Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que em Cristo não houve outro conhecimento infuso além do conhecimento beatífico. Pois todo outro conhecimento, comparado ao conhecimento beatífico, é como o imperfeito em relação ao perfeito. Ora, o conhecimento imperfeito é removido pela presença do conhecimento perfeito, assim como a visão clara «face a face» remove a visão enigmática da fé, como é evidente de 1 Cor 13,10.12. Visto, portanto, que em Cristo havia o conhecimento beatífico, conforme estabelecido acima (a. 2), parece que não poderia haver nenhum outro conhecimento impresso. Objeção 2: Ademais, um modo imperfeito de cognição dispõe para um mais perfeito, como a opinião, resultado de silogismos dialéticos, dispõe para a ciência, que resulta de silogismos demonstrativos. Ora, quando a perfeição é alcançada, não há mais necessidade da disposição, assim como, ao se atingir o termo, o movimento já não é necessário. Logo, uma vez que toda cognição criada se compara à cognição beatífica como o imperfeito ao perfeito e como a disposição ao seu termo, parece que, tendo Cristo o conhecimento beatífico, não Lhe era necessário ter qualquer outro conhecimento. Objeção 3: Ademais, assim como a matéria corpórea está em potência para as formas sensíveis, assim o intelecto possível está em potência para as formas inteligíveis. Ora, a matéria corpórea não pode receber duas formas ao mesmo tempo, uma mais perfeita e outra menos perfeita. Logo, também a alma não pode receber duplo conhecimento ao mesmo tempo, um mais perfeito e outro menos perfeito; e, portanto, a mesma conclusão que acima. Em contrário, está escrito (Cl 2,3): Em Cristo «estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência». Respondo: Conforme foi dito acima (a. 1), convinha que a natureza humana assumida pelo Verbo de Deus não fosse imperfeita. Ora, tudo o que está em potência é imperfeito, a menos que seja reduzido ao ato. Mas o intelecto passivo do homem está em potência para todas as coisas inteligíveis, e é reduzido ao ato pelas espécies inteligíveis, que são suas formas completivas, como é claro pelo que se diz no De Anima III, 32 e 38. E, portanto, devemos admitir na alma de Cristo um conhecimento infuso, enquanto o Verbo de Deus imprimiu na alma de Cristo, que Lhe está pessoalmente unida, as espécies inteligíveis de todas as coisas a que o intelecto possível está em potência; assim como no princípio da criação das coisas, o Verbo de Deus imprimiu espécies inteligíveis na mente angélica, como é claro por Agostinho (Gen. ad lit., II, 8). E, portanto, assim como nos anjos, segundo Agostinho (Gen. ad lit., IV, 22.24.30), há um duplo conhecimento — um o conhecimento matutino, pelo qual conhecem as coisas no Verbo; outro o conhecimento vespertino, pelo qual conhecem as coisas em suas naturezas próprias por espécies infusas — assim também, além do conhecimento divino e incriado em Cristo, há em Sua alma um conhecimento beatífico, pelo qual conhece o Verbo e as coisas no Verbo; e um conhecimento infuso ou impresso, pelo qual conhece as coisas em sua natureza própria por espécies inteligíveis proporcionadas à mente humana. Resposta à objeção 1: A visão imperfeita da fé é essencialmente oposta à visão manifesta, visto que é da essência da fé referir-se ao que não se vê, como foi dito acima (II-II, q. 1, a. 4). Mas a cognição por espécies infusas não inclui oposição à cognição beatífica. Portanto, não há paridade. Resposta à objeção 2: A disposição se refere à perfeição de dois modos: primeiro, como via que conduz à perfeição; segundo, como efeito que procede da perfeição; assim a matéria é disposta pelo calor para receber a forma do fogo, e, quando esta sobrevém, o calor não cessa, mas permanece como efeito dessa forma. Assim também a opinião causada por um silogismo dialético é via para o conhecimento, que se adquire pela demonstração; contudo, uma vez adquirido este, pode ainda permanecer o conhecimento obtido pelo silogismo dialético, seguindo, por assim dizer, o conhecimento demonstrativo, que se baseia na causa, pois quem conhece a causa é por isso mais capaz de compreender os sinais prováveis dos quais procedem os silogismos dialéticos. Assim, igualmente, em Cristo, juntamente com o conhecimento beatífico, permanece ainda o conhecimento infuso, não como via para a beatitude, mas como fortalecido pela beatitude. Resposta à objeção 3: O conhecimento beatífico não se dá por uma espécie, que seja uma semelhança da Essência Divina, ou de tudo o que é conhecido na Essência Divina, como é claro pelo que foi dito na I, q. 12, a. 2; mas é um conhecimento da Essência Divina imediatamente, enquanto a própria Essência Divina está unida à mente beatificada como um inteligível a um inteligente; e a Essência Divina é uma forma que excede a capacidade de qualquer criatura. Portanto, juntamente com esta forma superexcelente, nada impede que estejam na mente racional espécies inteligíveis proporcionadas à sua natureza.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether Christ had an imprinted or infused knowledge? · séc. XIII
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