Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que dar esmola não é um ato de caridade. Pois sem a caridade não se podem fazer atos de caridade. Ora, é possível dar esmola sem ter caridade, conforme 1 Cor 13,3: “Ainda que eu distribua todos os meus bens para alimentar os pobres … e não tenha caridade, nada me aproveita.” Logo, dar esmola não é um ato de caridade. **Objeção 2:** Além disso, as obras de esmola são contadas entre as obras de satisfação, conforme Dn 4,24: “Remi os teus pecados com esmolas.” Ora, a satisfação é um ato de justiça. Logo, dar esmola é um ato de justiça, e não de caridade. **Objeção 3:** Ademais, a oferta de sacrifícios a Deus é um ato de religião. Mas dar esmola é oferecer um sacrifício a Deus, conforme Hb 13,16: “Não vos esqueçais da beneficência e da comunicação; porque com tais sacrifícios se alcança o favor de Deus.” Logo, dar esmola não é um ato de caridade, mas de religião. **Objeção 4:** Além disso, o Filósofo diz (Ética, iv, 1) que dar para um bom fim é um ato de liberalidade. Ora, isto se verifica especialmente na esmola. Logo, dar esmola não é um ato de caridade. **Em contrário,** está escrito 1 Jo 3,17: “Aquele que tiver os bens deste mundo, e vir o seu irmão padecer necessidade, e lhe fechar as suas entranhas, como é que a caridade de Deus está nele?” **Respondo que** os atos externos pertencem àquela virtude que considera o motivo de se fazer esses atos. Ora, o motivo de dar esmola é socorrer a quem está necessitado. Pelo que alguns definiram a esmola como “uma obra pela qual se dá alguma coisa ao necessitado, por compaixão e por amor de Deus”, o qual motivo pertence à misericórdia, como foi dito acima (Q. 30, A. 1,2). Por isso é claro que dar esmola é, propriamente, um ato de misericórdia. Isto aparece no próprio nome; pois em grego *eleemosyne* deriva de ter misericórdia (*eleein*), assim como o latim *miseratio*. E, visto que a misericórdia é um efeito da caridade, como foi mostrado acima (Q. 30, A. 2, A. 3, Obj. 3), segue-se que dar esmola é um ato de caridade por meio da misericórdia. **Resposta à objeção 1:** Um ato de virtude pode ser considerado de dois modos. Primeiro, materialmente: assim, um ato de justiça é fazer o que é justo; e tal ato de virtude pode dar-se sem a virtude, pois muitos, sem ter o hábito da justiça, fazem o que é justo, guiados pela luz natural da razão, ou por temor, ou na esperança de ganho. Segundo, falamos de uma coisa como ato de justiça formalmente; e assim o ato de justiça é fazer o que é justo do mesmo modo que o justo, ou seja, com prontidão e deleite; e tal ato de virtude não pode dar-se sem a virtude. Portanto, a esmola pode dar-se materialmente sem caridade; mas dar esmola formalmente, isto é, por amor de Deus, com deleite e prontidão, e inteiramente como se deve, não é possível sem caridade. **Resposta à objeção 2:** Nada impede que o ato próprio e eliciado de uma virtude seja mandado por outra virtude, enquanto esta o ordena e o dirige para o seu próprio fim. É deste modo que a esmola é contada entre as obras de satisfação, na medida em que a compaixão pelo desgraçado se ordena à satisfação pelo seu pecado; e na medida em que se ordena a aplacar Deus, tem o caráter de sacrifício; e assim é mandada pela religião. Donde é clara a **resposta à terceira objeção**. **Resposta à objeção 4:** A esmola pertence à liberalidade, enquanto a liberalidade remove um obstáculo a esse ato, que poderia provir do amor excessivo das riquezas, do qual resulta que o homem se apega a elas mais do que deve.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether almsgiving is an act of charity? · séc. XIII
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