Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não só a Deus pertence ser eterno. Porque está escrito que «os que a muitos ensinam a justiça serão como estrelas por eternidades perpétuas [*Douay: 'por toda a eternidade']» (Dan. 12,3). Ora, se só Deus fosse eterno, não poderia haver muitas eternidades. Logo, não só Deus é eterno. Objeção 2: Demais, está escrito: «Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno [*Douay: 'perpétuo']» (Mat. 25,41). Logo, não só Deus é eterno. Objeção 3: Demais, toda coisa necessária é eterna. Ora, há muitas coisas necessárias, como, por exemplo, todos os princípios de demonstração e todas as proposições demonstrativas. Logo, não só Deus é eterno. Em contrário, diz Jerônimo (Ep. ad Damasum, XV) que «Deus é o único que não tem princípio». Ora, o que tem princípio não é eterno. Logo, só Deus é eterno. Respondo que a eternidade verdadeira e propriamente dita só se encontra em Deus, porque a eternidade acompanha a imutabilidade, como se vê no primeiro artigo. Ora, só Deus é absolutamente imutável, como foi mostrado acima (Q. 9, A. 1). Contudo, na medida em que alguns recebem d’Ele a imutabilidade, participam da sua eternidade. Assim, alguns recebem de Deus a imutabilidade no modo de nunca cessar de existir; nesse sentido se diz da terra: «ela permanece para sempre» (Ecle. 1,4). Outras coisas, ainda, são chamadas eternas na Escritura pela longa duração, embora sejam corruptíveis por natureza; assim (Sl. 75,5) os montes são chamados «eternos» e lemos «dos frutos dos montes eternos» (Dt. 33,15). Outros, ainda, participam mais plenamente da natureza da eternidade, enquanto possuem a imutabilidade, seja no ser, seja mais ainda na operação, como os anjos e os bem-aventurados que gozam do Verbo, porque «quanto à visão do Verbo, nos Santos não há pensamentos mutáveis», como diz Agostinho (De Trin. XV). Por isso, os que veem a Deus são ditos possuir a vida eterna, conforme aquele texto: «E a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro» etc. (Jo. 17,3). Resposta à objeção 1: Dizem-se muitas eternidades, na medida em que muitos participam da eternidade pela contemplação de Deus. Resposta à objeção 2: O fogo do inferno chama-se eterno apenas porque nunca acaba. Contudo, há mudança nas penas dos condenados, segundo as palavras: «Do extremo calor passarão para as águas nevadas» (Jó 24,19). Por isso, no inferno não há verdadeira eternidade, e sim tempo, conforme o texto do Salmo: «O tempo deles será para sempre» (Sl. 80,16). Resposta à objeção 3: Necessário significa um certo modo de verdade; e a verdade, segundo o Filósofo (Metaf. VI), está na mente. Portanto, neste sentido, o verdadeiro e o necessário são eternos porque estão na mente eterna, que é o intelecto divino somente; por isso não se segue que algo além de Deus seja eterno.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether to be eternal belongs to God alone? · séc. XIII
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