei, libertasse dela os outros, conforme Gálatas 4,4-5: "Deus enviou seu Filho... feito debaixo da lei, para remir os que estavam debaixo da lei." Resposta à objeção 1: A circuncisão, pela remoção de um pedaço de pele no membro da geração, significava "a passagem da velha geração" [Atanásio, De Sabb. et Circumcis.]; da decrepitude da qual somos libertados pela Paixão de Cristo. Por conseguinte, esta figura não foi completamente cumprida no nascimento de Cristo, mas na sua Paixão, até cujo tempo a circuncisão reteve a sua virtude e estado. Portanto, convinha que Cristo, como filho de Abraão, fosse circuncidado antes da sua Paixão. Resposta à objeção 2: Cristo submeteu-se à circuncisão enquanto ela era ainda obrigatória. E assim a sua ação nisto deve ser por nós imitada, cumprindo aquelas coisas que são de obrigação no nosso tempo. Porque "há tempo e oportunidade para todo negócio" (Ecle 8,6). Além disso, segundo Orígenes (Hom. xiv in Luc.), "assim como morremos quando Ele morreu, e ressuscitamos quando Cristo ressurgiu dos mortos, assim também fomos circuncidados espiritualmente por Cristo; por onde não precisamos de circuncisão carnal". E é isto o que diz o Apóstolo (Cl 2,11): "Em quem" [isto é, Cristo] "estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojo do corpo da carne, mas na circuncisão de" nosso Senhor Jesus "Cristo". Resposta à objeção 3: Assim como Cristo voluntariamente tomou sobre Si a nossa morte, que é efeito do pecado, embora Ele não tivesse pecado algum, para nos livrar da morte e fazer-nos morrer espiritualmente ao pecado, assim também tomou sobre Si a circuncisão, que era remédio contra o pecado original, embora não contraísse pecado original, para nos livrar do jugo da Lei e realizar em nós uma circuncisão espiritual — para que, tomando sobre Si a sombra, realizasse a realidade.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether Christ should have been circumcised? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a circuncisão não foi uma preparação e figura do Batismo. Porque toda figura tem alguma semelhança com o que prefigura. Ora, a circuncisão não tem semelhança com o Batismo. Logo, parece que não foi uma preparação e figura do Batismo. **Objeção 2:** Demais, o Apóstolo, falando dos antigos Padres, diz (1 Cor 10,2): "Todos foram batizados na nuvem e no mar"; mas não que fossem batizados na circuncisão. Portanto, a coluna de nuvem protetora e a travessia do Mar Vermelho, antes que a circuncisão, foram preparação e figura do Batismo. **Objeção 3:** Demais, foi dito acima (Q. 38, AA. 1 e 3) que o batismo de João foi uma preparação para o de Cristo. Consequentemente, se a circuncisão foi preparação e figura do Batismo de Cristo, parece que o batismo de João foi supérfluo, o que é inconveniente. Logo, a circuncisão não foi preparação e figura do Batismo. **Em sentido contrário,** o Apóstolo diz (Col 2,11-12): "Vós fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de Cristo, sepultados com Ele no Batismo." **Respondo** que o Batismo é chamado Sacramento da Fé; enquanto, por assim dizer, no Batismo o homem faz profissão de fé, e pelo Batismo é agregado à congregação dos fiéis. Ora, a nossa fé é a mesma que a dos antigos Padres, segundo o Apóstolo (2 Cor 4,13): "Tendo o mesmo espírito de fé... nós... cremos." Mas a circuncisão era uma protestação de fé; por onde também pela circuncisão os antigos eram agregados ao corpo dos fiéis. Por conseguinte, é manifesto que a circuncisão foi preparação para o Batismo e figura dele, porquanto "todas as coisas sucederam" aos antigos Padres "em figura" (1 Cor 10,11); assim como a sua fé dizia respeito às coisas futuras. **Resposta à Objeção 1:** A circuncisão era semelhante ao Batismo quanto ao efeito espiritual deste. Pois, assim como a circuncisão removia uma película carnal, assim o Batismo despoja o homem do comportamento carnal. **Resposta à Objeção 2:** A coluna de nuvem protetora e a travessia do Mar Vermelho foram, na verdade, figuras do nosso Batismo, pelo qual renascemos da água, significada pelo Mar Vermelho, e do Espírito Santo, significado pela coluna de nuvem; todavia, por meio destas, o homem não fazia profissão de fé, como pela circuncisão; de modo que essas duas coisas foram figuras, mas não sacramentos. A circuncisão, porém, foi um sacramento e uma preparação para o Batismo; embora menos claramente figurativa do Batismo, quanto ao exterior, do que as mencionadas. E por isso o Apóstolo as menciona antes que a circuncisão. **Resposta à Objeção 3:** O batismo de João foi uma preparação para o de Cristo quanto ao ato realizado; mas a circuncisão, quanto à profissão de fé, que é exigida no Batismo, como foi dito acima.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether circumcision was a preparation for, and a figure of Baptism? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não se pode atribuir causa conveniente às cerimônias pertinentes aos sacrifícios. Pois aquelas coisas que se ofereciam em sacrifício são as necessárias para sustentar a vida humana, como certos animais e certos pães. Mas Deus não necessita de tal sustento, segundo o Salmo 49,13: «Acaso comerei eu a carne de touros? Ou beberei o sangue de bodes?» Logo, tais sacrifícios eram oferecidos a Deus inconvenientemente. Objeção 2: Ademais, apenas três espécies de quadrúpedes eram oferecidas em sacrifício a Deus, a saber: bois, ovelhas e cabras; das aves, geralmente a rola e a pomba; mas especialmente, na purificação de um leproso, ofereciam-se pardais. Ora, muitos outros animais são mais nobres que estes. Portanto, visto que o que é melhor deve ser oferecido a Deus, parece que não só destes três se Lhe deveriam oferecer sacrifícios. Objeção 3: Ademais, assim como o homem recebeu de Deus o domínio sobre as aves e os animais, também o recebeu sobre os peixes. Consequentemente, era inconveniente que os peixes fossem excluídos dos divinos sacrifícios. Objeção 4: Ademais, indistintamente se manda oferecer rolas e pombas. Portanto, assim como se manda oferecer os pombinhos, também se deveriam oferecer os filhotes da rola. Objeção 5: Ademais, Deus é o Autor da vida, não só dos homens, mas também dos animais, como se vê em Gn 1,20 e seguintes. Ora, a morte é oposta à vida. Logo, era conveniente que animais vivos, e não mortos, fossem oferecidos a Deus, especialmente porque o Apóstolo nos admoesta (Rm 12,1) a apresentar nossos corpos «como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». Objeção 6: Ademais, se somente animais mortos eram oferecidos em sacrifício a Deus, parece que não importava como eram mortos. Logo, era inconveniente que se determinasse o modo de imolação, especialmente quanto às aves (Lv 1,15 e seguintes). Objeção 7: Ademais, todo defeito em um animal é um passo para a corrupção e a morte. Se, portanto, animais mortos eram oferecidos a Deus, não era razoável proibir a oferta de um animal imperfeito, como coxo, cego ou com outro defeito. Objeção 8: Ademais, aqueles que oferecem vítimas a Deus devem delas participar, segundo as palavras do Apóstolo (1Cor 10,18): «Não são porventura participantes do altar os que comem dos sacrifícios?» Era, pois, inconveniente que se negassem aos ofertantes certas partes das vítimas, a saber, o sangue, a gordura, o peito e a espádua direita. Objeção 9: Ademais, assim como os holocaustos eram oferecidos em honra de Deus, também o eram os sacrifícios pacíficos e os pelo pecado. Ora, nenhum animal fêmea era oferecido a Deus como holocausto, embora holocaustos fossem oferecidos tanto de quadrúpedes como de aves. Logo, era inconsistente que animais fêmeas fossem oferecidas nos sacrifícios pacíficos e pelo pecado, e que, no entanto, não se oferecessem aves nos sacrifícios pacíficos. Objeção 10: Ademais, todos os sacrifícios pacíficos parecem ser de uma só espécie. Portanto, era inconveniente fazer distinção entre eles, proibindo-se comer a carne de certos sacrifícios pacíficos no dia seguinte, enquanto se permitia comer a carne de outros, conforme o estabelecido em Lv 7,15 e seguintes. Objeção 11: Ademais, todos os pecados concordam em afastar-nos de Deus. Portanto, para nos reconciliar com Deus, um só tipo de sacrifício deveria ter sido oferecido por todos os pecados. Objeção 12: Ademais, todos os animais que se ofereciam em sacrifício eram oferecidos de um mesmo modo, a saber, mortos. Logo, não parece conveniente que os produtos do solo fossem oferecidos de modos diversos; pois umas vezes se ofereciam espigas, outras farinha, outras pão, cozido este ora no forno, ora na frigideira, ora na grelha. Objeção 13: Ademais, todas as coisas que nos são úteis devem ser reconhecidas como vindas de Deus. Era, portanto, inconveniente que, além dos animais, somente se oferecessem a Deus pão, vinho, azeite, incenso e sal. Objeção 14: Ademais, os sacrifícios corporais significam o sacrifício interior do coração, pelo qual o homem oferece a sua alma a Deus. Ora, no sacrifício interior, a doçura, significada pelo mel, supera a picância que o sal representa; pois está escrito (Eclo 24,27): «O meu espírito é doce sobre o mel.» Logo, era inconveniente que se proibisse o uso do mel e do fermento, que torna o pão saboroso, no sacrifício, enquanto se prescrevia o uso do sal, que é picante, e do incenso, que tem gosto amargo. Consequentemente, parece que as coisas pertencentes às cerimônias dos sacrifícios não têm causa razoável. Pelo contrário, está escrito (Lv 1,13): «O sacerdote oferecerá tudo e queimará tudo sobre o altar, em holocausto, e aroma de suavidade para o Senhor.» Ora, segundo Sb 7,28, «Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria»; donde parece seguir-se que tudo o que é aceito a Deus é feito sabiamente. Logo, estas cerimônias dos sacrifícios foram sabiamente feitas, por terem causas razoáveis. Respondo que, como se disse acima (A[2]), as cerimônias da Lei Antiga tinham dupla causa: uma causa literal, segundo eram ordenadas ao culto divino; e uma causa figurativa ou mística, segundo eram ordenadas a prefigurar Cristo; e de ambos os lados se podem atribuir causas convenientes às cerimônias dos sacrifícios. Porque, segundo as cerimônias dos sacrifícios eram ordenadas ao culto divino, as causas dos sacrifícios podem-se tomar de dois modos. Primeiro, na medida em que o sacrifício representava a ordenação da mente para Deus, à qual o ofertante do sacrifício era estimulado. Ora, para ordenar retamente a mente para Deus, o homem deve reconhecer que tudo quanto tem vem de Deus como de seu primeiro princípio, e ordená-lo para Deus como seu último fim. Isto se significava nas oblações e sacrifícios, pelo fato de o homem oferecer algumas de suas próprias coisas em honra de Deus, como que em reconhecimento de as ter recebido de Deus, conforme o dito de Davi (1Cr 29,14): «Todas as coisas são tuas; e o que recebemos de tua mão, isso te damos.» Por onde, ao oferecer sacrifícios, o homem protestava que Deus é o primeiro princípio da criação de todas as coisas e o seu último fim, para o qual todas as coisas devem ser ordenadas. E porque, para que a mente humana se ordene retamente para Deus, é mister que não reconheça outro autor primeiro das coisas senão Deus, nem ponha o seu fim em outro; por isso foi proibido na Lei oferecer sacrifício a outro senão a Deus, segundo Êx 22,20: «Quem sacrificar a deuses, será morto, exceto só ao Senhor.» Por onde, pode-se atribuir outra causa razoável às cerimônias dos sacrifícios, pelo fato de que por elas os homens eram afastados de oferecer sacrifícios aos ídolos. Daí também vem que os preceitos acerca dos sacrifícios não foram dados ao povo judeu senão depois de terem caído na idolatria, adorando o bezerro de fundição; como se aqueles sacrifícios fossem instituídos para que o povo, estando disposto a oferecer sacrifícios, os oferecesse a Deus antes que aos ídolos. Assim está escrito (Jr 7,22): «Não falei a vossos pais e não lhes ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, acerca de holocaustos e sacrifícios.» Ora, de todos os dons que Deus concedeu ao gênero humano depois que este caiu pelo pecado, o principal é que deu o seu Filho; por onde está escrito (Jo 3,16): «Deus amou de tal modo o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» Consequentemente, o principal sacrifício é aquele pelo qual o próprio Cristo «se entregou a Deus em odor de suavidade» (Ef 5,2). E por esta razão todos os outros sacrifícios da Lei Antiga eram oferecidos para prefigurar este único e supremo sacrifício — o imperfeito prefigurando o perfeito. Por isso o Apóstolo diz (Hb 10,11) que o sacerdote da Lei Antiga «oferecia muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas» Cristo ofereceu «um único sacrifício pelos pecados, para sempre». E como a razão da figura se toma daquilo que a figura representa, por isso as razões dos sacrifícios figurados da Lei Antiga devem ser tomadas do verdadeiro sacrifício de Cristo. Resposta à Objeção 1: Deus não queria que estes sacrifícios Lhe fossem oferecidos por causa das próprias coisas oferecidas, como se delas necessitasse; por onde está escrito (Is 1,11): «Não desejo holocaustos de carneiros, nem gordura de cevados, nem sangue de bezerros, de cordeiros e de bodes.» Mas, como se disse acima, queria que Lhe fossem oferecidos para evitar a idolatria; para significar a reta ordenação da mente do homem para Deus; e para representar o mistério da Redenção do homem por Cristo. Resposta à Objeção 2: Em todos os aspectos mencionados acima (ad 1), houve razão conveniente para que estes animais, mais do que outros, fossem oferecidos em sacrifício a Deus. Primeiro, para evitar a idolatria. Porque os idólatras ofereciam todos os outros animais aos seus deuses, ou deles se serviam nas suas feitiçarias; enquanto os egípcios (entre os quais o povo estivera morando) consideravam abominável matar estes animais, por isso não costumavam oferecê-los em sacrifício aos seus deuses. Daí está escrito (Êx 8,26): «Sacrificaremos as abominações dos egípcios ao Senhor nosso Deus.» Pois eles adoravam a ovelha; reverenciavam o carneiro (porque os demônios apareciam sob sua forma); e empregavam os bois para a agricultura, o que era por eles tido como algo sagrado. Segundo, isto era conveniente para a mencionada reta ordenação da mente do homem para Deus; e de dois modos. Primeiro, porque é principalmente por meio destes animais que a vida humana se sustenta; além disso, são muito limpos e se alimentam de comida muito limpa; ao passo que outros animais ou são selvagens e não destinados ao uso comum entre os homens; ou, se são domésticos, têm comida impura, como os porcos e os gansos; e nada senão o que é limpo deve ser oferecido a Deus. Estas aves especialmente eram oferecidas em sacrifício porque havia abundância delas na terra da promessa. Segundo, porque o sacrifício destes animais representava a pureza do coração. Porque, como diz a glosa sobre Lv 1, «Oferecemos um bezerro, quando vencemos a soberba da carne; um cordeiro, quando refreamos nossos movimentos desordenados; um cabrito, quando vencemos a lascívia; uma rola, quando guardamos a castidade; pão ázimo, quando nos saciamos com o pão da sinceridade.» E é evidente que a pomba significa a caridade e a simplicidade do coração. Terceiro, era conveniente que estes animais fossem oferecidos para prefigurar a Cristo. Porque, como observa a glosa, «Cristo é oferecido no bezerro, para significar a força da cruz; no cordeiro, para significar a sua inocência; no carneiro, para prefigurar a sua chefia; e no cabrito, para significar a semelhança da 'carne do pecado' [Alusão a Cl 2,11 (Texto Recebido)]. A rola e a pomba significavam a união das duas naturezas»; ou então a rola significava a castidade, enquanto a pomba era figura da caridade. «A farinha de trigo prefigurava a aspersão dos crentes com a água do Batismo.» Resposta à Objeção 3: Os peixes, por viverem na água, estão mais afastados do homem do que os outros animais, que, como o homem, vivem no ar. Além disso, os peixes morrem logo que são tirados da água; por isso não podiam ser oferecidos no templo como os outros animais. Resposta à Objeção 4: Entre as rolas, as mais velhas são melhores que as novas; ao passo que com as pombas se dá o contrário. Por onde, como observa o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), mandam-se oferecer rolas e pombinhos, porque nada se deve oferecer a Deus senão o que é melhor. Resposta à Objeção 5: Os animais que se ofereciam em sacrifício eram mortos, porque é sendo mortos que se tornam úteis ao homem, visto que Deus os deu ao homem para alimento. Por onde também eram queimados com fogo: porque é sendo cozidos que se tornam aptos para o consumo humano. Além disso, a morte dos animais significava a destruição dos pecados; e também que o homem merecia a morte por causa dos seus pecados; como se aqueles animais fossem mortos em lugar do homem, para significar a expiação dos pecados. Igualmente, a morte destes animais significava a morte de Cristo. Resposta à Objeção 6: A Lei fixou o modo especial de matar os animais sacrificiais para excluir outras maneiras de matar, pelas quais os idólatras sacrificavam animais aos ídolos. Ou ainda, como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «a Lei escolheu aquele modo de matar que era menos doloroso para o animal morto.» Isto excluía a crueldade por parte dos ofertantes e qualquer mutilação dos animais mortos. Resposta à Objeção 7: É porque os animais impuros costumam ser tidos em desprezo entre os homens, que se proibiu oferecê-los em sacrifício a Deus; e por esta razão também se proibiu (Dt 23,18) oferecer «o salário de prostituta ou o preço de um cão na casa de... Deus». Pela mesma razão, não ofereciam animais antes do sétimo dia, porque estes eram como que abortivos, não estando ainda firme a carne devido à sua excessiva moleza. Resposta à Objeção 8: Havia três espécies de sacrifícios. Havia um em que a vítima era totalmente consumida pelo fogo; chamava-se «holocausto, i.e., tudo queimado». Pois esta espécie de sacrifício era oferecida a Deus especialmente para mostrar reverência à sua majestade e amor à sua bondade; e tipificava o estado de perfeição quanto ao cumprimento dos conselhos. Por onde tudo era queimado; de modo que, assim como o animal todo, dissolvendo-se em vapor, se elevava ao alto, significava que o homem todo e tudo o que lhe pertence estão sujeitos à autoridade de Deus e devem ser-Lhe oferecidos. Outro sacrifício era o «pelo pecado», que se oferecia a Deus por causa da necessidade que o homem tem do perdão dos pecados; e este tipifica o estado dos penitentes na satisfação pelos pecados. Dividia-se em duas partes: pois uma parte era queimada; a outra era concedida ao uso dos sacerdotes para significar que a remissão dos pecados é concedida por Deus mediante o ministério dos seus sacerdotes. Quando, porém, este sacrifício era oferecido pelos pecados de todo o povo, ou especialmente pelo pecado do sacerdote, a vítima toda era queimada. Pois não era conveniente que os sacerdotes tivessem o uso daquilo que era oferecido pelos seus próprios pecados, para significar que neles não devia permanecer nada de pecaminoso. Além disso, isto não seria satisfação pelo pecado: pois se a oferta fosse concedida ao uso daqueles por cujos pecados era oferecida, pareceria o mesmo que se não tivesse sido oferecida. O terceiro tipo de sacrifício chamava-se «pacífico», que se oferecia a Deus, ou em ação de graças, ou pelo bem-estar e prosperidade dos ofertantes, em reconhecimento de benefícios já recebidos ou a receber; e este tipifica o estado daqueles que são proficientes na observância dos mandamentos. Estes sacrifícios dividiam-se em três partes: pois uma parte era queimada em honra de Deus; outra parte era atribuída ao uso dos sacerdotes; e a terceira parte, ao uso dos ofertantes; para significar que a salvação do homem vem de Deus, pela direção dos ministros de Deus e pela cooperação dos que são salvos. Mas era regra universal que o sangue e a gordura não fossem atribuídos ao uso nem dos sacerdotes nem dos ofertantes; sendo o sangue derramado ao pé do altar, em honra de Deus, enquanto a gordura era queimada sobre o altar (Lv 9,9.10). A razão disto era, primeiro, para evitar a idolatria: porque os idólatras costumavam beber o sangue e comer a gordura das vítimas, segundo Dt 32,38: «Da gordura de cujas vítimas comiam, e bebiam o vinho das suas libações.» Segundo, para os formar a um reto modo de viver. Pois era-lhes proibido o uso do sangue para que abominassem o derramamento de sangue humano; por onde está escrito (Gn 9,4.5): «Carne com sangue não comereis; porque eu requererei o sangue das vossas almas»; e era-lhes proibido comer a gordura, para os afastar da lascívia; daí está escrito (Ez 34,3): «Matastes o que era gordo.» Terceiro, por causa da reverência devida a Deus: porque o sangue é o mais necessário para a vida, pelo que se diz que «a vida está no sangue» (Lv 17,11.14); enquanto a gordura é sinal de abundante nutrição. Por onde, para mostrar que a Deus devemos tanto a vida como a suficiência de todos os bens, o sangue era derramado e a gordura queimada em sua honra. Quarto, para prefigurar o derramamento do sangue de Cristo e a abundância da sua caridade, pela qual se ofereceu a Deus por nós. Nos sacrifícios pacíficos, o peito e a espádua direita eram atribuídos ao uso do sacerdote, para evitar uma certa espécie de adivinhação conhecida como «spatulamantia», assim chamada porque era costume, na adivinhação, usar a omoplata [spatula] e o peito dos animais oferecidos em sacrifício; por onde estas coisas eram tiradas aos ofertantes. Isto também significava a necessidade que o sacerdote tem de sabedoria no coração, para instruir o povo — o que era significado pelo peito, que cobre o coração; e a sua necessidade de fortaleza, para suportar a fraqueza humana — o que era significado pela espádua direita. Resposta à Objeção 9: Porque o holocausto era o mais perfeito tipo de sacrifício, por isso somente um macho era oferecido em holocausto: porque a fêmea é um animal imperfeito. A oferta de rolas e pombas era por causa da pobreza dos ofertantes, que não podiam oferecer animais maiores. E como as vítimas pacíficas eram oferecidas livremente, e ninguém era obrigado a oferecê-las contra a sua vontade, por isso estas aves não eram oferecidas entre as vítimas pacíficas, mas entre os holocaustos e as vítimas pelo pecado, que o homem era obrigado a oferecer por vezes. Além disso, estas aves, devido ao seu voo elevado, são adequadas à perfeição dos holocaustos; e eram convenientes para os sacrifícios pelo pecado porque o seu canto é lastimoso. Resposta à Objeção 10: O holocausto era o principal de todos os sacrifícios: porque tudo era queimado em honra de Deus, e nada dele se comia. O segundo lugar em santidade pertence ao sacrifício pelos pecados, que era comido somente no átrio e no mesmo dia do sacrifício (Lv 7,6.15). O terceiro lugar deve ser dado aos sacrifícios pacíficos de ação de graças, que eram comidos no mesmo dia, mas em qualquer lugar de Jerusalém. Quarto na ordem estavam os sacrifícios pacíficos «ex voto», cuja carne podia ser comida até o dia seguinte. A razão desta ordem é que o homem está obrigado a Deus, principalmente por causa da sua majestade; em segundo lugar, por causa dos pecados que cometeu; em terceiro lugar, por causa dos benefícios que já recebeu dele; em quarto lugar, por causa dos benefícios que espera receber dele. Resposta à Objeção 11: Os pecados são mais graves pela condição do pecador, como se disse acima (Q[73], A[10]); por isso se mandam oferecer diferentes vítimas pelo pecado de um sacerdote, de um príncipe ou de algum outro particular. «Mas», como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «devemos notar que, quanto mais grave o pecado, mais baixa é a espécie de animais oferecida por ele. Por onde, o cabrito, que é um animal muito baixo, era oferecido pela idolatria; enquanto um bezerro era oferecido pela ignorância do sacerdote, e um carneiro pela negligência do príncipe.» Resposta à Objeção 12: Na matéria dos sacrifícios, a Lei tinha em vista a pobreza dos ofertantes; de modo que aqueles que não podiam dispor de um animal quadrúpede pudessem ao menos oferecer uma ave; e que aquele que não pudesse ter uma ave pudesse ao menos oferecer pão; e que, se alguém nem pão tivesse, pudesse oferecer farinha ou espigas. A causa figurativa é que o pão significa Cristo, que é o «pão vivo» (Jo 6,41.51). Ele era como uma espiga, por assim dizer, durante o estado da lei da natureza, na fé dos patriarcas; era como farinha na doutrina da Lei dos profetas; e era como pão perfeito depois que assumiu a natureza humana; cozido no fogo, i.e., formado pelo Espírito Santo no forno do ventre virginal; cozido outra vez numa frigideira, pelos trabalhos que sofreu no mundo; e consumido pelo fogo na cruz como numa grelha. Resposta à Objeção 13: Os produtos da terra são úteis ao homem, ou como alimento, e destes oferecia-se pão; ou como bebida, e destes oferecia-se vinho; ou como tempero, e destes oferecia-se azeite e sal; ou como remédio, e destes oferecia-se incenso, que tanto cheira bem como se liga facilmente. Ora, o pão prefigurava a carne de Cristo; e o vinho, o seu sangue, pelo qual fomos redimidos; o azeite significa a graça de Cristo; o sal, o seu conhecimento; o incenso, a sua oração. Resposta à Objeção 14: O mel não era oferecido nos sacrifícios a Deus, tanto porque costumava ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos, como para significar a ausência de toda doçura e prazer carnal naqueles que pretendem sacrificar a Deus. O fermento não era oferecido, para significar a exclusão da corrupção. Talvez também costumasse ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos. O sal, porém, era oferecido, porque afasta a corrupção da putrefação: pois os sacrifícios oferecidos a Deus devem ser incorruptos. Além disso, o sal significa a discrição da sabedoria, ou ainda a mortificação da carne. O incenso era oferecido para significar a devoção do coração, que é necessária no ofertante; e ainda para significar o odor de boa fama: pois o incenso é composto de matéria rica e fragrante. E porque o sacrifício «de ciúmes» não procedia da devoção, mas antes da suspeita, por isso nele não se oferecia incenso (Nm 5,15).

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether a suitable cause can be assigned for the ceremonies which pertained to sacrifices? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não pode haver causa conveniente para os sacramentos da Lei Velha. Porque aquelas coisas que se fazem para o culto divino não devem ser semelhantes às observâncias dos idólatras, pois está escrito (Dt 12,31): "Não farás assim ao Senhor teu Deus; porque eles fizeram a seus deuses todas as abominações que o Senhor aborrece." Ora, os adoradores dos ídolos costumavam golpear-se até derramar sangue, pois se relata (3 Rs 18,28) que "se cortavam segundo o seu costume com cutelos e lancetas, até que ficaram todos cobertos de sangue". Por esta razão o Senhor mandou (Dt 14,1): "Não vos cortareis, nem fareis calvície sobre os mortos." Logo, foi inconveniente que a Lei prescrevesse a circuncisão (Lv 12,3). **Objeção 2:** Ademais, aquilo que se faz para o culto de Deus deve ser marcado pelo decoro e pela gravidade, segundo Sl 34,18: "Louvar-te-ei em um povo grave [Douay: 'forte']." Mas parece cheirar a leviandade que um homem coma com pressa. Portanto, foi inconvenientemente mandado (Ex 12,11) que comessem o cordeiro pascal "com pressa". Outras coisas também relativas à comida do cordeiro foram prescritas, que parecem de todo irracionais. **Objeção 3:** Além disso, os sacramentos da Lei Velha eram figuras dos sacramentos da Lei Nova. Ora, o cordeiro pascal significava o sacramento da Eucaristia, segundo 1 Cor 5,7: "Cristo, nossa páscoa, foi imolado." Logo, deveria ter havido também alguns sacramentos da Lei Velha para prefigurar os outros sacramentos da Lei Nova, como a Confirmação, a Extrema-Unção, o Matrimônio, e assim por diante. **Objeção 4:** Ademais, a purificação dificilmente pode ser feita senão removendo algo impuro. Mas, quanto a Deus, nenhuma coisa corpórea é reputada impura, porque todos os corpos são criaturas de Deus; e "toda criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado, se é recebido com ações de graças" (1 Tm 4,4). Logo, foi inconveniente que eles fossem purificados após o contato com um cadáver, ou qualquer infecção corporal semelhante. **Objeção 5:** Ademais, está escrito (Eclo 34,4): "Que se pode tornar limpo pelo imundo?" Ora, as cinzas da vaca vermelha [*Cf. Hb 9,13] que foi queimada eram imundas, pois tornavam um homem imundo; porque está declarado (Nm 19,7 ss.) que o sacerdote que a imolava ficava imundo "até a tarde"; igualmente aquele que a queimava; e aquele que recolhia as suas cinzas. Logo, foi inconvenientemente prescrito ali que o imundo fosse purificado sendo aspergido com aquelas cinzas. **Objeção 6:** Ademais, os pecados não são algo corpóreo que possa ser levado de um lugar para outro; nem o homem pode ser limpo do pecado por meio de algo imundo. Foi, portanto, inconveniente que, para expiar os pecados do povo, o sacerdote confessasse os pecados dos filhos de Israel sobre um dos bodes, para que este os levasse para o deserto; enquanto se tornavam imundos pelo outro bode, que usavam para a purificação, queimando-o juntamente com o bezerro fora do acampamento; de modo que tinham de lavar as suas vestes e os seus corpos com água (Lv 16). **Objeção 7:** Ademais, o que já está limpo não deve ser limpo novamente. Foi, portanto, inconveniente aplicar uma segunda purificação a um homem purificado da lepra, ou a uma casa, como está estabelecido em Lv 14. **Objeção 8:** Ademais, a imundície espiritual não pode ser limpa por água material ou por raspar os cabelos. Parece, pois, irracional que o Senhor ordenasse (Ex 30,18 ss.) a feitura de uma bacia de bronze com o seu pé, para que os sacerdotes lavassem as mãos e os pés antes de entrar no templo; e que mandasse (Nm 8,7) aspergir os Levitas com a água da purificação e raspar todos os pelos da sua carne. **Objeção 9:** Ademais, o que é maior não pode ser limpo pelo que é menor. Logo, foi inconveniente que, na Lei, os sumos sacerdotes e os sacerdotes inferiores, como está dito em Lv 8 [*Cf. Ex 29], e os Levitas, segundo Nm 8, fossem consagrados com alguma unção corporal, sacrifícios corporais e oblações corporais. **Objeção 10:** Ademais, como está dito em 1 Sm 16,7, "O homem vê as coisas que aparecem, mas o Senhor vê o coração." Ora, o que aparece exteriormente no homem são as disposições do seu corpo e das suas vestes. Logo, foi inconveniente que vestes especiais fossem designadas para os sumos sacerdotes e sacerdotes inferiores, como se relata em Ex 28 [*Cf. Lv 8,7 ss.]. Parece, além disso, irracional que alguém fosse excluído do sacerdócio por defeitos do corpo, como está dito em Lv 21,17 ss.: "Qualquer homem da tua descendência nas suas gerações, que tiver defeito, não oferecerá pão ao seu Deus... se for cego, se for coxo", etc. Parece, portanto, que os sacramentos da Lei Velha foram irracionais. **Em contrário,** está escrito (Lv 20,8): "Eu sou o Senhor que vos santifico." Ora, nada de irracional é feito por Deus, pois está escrito (Sl 103,24): "Todas as coisas fizeste com sabedoria." Logo, não havia nada sem causa razoável nos sacramentos da Lei Velha, que foram ordenados para a santificação do homem. **Respondo que,** como foi dito acima (Q[101], A[4]), os sacramentos, propriamente falando, são coisas aplicadas aos adoradores de Deus para a sua consagração, de modo a destiná-los, de alguma maneira, ao culto de Deus. Ora, o culto de Deus pertencia de modo geral a todo o povo; mas de modo especial, pertencia aos sacerdotes e Levitas, que eram os ministros do culto divino. Consequentemente, nestes sacramentos da Lei Velha, certas coisas concerniam a todo o povo em geral; enquanto outras pertenciam aos ministros. Em relação a ambos, três coisas eram necessárias. A primeira era ser estabelecido no estado de adorar a Deus: e esta instituição era feita — para todos em geral, pela circuncisão, sem a qual ninguém era admitido a qualquer das observâncias legais — e para os sacerdotes, pela sua consagração. A segunda coisa necessária era o uso daquelas coisas que pertencem ao culto divino. E assim, quanto ao povo, havia a participação no banquete pascal, ao qual nenhum incircunciso era admitido, como é claro em Ex 12,43 ss.; e, quanto aos sacerdotes, a oferta das vítimas e a comida dos pães da proposição e de outras coisas que eram destinadas ao uso dos sacerdotes. A terceira coisa necessária era a remoção de todos os impedimentos ao culto divino, isto é, das imundícies. E então, quanto ao povo, foram instituídas certas purificações para a remoção de certas imundícies externas; e também expiações dos pecados; enquanto, quanto aos sacerdotes e Levitas, foram instituídas a lavagem das mãos e dos pés e a raspagem dos cabelos. E todas estas coisas tinham causas razoáveis, tanto literais, na medida em que eram ordenadas ao culto de Deus para aquele tempo, quanto figuradas, na medida em que eram ordenadas a prefigurar Cristo: como veremos tomando-as uma a uma. **Resposta à Objeção 1:** A principal razão literal da circuncisão era para que o homem professasse a sua crença em um só Deus. E porque Abraão foi o primeiro a separar-se dos infiéis, saindo da sua casa e da sua parentela, por esta razão foi ele o primeiro a receber a circuncisão. Esta razão é apresentada pelo Apóstolo (Rm 4,9 ss.) assim: "Ele recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que tinha, estando ainda incircunciso"; porque, a saber, nos é dito que "a Abraão foi imputada a fé para justiça", pela razão de que "contra a esperança ele creu na esperança", i.e., contra a esperança que é da natureza, ele creu na esperança que é da graça, "para que se tornasse pai de muitas nações", quando era velho, e sua esposa velha e estéril. E para que esta declaração e imitação da fé de Abraão fossem fixadas firmemente nos corações dos judeus, eles receberam na sua carne um sinal tal que não pudessem esquecer, pelo que está escrito (Gn 17,13): "A minha aliança estará na vossa carne como aliança perpétua." Isto foi feito no oitavo dia, porque até então a criança é muito tenra, e poderia ser gravemente ferida; e é considerada como algo ainda não consolidado: por isso nem os animais são oferecidos antes do oitavo dia. E não foi adiado depois daquele tempo, para que alguns não recusassem o sinal da circuncisão por causa da dor; e também para que os pais, cujo amor pelos filhos aumenta à medida que se acostumam com a sua presença e eles crescem, não retirassem os seus filhos da circuncisão. Uma segunda razão pode ter sido o enfraquecimento da concupiscência naquele membro. Um terceiro motivo pode ter sido vilipendiar o culto de Vénus e Priapo, que davam honra àquela parte do corpo. A proibição do Senhor se estendia apenas a cortar-se em honra dos ídolos: e tal não era a circuncisão de que temos falado. A razão figurada da circuncisão era que ela prefigurava a remoção da corrupção, que havia de ser realizada por Cristo, e será perfeitamente cumprida na oitava era, que é a era dos que ressuscitam dos mortos. E visto que toda corrupção de culpa e pena nos vem através da nossa origem carnal, do pecado do nosso primeiro pai, portanto a circuncisão era aplicada ao membro gerador. Por isso o Apóstolo diz (Cl 2,11): "Vós estais circuncidados" em Cristo "com a circuncisão não feita por mão no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de" Nosso Senhor Jesus "Cristo." **Resposta à Objeção 2:** A razão literal do banquete pascal era comemorar a bênção de ser conduzido por Deus para fora do Egito. Por isso, celebrando este banquete, declaravam que pertenciam àquele povo que Deus havia tomado para Si do Egito. Pois quando foram libertados do Egito, foi-lhes ordenado que aspergissem o sangue do cordeiro nas vergas das portas das suas casas, como que declarando que eram avessos aos ritos dos egípcios, que adoravam o carneiro. Por isso foram libertados pela aspersão ou unção do sangue do cordeiro nos umbrais das portas, do perigo de extermínio que ameaçava os egípcios. Ora, duas coisas devem ser observadas na sua saída do Egito: a saber, a pressa em partir, pois os egípcios os apertavam a sair rapidamente, como se relata em Ex 12,33; e havia perigo de que alguém que não se apressasse a ir com a multidão fosse morto pelos egípcios. A sua pressa foi mostrada de duas maneiras. Primeiro, pelo que comiam. Pois foi-lhes ordenado que comessem pães ázimos, como sinal "de que não podia ser levedado, apertando os egípcios a que partissem"; e que comessem carne assada, pois isto levava menos tempo a preparar; e que não quebrassem nenhum osso dela, porque na sua pressa não havia tempo para quebrar ossos. Em segundo lugar, quanto ao modo de comer. Pois está escrito: "Cingireis os vossos rins, e tereis os sapatos nos vossos pés, segurando bordões nas vossas mãos, e comereis com pressa": o que claramente designa homens prestes a iniciar uma viagem. A isto também se refere a ordem: "Numa só casa se comerá, nem levareis da sua carne para fora de casa": porque, a saber, por causa da sua pressa, não podiam enviar presentes dela. A aflição que sofreram no Egito era significada pelas alfaces amargas. A razão figurada é evidente, porque o sacrifício do cordeiro pascal significava o sacrifício de Cristo, segundo 1 Cor 5,7: "Cristo, nossa páscoa, foi imolado." O sangue do cordeiro, que assegurava a libertação do exterminador, sendo aspergido nas vergas, significava a fé na Paixão de Cristo, nos corações e nos lábios dos fiéis, pela qual mesma Paixão somos libertados do pecado e da morte, segundo 1 Pd 1,18: "Fostes resgatados... com o precioso sangue... de um cordeiro imaculado." A participação na sua carne significava a comida do corpo de Cristo no Sacramento; e a carne era assada ao fogo para significar a Paixão ou a caridade de Cristo. E era comida com pães ázimos para significar a vida irrepreensível dos fiéis que participam do corpo de Cristo, segundo 1 Cor 5,8: "Celebremos a festa... com os ázimos da sinceridade e da verdade." As alfaces amargas eram acrescentadas para denotar a penitência pelos pecados, que é exigida daqueles que recebem o corpo de Cristo. Os seus rins eram cingidos em sinal de castidade: e os sapatos nos seus pés são os exemplos dos nossos antepassados falecidos. Os bordões que deviam segurar nas mãos denotavam a autoridade pastoral: e foi ordenado que o cordeiro pascal fosse comido numa só casa, i.e., numa igreja católica, e não nos conventículos dos hereges. **Resposta à Objeção 3:** Alguns dos sacramentos da Lei Nova tinham sacramentos figurados correspondentes na Lei Velha. Pois o Batismo, que é o sacramento da Fé, corresponde à circuncisão. Por isso está escrito (Cl 2,11.12): "Estais circuncidados... na circuncisão de" Nosso Senhor Jesus "Cristo: sepultados com Ele no Batismo." Na Lei Nova, o sacramento da Eucaristia corresponde ao banquete do cordeiro pascal. O sacramento da Penitência na Lei Nova corresponde a todas as purificações da Lei Velha. O sacramento da Ordem corresponde à consagração do pontífice e dos sacerdotes. Ao sacramento da Confirmação, que é o sacramento da plenitude da graça, não haveria sacramento correspondente na Lei Velha, porque o tempo da plenitude ainda não havia chegado, visto que "a Lei não trouxe nada (Vulg.: 'ninguém') à perfeição" (Hb 7,19). O mesmo se aplica ao sacramento da Extrema-Unção, que é uma preparação imediata para a entrada na glória, à qual o caminho ainda não estava aberto na Lei Velha, pois o preço ainda não havia sido pago. O Matrimônio existia de fato na Lei Velha, como função da natureza, mas não como sacramento da união de Cristo com a Igreja, porque essa união ainda não havia sido realizada. Por isso, na Lei Velha era permitido dar libelo de divórcio, o que é contrário à natureza do sacramento. **Resposta à Objeção 4:** Como já foi dito, as purificações da Lei Velha foram ordenadas para a remoção dos impedimentos ao culto divino: o qual culto é duplo; a saber, espiritual, que consiste na devoção da mente a Deus; e corporal, que consiste em sacrifícios, oblações, e assim por diante. Ora, os homens são impedidos no culto espiritual pelos pecados, pelos quais se dizia que os homens estavam poluídos, por exemplo, pela idolatria, homicídio, adultério ou incesto. Dessas poluições os homens eram purificados por certos sacrifícios, oferecidos quer por toda a comunidade em geral, quer também pelos pecados dos indivíduos; não que aqueles sacrifícios carnais tivessem por si mesmos o poder de expiar o pecado; mas porque significavam aquela expiação dos pecados que havia de ser efetuada por Cristo, e da qual aqueles antigos se tornavam participantes professando a sua fé no Redentor, enquanto tomavam parte nos sacrifícios figurados. Os impedimentos ao culto externo consistiam em certas imundícies corporais; as quais eram consideradas primeiramente como existentes no homem, e consequentemente também em outros animais, e nas vestes, na habitação e nos vasos do homem. No próprio homem, a imundície era considerada como surgindo ora de si mesmo, ora do contato com coisas imundas. Qualquer coisa que procedesse do homem era reputada imunda se já estivesse sujeita à corrupção, ou exposta a ela: e consequentemente, visto que a morte é uma espécie de corrupção, o cadáver humano era considerado imundo. Do mesmo modo, visto que a lepra surge da corrupção dos humores, que irrompem externamente e infectam outras pessoas, por isso os leprosos também eram considerados imundos; e, ainda, as mulheres que sofriam de fluxo de sangue, quer por fraqueza, quer por natureza (seja no curso mensal, seja no tempo da conceção); e, pela mesma razão, os homens eram reputados imundos se sofressem de fluxo de semente, devido a fraqueza, polução noturna ou relação sexual. Porque todo humor que sai do homem nas maneiras acima mencionadas envolve alguma infecção imunda. Além disso, o homem contraía imundície tocando qualquer coisa imunda. Ora, havia tanto uma razão literal quanto uma figurada para estas imundícies. A razão literal era tirada da reverência devida àquelas coisas que pertencem ao culto divino: tanto porque os homens não costumam, quando imundos, tocar coisas preciosas; quanto para que, aproximando-se raramente das coisas sagradas, tivessem maior respeito por elas. Pois como o homem dificilmente podia evitar todas as imundícies acima mencionadas, resultava que os homens raramente podiam aproximar-se para tocar as coisas pertencentes ao culto de Deus, de modo que, quando se aproximavam, o faziam com maior reverência e humildade. Além disso, em algumas destas, a razão literal era que os homens não se afastassem de adorar a Deus por medo de entrar em contato com leprosos e outros igualmente afligidos por doenças repugnantes e contagiosas. Em outras, ainda, a razão era evitar o culto idólatra: porque nos seus ritos sacrificiais os Gentios às vezes empregavam sangue humano e semente. Todas estas imundícies corporais eram purificadas ou pela simples aspersão de água, ou, no caso daquelas que eram mais graves, por algum sacrifício de expiação pelo pecado que era a ocasião da imundície em questão. A razão figurada destas imundícies era que eram figuras de vários pecados. Pois a imundície de qualquer cadáver significa a imundície do pecado, que é a morte da alma. A imundície da lepra significava a imundície da doutrina herética: tanto porque a doutrina herética é contagiosa, como a lepra, quanto porque nenhuma doutrina é tão falsa que não tenha alguma verdade misturada com o erro, assim como na superfície de um corpo leproso se podem distinguir as partes sãs das infectadas. A imundície de uma mulher que sofre de fluxo de sangue denota a imundície da idolatria, por causa do sangue que é oferecido. A imundície do homem que sofreu perda seminal significa a imundície das palavras vãs, pois "a semente é a palavra de Deus". A imundície da relação sexual e da mulher no parto significa a imundície do pecado original. A imundície da mulher nos seus períodos significa a imundície de uma mente sensualizada pelo prazer. Falando de modo geral, a imundície contraída por tocar uma coisa imunda denota a imundície que surge do consentimento no pecado de outrem, segundo 2 Cor 6,17: "Saí do meio deles, e separai-vos... e não toqueis no que é imundo." Além disso, esta imundície proveniente do toque era contraída até por objetos inanimados; pois tudo o que era tocado de qualquer modo por um homem imundo tornava-se ele próprio imundo. Nisto a Lei atenuava a superstição dos Gentios, que sustentavam que a imundície era contraída não só pelo toque, mas também pela palavra ou pelo olhar, como o rabino Moisés afirma (Doct. Perplex. iii) a respeito de uma mulher nos seus períodos. O sentido místico disto era que "a Deus são igualmente odiosos o ímpio e a sua impiedade" (Sb 14,9). Havia também uma imundície de coisas inanimadas consideradas em si mesmas, como a imundície da lepra numa casa ou em vestes. Pois assim como a lepra ocorre nos homens através de um humor corrupto que causa putrefação e corrupção na carne; assim também, através de alguma corrupção e excesso de humidade ou secura, surge às vezes uma espécie de corrupção nas pedras com que uma casa é construída, ou nas vestes. Por isso a Lei chamava a esta corrupção pelo nome de lepra, pela qual uma casa ou uma veste era considerada imunda: tanto porque toda corrupção sabia a imundície, como foi dito acima, quanto porque os Gentios adoravam os seus deuses domésticos como preservativo contra esta corrupção. Por isso a Lei prescrevia que tais casas, onde esta espécie de corrupção era de natureza duradoura, fossem destruídas; e tais vestes, queimadas, para evitar toda ocasião de idolatria. Havia também uma imundície de vasos, sobre a qual está escrito (Nm 19,15): "O vaso que não tiver coberta, e atadura sobre ela, será imundo." A causa desta imundície era que qualquer coisa imunda podia cair facilmente em tais vasos, de modo a torná-los imundos. Além disso, esta ordem visava a prevenção da idolatria. Pois os idólatras acreditavam que se ratos, lagartos, ou coisas semelhantes, que costumavam sacrificar aos ídolos, caíssem nos vasos ou na água, estes se tornavam mais agradáveis aos deuses. Ainda agora algumas mulheres baixam vasos descobertos em honra das divindades noturnas que chamam "Janae". A razão figurada destas imundícies é que a lepra de uma casa significava a imundície da assembleia dos hereges; a lepra de uma veste de linho significava uma vida má proveniente da amargura da mente; a lepra de uma veste de lã denotava a maldade dos lisonjeadores; a lepra na urdidura significava os vícios da alma; a lepra na trama denotava os pecados da carne, pois assim como a urdidura está na trama, assim a alma está no corpo. O vaso que não tem coberta nem atadura significa um homem que carece do véu da taciturnidade e que não é refreado por nenhuma severidade de disciplina. **Resposta à Objeção 5:** Como foi dito acima (ad 4), havia na Lei uma dupla imundície; uma por via de corrupção na mente ou no corpo; e esta era a imundície mais grave; a outra era por mero contato com uma coisa imunda, e esta era menos grave e mais facilmente expiada. Porque a primeira imundície era expiada por sacrifícios pelos pecados, visto que toda corrupção é devida ao pecado e significa o pecado; enquanto a segunda imundície era expiada pela simples aspersão de uma certa água, da qual água lemos em Nm 19. Pois ali Deus ordenou que tomassem uma vaca vermelha em memória do pecado que cometeram ao adorar um bezerro. E menciona-se uma vaca antes que um bezerro, porque era assim que o Senhor costumava designar a sinagoga, segundo Os 4,16: "Israel desgarrou-se como uma novilha indômita": e isto foi, talvez, porque adoravam novilhas segundo o costume do Egito, segundo Os 10,5: "Adoraram as bezerras de Bet-Aven." E em detestação do pecado da idolatria, era imolada fora do acampamento; de fato, sempre que um sacrifício era oferecido em expiação da multidão de pecados, era todo queimado fora do acampamento. Além disso, para mostrar que este sacrifício purificava o povo de todos os seus pecados, "o sacerdote molhava o dedo no sangue dela" e aspergia "sete vezes defronte da porta do tabernáculo"; porque o número sete significava universalidade. Além disso, a própria aspersão de sangue pertencia à detestação da idolatria, na qual o sangue oferecido não era derramado, mas recolhido, e os homens se reuniam ao redor dele para comer em honra dos ídolos. Do mesmo modo, era queimada pelo fogo, quer porque Deus aparecera a Moisés num fogo, e a Lei foi dada do meio do fogo; quer para denotar que a idolatria, juntamente com tudo o que lhe era conexo, devia ser totalmente extirpada; assim como a vaca era queimada "com a sua pele e a sua carne, o seu sangue e o seu esterco sendo entregues às chamas". A esta queima eram acrescentados "madeira de cedro, hissopo e escarlata duas vezes tingida", para significar que, assim como a madeira de cedro não está sujeita à putrefação, e a escarlata duas vezes tingida não perde facilmente a sua cor, e o hissopo retém o seu odor depois de seco; também este sacrifício era para a preservação de todo o povo, e para o seu bom comportamento e devoção. Por isso se diz das cinzas da vaca: "Que sejam reservadas para a multidão dos filhos de Israel." Ou, segundo Josefo (Antiq. iii, 8,9,10), os quatro elementos são indicados aqui: pois "madeira de cedro" era acrescentada ao fogo, para significar a terra, por causa da sua terrosidade; "hissopo", para significar o ar, por causa do seu cheiro; "escarlata duas vezes tingida", para significar a água, pela mesma razão que a púrpura, por causa das tinturas que são tiradas da água: denotando assim o facto de que este sacrifício era oferecido ao Criador dos quatro elementos. E visto que este sacrifício era oferecido pelo pecado da idolatria, tanto "aquele que a queimava", como "aquele que recolhia as cinzas", como "aquele que aspergia a água" na qual as cinzas eram colocadas, eram considerados imundos em detestação daquele pecado, para mostrar que tudo o que estivesse de qualquer modo ligado à idolatria devia ser rejeitado como imundo. Desta imundície eram purificados pela simples lavagem das suas vestes; nem precisavam de ser aspergidos com a água por causa deste tipo de imundície, porque de outro modo o processo seria interminável, visto que aquele que aspergia a água se tornava imundo, de modo que, se ele se aspergisse a si mesmo, permaneceria imundo; e se outro o aspergisse, esse outro se teria tornado imundo, e assim por diante, indefinidamente. A razão figurada deste sacrifício era que a vaca vermelha significava Cristo na sua fraqueza assumida, denotada pelo sexo feminino; enquanto a cor da vaca designava o sangue da sua Paixão. E a "vaca vermelha era de idade perfeita", porque todas as obras de Cristo são perfeitas, "na qual não havia defeito"; "e que não tinha levado jugo", porque Cristo era inocente, nem levou o jugo do pecado. Foi ordenado que fosse levada a Moisés, porque O acusavam de transgredir a lei de Moisés ao quebrar o sábado. E foi ordenado que fosse entregue "a Eleazar, o sacerdote", porque Cristo foi entregue nas mãos dos sacerdotes para ser morto. Foi imolada "fora do acampamento", porque Cristo "padeceu fora da porta" (Hb 13,12). E o sacerdote molhava "o dedo no sangue dela", porque o mistério da Paixão de Cristo deve ser considerado e imitado. Era aspergido "defronte do tabernáculo", que denota a sinagoga, para significar quer a condenação dos judeus incrédulos, quer a purificação dos crentes; e isto "sete vezes", em sinal quer dos sete dons do Espírito Santo, quer dos sete dias nos quais todo o tempo está compreendido. Além disso, todas as coisas que pertencem à Encarnação de Cristo devem ser queimadas com fogo, i.e., devem ser entendidas espiritualmente; pois a "pele" e a "carne" significavam as obras externas de Cristo; o "sangue" denotava a força interna sutil que vivificava os seus atos externos; o "esterco" significava a sua fadiga, a sua sede, e todas as coisas semelhantes pertencentes à sua fraqueza. Três coisas eram acrescentadas, a saber, "madeira de cedro", que denota a altura da esperança ou da contemplação; "hissopo", em sinal de humildade ou fé; "escarlata duas vezes tingida", que denota a caridade dupla; pois é por estas três que nos devemos apegar a Cristo sofredor. As cinzas desta queima eram recolhidas por "um homem limpo", porque as relíquias da Paixão vieram a posse dos Gentios, que não eram culpados da morte de Cristo. As cinzas eram postas em água para efeito de expiação, porque o Batismo recebe da Paixão de Cristo o poder de lavar os pecados. O sacerdote que imolava e queimava a vaca, e aquele que a queimava, e aquele que recolhia as cinzas, eram imundos, assim como aquele que aspergia a água: quer porque os judeus se tornaram imundos ao dar a morte a Cristo, pela qual os nossos pecados são expiados; e isto até a tarde, i.e., até o fim do mundo, quando os restos de Israel serão convertidos; quer porque aqueles que trat

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether there can be any suitable cause for the sacraments of the Old Law? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que as cerimônias da Antiga Lei não cessaram com a vinda de Cristo. Pois está escrito (Bar 4,1): «Este é o livro dos mandamentos de Deus, e a lei que dura para sempre.» Ora, as cerimônias legais eram parte da Lei. Logo, as cerimônias legais haviam de durar para sempre. **Objeção 2:** Além disso, a oferta feita pelo leproso depois de purificado era uma cerimônia da Lei. Mas o Evangelho manda o leproso, depois de purificado, que faça esta oferta (Mat. 8,4). Logo, as cerimônias da Antiga Lei não cessaram com a vinda de Cristo. **Objeção 3:** Ademais, enquanto a causa permanece, o efeito permanece. Ora, as cerimônias da Antiga Lei tinham certas causas razoáveis, porquanto eram ordenadas ao culto de Deus, além do fato de que se destinavam a ser figuras de Cristo. Portanto, as cerimônias da Antiga Lei não deveriam ter cessado. **Objeção 4:** Ademais, a circuncisão foi instituída como sinal da fé de Abraão; a observância do sábado, para recordar a bênção da criação; e outras solenidades, em memória de outros benefícios divinos, como acima se disse (q. 102, a. 4, ad 10; a. 5, ad 1). Ora, a fé de Abraão deve ser sempre imitada até por nós; e a bênção da criação e os outros benefícios divinos nunca devem ser esquecidos. Logo, ao menos a circuncisão e as outras solenidades legais não deveriam ter cessado. **Em contrário,** o Apóstolo diz (Col. 2,16.17): «Ninguém vos julgue por causa de comida ou de bebida, ou a respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras»; e (Heb. 8,13): «Dizendo novo, envelheceu o primeiro; e o que envelhece e se faz velho, está perto do seu fim.» **Respondo que** todos os preceitos cerimoniais da Antiga Lei foram ordenados ao culto de Deus, como acima se disse (q. 101, a. 1 e 2). Ora, o culto exterior deve ser proporcionado ao culto interior, que consiste na fé, na esperança e na caridade. Consequentemente, o culto exterior estava sujeito a variações segundo as variações do culto interior, no qual se pode distinguir um tríplice estado. Um estado foi o da fé e da esperança, tanto nos bens celestiais como nos meios de os obter, considerados ambos como coisas futuras. Tal foi o estado da fé e da esperança na Antiga Lei. Outro estado do culto interior é aquele em que temos fé e esperança nos bens celestiais como coisas futuras, mas nos meios de obter os bens celestiais como coisas presentes ou passadas. Tal é o estado da Nova Lei. O terceiro estado é aquele em que ambos são possuídos como presentes; onde nada se crê como faltante, nada se espera como ainda por vir. Tal é o estado dos Bem-aventurados. Neste estado dos Bem-aventurados, portanto, nada haverá de figurativo no que diz respeito ao culto de Deus; haverá apenas «ação de graças e voz de louvor» (Is. 51,3). Por isso está escrito acerca da cidade dos Bem-aventurados (Apoc. 21,22): «Não vi templo nela; porque o Senhor Deus Todo-poderoso é o seu templo, e o Cordeiro.» Portanto, proporcionalmente, as cerimônias do primeiro estado, que prefiguravam o segundo e o terceiro estados, precisavam cessar com o advento do segundo estado; e outras cerimônias haviam de ser introduzidas, que estivessem de acordo com o estado do culto divino para aquele tempo particular, no qual os bens celestiais são coisa futura, mas os benefícios divinos pelos quais obtemos os dons celestiais são coisa presente. **Resposta à objeção 1:** A Antiga Lei é dita «para sempre» simples e absolutamente, quanto aos seus preceitos morais; mas quanto aos preceitos cerimoniais, dura para sempre em relação à realidade que aquelas cerimônias prefiguravam. **Resposta à objeção 2:** O mistério da redenção do gênero humano foi cumprido na Paixão de Cristo; por isso Nosso Senhor disse então: «Está consumado» (Jo. 19,30). Consequentemente, as prescrições da Lei deviam cessar então totalmente, por ter sido cumprida a sua realidade. Como sinal disto, lemos que na Paixão de Cristo «o véu do templo se rasgou» (Mat. 27,51). Por isso, antes da Paixão de Cristo, enquanto Cristo pregava e operava milagres, a Lei e o Evangelho eram concorrentes, pois o mistério de Cristo já começara, mas ainda não estava consumado. E por esta razão Nosso Senhor, antes da sua Paixão, mandou ao leproso que observasse as cerimônias legais. **Resposta à objeção 3:** As razões literais já dadas (q. 102) para as cerimônias referem-se ao culto divino, que era fundado na fé naquele que havia de vir. Por isso, com o advento daquele que havia de vir, tanto cessou aquele culto como todas as razões a ele referentes. **Resposta à objeção 4:** A fé de Abraão foi louvada porque ele creu na promessa de Deus acerca da sua descendência futura, na qual todas as nações seriam abençoadas. Por isso, enquanto esta descendência estava ainda por vir, era necessário fazer profissão da fé de Abraão mediante a circuncisão. Mas agora que está consumada, a mesma coisa precisa ser declarada por meio de outro sinal, a saber, o Batismo, que, sob este aspecto, tomou o lugar da circuncisão, segundo o dito do Apóstolo (Col. 2,11.12): «Vós fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de Cristo, sepultados com ele no Batismo.» Quanto ao sábado, que era um sinal recordativo da primeira criação, é substituído pelo «Dia do Senhor», que recorda o princípio da nova criatura na Ressurreição de Cristo. Do mesmo modo, as outras solenidades da Antiga Lei são substituídas por novas solenidades: porque os benefícios concedidos àquele povo prefiguravam os favores que nos foram outorgados por Cristo. Por isso, a festa da Páscoa deu lugar à festa da Paixão e Ressurreição de Cristo; a festa de Pentecostes, em que foi dada a Antiga Lei, à festa de Pentecostes em que foi dada a Lei do espírito vivificador; a festa da Lua Nova, à festa da Senhora, na qual apareceram os primeiros raios do sol, isto é, Cristo, pela plenitude da graça; a festa das Trombetas, às festas dos Apóstolos; a festa da Expiação, às festas dos Mártires e Confessores; a festa dos Tabernáculos, à festa da Dedicação da Igreja; a festa da Assembleia e Coleção, à festa dos Anjos, ou então à festa de Todos os Santos.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the ceremonies of the Old Law ceased at the coming of Christ? · séc. XIII

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