Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a cegueira da mente e o embotamento dos sentidos não provêm dos pecados da carne. Pois Agostinho (Retratações I,4) retrata o que dissera nos Solilóquios I,1: “Ó Deus, que quisestes que só os limpos conhecessem a verdade”, e diz que se poderia replicar que “muitos, mesmo os impuros, conhecem muitas verdades”. Ora, os homens se tornam impuros principalmente pelos pecados da carne. Logo, a cegueira da mente e o embotamento dos sentidos não são causados pelos pecados da carne. **Objeção 2:** Além disso, a cegueira da mente e o embotamento dos sentidos são defeitos relativos à parte intelectiva da alma, enquanto os pecados carnais pertencem à corrupção da carne. Ora, a carne não age sobre a alma, mas antes o contrário. Portanto, os pecados da carne não causam cegueira da mente e embotamento dos sentidos. **Objeção 3:** Além disso, todas as coisas são mais passivas ao que lhes é próximo do que ao que é remoto. Ora, os vícios espirituais estão mais próximos da mente do que os vícios carnais. Logo, a cegueira da mente e o embotamento dos sentidos são causados pelos vícios espirituais mais do que pelos carnais. **Ao contrário,** Gregório diz (Moralia XXXI,45) que o embotamento dos sentidos provém da gula e a cegueira da mente, da luxúria. **Respondo** que a operação intelectual perfeita no homem consiste em uma abstração dos fantasmas sensíveis; por isso, quanto mais a mente do homem se liberta desses fantasmas, mais perfeitamente poderá considerar as coisas inteligíveis e ordenar todas as coisas sensíveis. Assim, Anaxágoras afirmou que o intelecto precisa ser “desprendido” para comandar, e que o agente deve ter poder sobre a matéria para poder movê-la. Ora, é evidente que o prazer fixa a atenção do homem naquilo em que ele se compraz; donde o Filósofo diz (Ética X,4,5) que todos fazemos melhor aquilo em que temos prazer em fazer, enquanto as outras coisas as fazemos ou de modo algum ou com desânimo. Ora, os vícios carnais, isto é, a gula e a luxúria, dizem respeito aos prazeres do tato nas coisas de comida e sexo; e estes são os mais impetuosos de todos os prazeres do corpo. Por esta razão, esses vícios fazem com que a atenção do homem se fixe muito firmemente nas coisas corpóreas, de modo que, em consequência, a operação do homem em relação às coisas inteligíveis é enfraquecida, mais, contudo, pela luxúria do que pela gula, porquanto os prazeres sexuais são mais veementes que os da mesa. Donde a luxúria dá origem à cegueira da mente, que exclui quase inteiramente o conhecimento das coisas espirituais, enquanto o embotamento dos sentidos provém da gula, que torna o homem fraco em relação às mesmas coisas inteligíveis. Por outro lado, as virtudes contrárias, isto é, a abstinência e a castidade, dispõem muito o homem para a perfeição da operação intelectual. Por isso está escrito (Dn 1,17): “Deus deu a estes meninos ciência e inteligência em toda a escritura e sabedoria.” **Resposta à primeira objeção:** Embora alguns que são escravos dos vícios carnais sejam às vezes capazes de considerações sutis sobre coisas inteligíveis, devido à perfeição de seu gênio natural ou de algum hábito a elas acrescentado, contudo, por causa dos prazeres do corpo, é necessário que sua atenção seja frequentemente retirada dessa contemplação sutil; donde os impuros podem conhecer algumas verdades, mas sua impureza é um entrave para seu conhecimento. **Resposta à segunda objeção:** A carne age sobre as faculdades intelectivas não as alterando, mas impedindo sua operação da maneira acima referida. **Resposta à terceira objeção:** É devido ao fato de que os vícios carnais estão mais afastados da mente que eles distraem a atenção da mente para coisas mais remotas, de modo que impedem ainda mais a contemplação da mente.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether blindness of mind and dulness of sense arise from sins of the flesh? · séc. XIII
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