Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os graus das ordens não são propriamente atribuídos. Porque a ordem dos prelados é a mais alta. Ora, os nomes de “Dominações”, “Principados” e “Potestades” por si mesmos implicam prelazia. Logo, estas ordens não devem ser supremas. Objeção 2: Ademais, quanto mais próxima uma ordem está de Deus, tanto mais alta é. Ora, a ordem dos “Tronos” é a mais próxima de Deus; pois nada está mais próximo do que está sentado do que o assento. Logo, a ordem dos “Tronos” é a mais alta. Objeção 3: Ademais, o conhecimento precede o amor, e o intelecto é mais alto que a vontade. Portanto, a ordem dos “Querubins” parece ser mais alta do que a dos “Serafins”. Objeção 4: Ademais, Gregório (Hom. xxiv in Evang.) coloca os “Principados” acima das “Potestades”. Estas, portanto, não são colocadas imediatamente acima dos Arcanjos, como diz Dionísio (Coel. Hier. ix). Em contrário, Dionísio (Coel. Hier. vii) coloca na hierarquia mais alta os “Serafins” como primeiros, os “Querubins” como médios, os “Tronos” como últimos; na hierarquia média coloca as “Dominações” como primeiras, as “Virtudes” no meio, as “Potestades” últimas; na hierarquia mais baixa os “Principados” primeiros, depois os “Arcanjos” e, por último, os “Anjos”. Respondo que os graus das ordens angélicas são atribuídos por Gregório (Hom. xxiv in Ev.) e Dionísio (Coel. Hier. vii), os quais concordam em tudo, exceto quanto aos “Principados” e “Virtudes”. Pois Dionísio coloca as “Virtudes” abaixo das “Dominações” e acima das “Potestades”; os “Principados” abaixo das “Potestades” e acima dos “Arcanjos”. Gregório, porém, coloca os “Principados” entre as “Dominações” e as “Potestades”; e as “Virtudes” entre as “Potestades” e os “Arcanjos”. Cada uma destas disposições pode reivindicar autoridade das palavras do Apóstolo, que (Efés. 1:20-21) enumera as ordens médias, começando pela mais baixa, dizendo que “Deus O estabeleceu”, isto é, a Cristo, “à Sua direita nos lugares celestiais, acima de todo Principado, e Potestade, e Virtude, e Dominação”. Aqui ele coloca as “Virtudes” entre “Potestades” e “Dominações”, segundo a disposição de Dionísio. Escrevendo, porém, aos Colossenses (1:16), enumerando as mesmas ordens desde a mais alta, diz: “Quer sejam Tronos, quer Dominações, quer Principados, quer Potestades, todas as coisas foram criadas por Ele e n’Ele”. Aqui ele coloca os “Principados” entre as “Dominações” e as “Potestades”, como também faz Gregório. Examinemos primeiro a razão da ordenação de Dionísio, na qual vemos que, como se disse acima (A[1]), a hierarquia mais alta contempla as ideias das coisas no próprio Deus; a segunda, nas causas universais; a terceira, na sua aplicação aos efeitos particulares. E porque Deus é o fim não só das ministrações angélicas, mas também de toda a criação, pertence à primeira hierarquia considerar o fim; à média, a disposição universal do que há de ser feito; à última, a aplicação desta disposição ao efeito, que é a execução da obra; pois é claro que estas três coisas existem em todo gênero de operação. Assim, Dionísio, considerando as propriedades das ordens derivadas dos seus nomes, coloca na primeira hierarquia aquelas ordens cujos nomes são tomados da sua relação com Deus: os “Serafins”, os “Querubins” e os “Tronos”; e coloca na hierarquia média aquelas ordens cujos nomes denotam um certo governo ou disposição comum: as “Dominações”, as “Virtudes” e as “Potestades”; e coloca na terceira hierarquia as ordens cujos nomes denotam a execução da obra: os “Principados”, os “Anjos” e os “Arcanjos”. Quanto ao fim, três coisas podem ser consideradas. Pois primeiro consideramos o fim; depois adquirimos o perfeito conhecimento do fim; terceiro, fixamos a nossa intenção no fim; das quais a segunda é um acréscimo à primeira, e a terceira, um acréscimo a ambas. E porque Deus é o fim das criaturas, assim como o chefe é o fim do exército, como diz o Filósofo (Metaph. xii, Did. xi, 10); assim, uma ordem um tanto semelhante pode ser vista nas coisas humanas. Pois há alguns que gozam da dignidade de poder com familiaridade aproximar-se do rei ou chefe; outros, além disso, têm o privilégio de conhecer os seus segredos; e outros, acima destes, permanecem sempre com ele, em íntima união. Segundo esta similitude, podemos entender a disposição nas ordens da primeira hierarquia; pois os “Tronos” são elevados de modo a serem os familiares receptáculos de Deus em si mesmos, no sentido de conhecer imediatamente os tipos das coisas n’Ele mesmo; e isto é próprio de toda a primeira hierarquia. Os “Querubins” conhecem os segredos divinos supereminentemente; e os “Serafins” sobressaem no que é a excelência suprema de todas, em estarem unidos ao próprio Deus; e tudo isto de tal maneira que toda esta hierarquia pode ser chamada de “Tronos”; assim como, pelo que é comum a todos os espíritos celestes juntos, todos são chamados “Anjos”. Quanto ao governo, três coisas estão compreendidas nele: a primeira é designar as coisas que hão de ser feitas, e isto pertence às “Dominações”; a segunda é dar o poder de executar o que há de ser feito, o que pertence às “Virtudes”; a terceira é ordenar como aquilo que foi mandado ou decidido ser feito pode ser executado por outros, o que pertence às “Potestades”. A execução das ministrações angélicas consiste em anunciar as coisas divinas. Ora, na execução de qualquer ação há iniciadores e líderes; como no canto, os precentores; e na guerra, os generais e oficiais; isto pertence aos “Principados”. Há outros que simplesmente executam o que deve ser feito; e estes são os “Anjos”. Outros ocupam um lugar médio; e estes são os “Arcanjos”, como acima foi explicado. Esta explicação das ordens é bastante razoável. Pois o mais alto numa ordem inferior tem sempre afinidade com o mais baixo na ordem superior; assim como os animais mais baixos estão próximos das plantas. Ora, a primeira ordem é a das Pessoas Divinas, que termina no Espírito Santo, que é o Amor procedente, com o qual a ordem mais alta da primeira hierarquia tem afinidade, denominada como é pelo fogo do amor. A ordem mais baixa da primeira hierarquia é a dos “Tronos”, que na sua própria ordem são aparentados com as “Dominações”; pois os “Tronos”, segundo Gregório (Hom. xxiv in Ev.), são assim chamados “porque através deles Deus realiza os Seus juízos”, uma vez que são iluminados por Ele de modo adaptado à iluminação imediata da segunda hierarquia, à qual pertence a disposição das ministrações divinas. A ordem das “Potestades” é aparentada com a ordem dos “Principados”; pois assim como pertence às “Potestades” impor ordem àqueles que lhes estão sujeitos, esta ordenação é claramente mostrada logo no nome de “Principados”, que, presidindo ao governo dos povos e reinos (o que ocupa o primeiro e principal lugar nas ministrações divinas), são os primeiros na execução delas; “porque o bem da nação é mais divino do que o bem de um só homem” (Ethic. i, 2); e por isso está escrito: “O príncipe do reino da Pérsia me resistiu” (Dan. 10:13). A disposição das ordens mencionada por Gregório também é razoável. Pois, uma vez que as “Dominações” designam e ordenam o que pertence às ministrações divinas, as ordens sujeitas a elas são dispostas segundo a disposição daquelas coisas nas quais as ministrações divinas são efetuadas. Contudo, como diz Agostinho (De Trin. iii), “os corpos são governados em certa ordem; os inferiores pelos superiores; e todos eles pela criatura espiritual, e o espírito mau pelo espírito bom”. Assim, a primeira ordem depois das “Dominações” é chamada de “Principados”, que governam até mesmo os bons espíritos; depois as “Potestades”, que coíbem os espíritos maus; assim como os malfeitores são coibidos pelos poderes terrenos, como está escrito (Rom. 13:3-4). Depois destas vêm as “Virtudes”, que têm poder sobre a natureza corpórea na operação de milagres; depois destas estão os “Anjos” e os “Arcanjos”, que anunciam aos homens quer coisas grandes acima da razão, quer coisas pequenas dentro do âmbito da razão. Resposta à Objeção 1: A sujeição do anjo a Deus é maior do que a sua presidência sobre as coisas inferiores; e esta última deriva da primeira. Assim, as ordens que derivam o seu nome
Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether the grades of the orders are properly assigned? · séc. XIII
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