Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1.** Parece que a superstição não é um vício contrário à religião. Pois um contrário não se inclui na definição do outro. Ora, a religião se inclui na definição de superstição: pois esta é definida como "observância imoderada da religião", segundo a glosa a Cl 2,23: "As quais coisas têm, na verdade, aparência de sabedoria na superstição". Logo, a superstição não é um vício contrário à religião. **Objeção 2.** Ademais, diz Isidoro (Etim. X): "Cícero (De Natura Deorum II, 28) afirma que os supersticiosos foram assim chamados porque passavam o dia a orar e oferecer sacrifícios para que seus filhos lhes sobrevivessem (superstites)". Ora, isto pode ser feito mesmo conforme o verdadeiro culto religioso. Portanto, a superstição não é um vício oposto à religião. **Objeção 3.** Ademais, a superstição parece denotar um excesso. Ora, a religião não admite excesso, visto que, como foi dito acima (q. 81, a. 5, ad 3), é impossível render a Deus, pela religião, o igual do que lhe devemos. Logo, a superstição não é um vício contrário à religião. **Em contrário,** diz Agostinho (De Decem Chordis, Sermão IX): "Feriste a primeira corda no culto de um só Deus, e caiu a fera da superstição". Ora, o culto de um só Deus pertence à religião. Portanto, a superstição é contrária à religião. **Respondo.** Como foi dito acima (q. 81, a. 5), a religião é uma virtude moral. Ora, toda virtude moral observa um meio-termo, conforme se disse (I-II, q. 64, a. 1). Logo, a uma virtude moral se opõe um duplo vício: um por excesso, outro por defeito. Além disso, o meio-termo da virtude pode ser excedido não só quanto à circunstância chamada "quanto", mas também quanto a outras circunstâncias; de modo que, em certas virtudes, como a magnanimidade e a magnificência, o vício excede o meio-termo da virtude não por tender a algo maior do que a virtude, mas possivelmente a algo menor, e todavia ultrapassa o meio-termo da virtude por fazer algo a quem não deve, ou quando não deve, e de modo semelhante quanto às demais circunstâncias, como mostra o Filósofo (Ética IV, 1, 2, 3). Portanto, a superstição é um vício contrário à religião por excesso, não porque ofereça mais ao culto divino do que a verdadeira religião, mas porque oferece culto divino a quem não deve, ou de modo como não deve. **Resposta à objeção 1.** Assim como falamos metaforicamente de "bem" entre coisas más — por exemplo, de um "bom ladrão" —, assim também, às vezes, os nomes das virtudes são empregados por transposição em sentido mau. Pois a prudência é usada por vezes em vez de astúcia, conforme Lc 16,8: "Os filhos deste século são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz". É desse modo que a superstição é descrita como religião. **Resposta à objeção 2.** A etimologia de uma palavra difere de seu significado. Pois a etimologia depende daquilo de que se toma a palavra para significar; ao passo que o significado depende da coisa à qual se aplica para significá-la. Ora, essas coisas às vezes diferem: pois "lápis" (pedra) toma o nome de magoar o pé (laedere pedem), mas este não é o seu significado; do contrário, o ferro, porque magoa o pé, seria uma pedra. Do mesmo modo, não se segue que "superstição" signifique aquilo de que a palavra deriva. **Resposta à objeção 3.** A religião não admite excesso quanto à quantidade absoluta, mas admite excesso quanto à quantidade proporcionada, na medida em que, no culto divino, pode fazer-se algo que não deve ser feito.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether superstition is a vice contrary to religion? · séc. XIII
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