Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Cristo não morreu por obediência. Porque a obediência se refere a um mandamento. Ora, não lemos que Cristo tenha sido mandado padecer. Logo, não padeceu por obediência. Objeção 2: Além disso, diz-se que um homem faz por obediência aquilo que faz por necessidade de preceito. Mas Cristo não padeceu necessariamente, senão voluntariamente. Logo, não padeceu por obediência. Objeção 3: Além disso, a caridade é virtude mais excelente que a obediência. Ora, lemos que Cristo padeceu por caridade, conforme Efésios 5,2: «Andai em caridade, como também Cristo nos amou, e se entregou a si mesmo por nós.» Logo, a Paixão de Cristo deve ser atribuída antes à caridade do que à obediência. Ao contrário, está escrito (Filipenses 2,8): «Fez-se obediente» ao Pai «até a morte.» Respondo que convinha que Cristo padecesse por obediência. Primeiramente, porque estava de acordo com a justificação humana, que «assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão feitos justos», como está escrito em Romanos 5,19. Em segundo lugar, era conveniente para reconciliar o homem com Deus: donde está escrito (Romanos 5,10): «Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho», enquanto a morte de Cristo foi um sacrifício mui aceitável a Deus, conforme Efésios 5,2: «Entregou-se a si mesmo por nós como oferta e sacrifício a Deus em odor de suavidade.» Ora, a obediência é preferida a todos os sacrifícios, segundo 1 Reis 15,22: «Melhor é a obediência do que os sacrifícios.» Portanto, convinha que o sacrifício da Paixão e morte de Cristo procedesse da obediência. Em terceiro lugar, estava de acordo com a sua vitória, pela qual triunfou sobre a morte e seu autor; porque o soldado não pode vencer senão obedecendo ao seu capitão. E assim o Homem-Cristo alcançou a vitória por ser obediente a Deus, conforme Provérbios 21,28: «O homem obediente falará de vitória.» Resposta à Objeção 1: Cristo recebeu do Pai um mandamento para padecer. Pois está escrito (João 10,18): «Tenho poder para dar a minha vida, e tenho poder para retomá-la; (e) este mandamento recebi de meu Pai»—isto é, de dar a vida e de retomá-la. «Do qual,» como diz Crisóstomo (Hom. lix in Joan.), não se deve entender «que primeiro esperou o mandamento, e que teve necessidade de ser informado, mas mostrou que o procedimento era voluntário, e destruiu a suspeita de oposição» ao Pai. Contudo, porque a Lei Antiga foi abolida pela morte de Cristo, segundo suas palavras derradeiras, «Está consumado» (João 19,30), pode-se entender que, pelo seu padecimento, cumpriu todos os preceitos da Lei Antiga. Cumpriu os da ordem moral, que se fundam nos preceitos da caridade, na medida em que padeceu tanto por amor do Pai, conforme João 14,31: «Para que o mundo saiba que amo o Pai, e como o Pai me deu mandamento, assim faço: levantai-vos, vamo-nos daqui»—isto é, para o lugar da sua Paixão: e por amor do próximo, segundo Gálatas 2,20: «Amou-me e entregou-se a si mesmo por mim.» Cristo igualmente pela sua Paixão cumpriu os preceitos cerimoniais da Lei, que são principalmente ordenados para sacrifícios e oblações, na medida em que todos os antigos sacrifícios eram figuras daquele verdadeiro sacrifício que Cristo moribundo ofereceu por nós. Donde está escrito (Colossenses 2,16-17): «Ninguém vos julgue por causa do comer ou do beber, ou por respeito a um dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo,» pela razão de que Cristo é comparado a eles como o corpo à sombra. Cristo também pela sua Paixão cumpriu os preceitos judiciais da Lei, que são principalmente ordenados para fazer compensação àqueles que sofreram injustiça, pois, como está escrito no Salmo 68,5: Ele «pagou o que não tomou,» permitindo-se ser fixado a uma árvore por causa do fruto que o homem colhera da árvore contra o mandamento de Deus. Resposta à Objeção 2: Embora a obediência implique necessidade quanto à coisa mandada, contudo implica livre-arbítrio quanto ao cumprimento do preceito. E, de fato, tal foi a obediência de Cristo, pois, embora a sua Paixão e morte, consideradas em si mesmas, fossem repugnantes à vontade natural, Cristo resolveu cumprir a vontade de Deus a respeito delas, conforme o Salmo 39,9: «Que eu faça a tua vontade: ó meu Deus, eu a desejei.» Por isso disse (Mateus 26,42): «Se este cálice não pode passar, mas é preciso que eu o beba, faça-se a tua vontade.» Resposta à Objeção 3: Pela mesma razão, Cristo padeceu por caridade e por obediência; porque cumpriu até os preceitos da caridade somente por obediência; e foi obediente, por amor, ao mandamento do Pai.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ died out of obedience? · séc. XIII
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