Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a união da Encarnação não se deu pela graça. Pois a graça é um acidente, como se demonstrou acima (I-II, Q. 110, A. 2). Ora, a união da natureza humana com a divina não se deu acidentalmente, como se mostrou acima (A. 6). Logo, parece que a união da Encarnação não se deu pela graça. **Objeção 2:** Além disso, o sujeito da graça é a alma. Mas está escrito (Cl 2,9): «Em Cristo [Vulg.: 'nele'] habita toda a plenitude da Divindade corporalmente». Portanto, parece que esta união não se deu pela graça. **Objeção 3:** Ademais, todo santo é unido a Deus pela graça. Se, portanto, a união da Encarnação foi pela graça, pareceria que Cristo não é chamado Deus mais do que os outros homens santos. **Em contrário,** Agostinho diz (Da Predestinação dos Santos, XV): «Pela mesma graça todo homem se faz cristão, desde o princípio da sua fé, como este homem desde o seu princípio se fez Cristo». Ora, este homem se fez Cristo pela união com a Natureza Divina. Logo, esta união foi pela graça. **Respondo que,** Como se disse acima (I-II, Q. 110, A. 1), a graça se toma de dois modos: primeiro, como a vontade de Deus que gratuitamente concede algo; segundo, como o dom gratuito de Deus. Ora, a natureza humana necessita da vontade gratuita de Deus para ser elevada a Deus, pois isto está acima da sua capacidade natural. Além disso, a natureza humana é elevada a Deus de dois modos: primeiro, pela operação, como os santos conhecem e amam a Deus; segundo, pelo ser pessoal, e este modo pertence exclusivamente a Cristo, em quem a natureza humana é assumida de modo a estar na Pessoa do Filho de Deus. Mas é evidente que, para a perfeição da operação, a potência precisa ser aperfeiçoada por um hábito, ao passo que uma natureza ter o ser no seu próprio suposito não se dá por meio de um hábito. E, portanto, devemos dizer que, se a graça for entendida como a vontade de Deus que gratuitamente faz algo ou reputa algo como bem-agradável ou aceitável a Ele, a união da Encarnação se deu pela graça, assim como a união dos santos com Deus pelo conhecimento e amor. Mas, se a graça for tomada como o dom gratuito de Deus, então o fato de a natureza humana estar unida à Pessoa Divina pode ser chamado uma graça, na medida em que se deu sem ser precedida por nenhum mérito, mas não como se houvesse uma graça habitual, por meio da qual a união se desse. **Resposta à Objeção 1:** A graça que é um acidente é uma certa semelhança da Divindade participada pelo homem. Pela Encarnação, porém, não se diz que a natureza humana participou uma semelhança da natureza divina, mas que está unida à própria Natureza Divina na Pessoa do Filho. Ora, a própria coisa é maior do que uma semelhança participada dela. **Resposta à Objeção 2:** A graça habitual está apenas na alma; mas a graça, i.e., o dom gratuito de Deus, de estar unida à Pessoa Divina pertence a toda a natureza humana, que se compõe de alma e corpo. E por isso se diz que a plenitude da Divindade habitou corporalmente em Cristo, porque a Natureza Divina está unida não só à alma, mas também ao corpo. Embora também se possa dizer que habitou em Cristo corporalmente, i.e., não como em sombra, assim como habitou nos sacramentos da lei antiga, dos quais se diz no mesmo lugar (Cl 2,17) que são a «sombra das coisas futuras, mas o corpo é Cristo» [Vulg.: 'de Cristo'], na medida em que o corpo se opõe à sombra. E alguns dizem que a Divindade é dita ter habitado em Cristo corporalmente, i.e., de três modos, assim como um corpo tem três dimensões: primeiro, por essência, presença e poder, como nas outras criaturas; segundo, pela graça santificante, como nos santos; terceiro, pela união pessoal, que é própria de Cristo. **Resposta à Objeção 3:** Por onde é manifesta a resposta à terceira objeção, a saber, porque a união da Encarnação não se deu somente pela graça habitual, mas na subsistência ou pessoa.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 10 - Whether the union of the Incarnation took place by grace? · séc. XIII
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