Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a prudência se pode perder pelo esquecimento. Pois, sendo a ciência acerca de coisas necessárias, é mais certa que a prudência, que trata de questões contingentes da ação. Ora, a ciência perde-se pelo esquecimento. Logo, muito mais a prudência. Objeção 2: Além disso, como diz o Filósofo (Ética, II, 3), "as mesmas coisas, mas por processo contrário, geram e corrompem a virtude." Ora, a geração da prudência requer experiência, que se compõe "de muitas memórias", como ele afirma no início da Metafísica (I, 1). Logo, sendo o esquecimento contrário à memória, parece que a prudência se pode perder pelo esquecimento. Objeção 3: Além disso, não há prudência sem conhecimento dos universais. Ora, o conhecimento dos universais pode perder-se pelo esquecimento. Logo, a prudência também pode. Ao contrário, diz o Filósofo (Ética, VI, 5) que "o esquecimento é possível à arte, mas não à prudência." Respondo que o esquecimento respeita apenas o conhecimento; por isso, pode-se esquecer a arte e a ciência, de modo a perdê-las inteiramente, porque pertencem à razão. Mas a prudência não consiste só no conhecimento, mas também num ato do apetite, porque, como foi dito acima (A[8]), seu ato principal é o de mandar, pelo qual o homem aplica o conhecimento que tem ao fim da apetição e da operação. Portanto, a prudência não é eliminada diretamente pelo esquecimento, mas antes é corrompida pelas paixões. Pois diz o Filósofo (Ética, VI, 5) que "o prazer e a tristeza pervertem a avaliação da prudência"; donde está escrito (Dn 13,56): "A formosura te enganou, e a concupiscência te perverteu o coração"; e (Êx 23,8): "Nem tomarás presentes, que cegam até os prudentes." Todavia, o esquecimento pode impedir a prudência, na medida em que o comando desta depende do conhecimento que pode ser esquecido. Resposta à primeira objeção: A ciência está somente na razão; logo, a comparação não procede, como foi dito acima [cf. FS, q. 53, a. 1]. Resposta à segunda objeção: A experiência requerida pela prudência resulta não só da memória, mas também da prática de mandar retamente. Resposta à terceira objeção: A prudência consiste principalmente não no conhecimento dos universais, mas em aplicá-los à ação, como foi dito acima (A[3]). Por onde, o esquecimento do conhecimento dos universais não destrói a parte principal da prudência, mas a impede um tanto, como foi dito acima.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 16 - Whether prudence can be lost through forgetfulness? · séc. XIII
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