Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os anjos não existem em grande número. Pois o número é uma espécie de quantidade e acompanha a divisão de um corpo contínuo. Ora, isto não pode dar-se nos anjos, visto que são incorpóreos, como se demonstrou acima (A[1]). Logo, os anjos não podem existir em grande número. Objeção 2: Além disso, quanto mais uma coisa se aproxima da unidade, tanto menos se multiplica, como é evidente nos números. Ora, entre as outras naturezas criadas, a natureza angélica é a que mais se aproxima de Deus. Logo, visto que Deus é sumamente uno, parece que na natureza angélica há o menor número possível. Objeção 3: Além disso, o efeito próprio das substâncias separadas parece ser os movimentos dos corpos celestes. Ora, os movimentos dos corpos celestes estão compreendidos num pequeno número determinado, que podemos apreender. Logo, os anjos não existem em maior número do que os movimentos dos corpos celestes. Objeção 4: Dionísio diz (Div. Nom. iv) que "todas as substâncias inteligíveis e intelectuais subsistem por causa dos raios da divina bondade". Ora, um raio multiplica-se somente conforme os diferentes seres que o recebem. Não se pode dizer que a sua matéria seja receptiva de um raio inteligível, pois as substâncias intelectuais são imateriais, como se mostrou acima (A[2]). Parece, portanto, que a multiplicação das substâncias intelectuais só pode dar-se segundo a exigência dos primeiros corpos, isto é, dos corpos celestes, de modo que de alguma forma a forma difusiva dos referidos raios neles seja terminada; e daí se segue a mesma conclusão de antes. Em contrário, está escrito (Dn 7,10): "Mil milhares o serviam, e dez mil vezes cem mil estavam diante dele." Respondo. Houve várias opiniões acerca do número das substâncias separadas. Platão sustentava que as substâncias separadas são as espécies das coisas sensíveis; como se disséssemos que a natureza humana é uma substância separada por si mesma; e, segundo esta opinião, seria necessário afirmar que o número das substâncias separadas é o número das espécies das coisas sensíveis. Aristóteles, porém, rejeita esta opinião (Metaph. i, text. 31) porque a matéria pertence à própria natureza da espécie das coisas sensíveis. Por conseguinte, as substâncias separadas não podem ser as espécies exemplares destas coisas sensíveis; mas têm suas naturezas fixas, que são superiores às naturezas das coisas sensíveis. Todavia, Aristóteles sustentou (Metaph. xi, text. 43) que aquelas naturezas mais perfeitas se relacionam com estas coisas sensíveis como motor e fim; e, por isso, esforçou-se por determinar o número das substâncias separadas segundo o número dos primeiros movimentos. Ora, como isto parece ir contra os ensinamentos da Sagrada Escritura, o rabi Moisés, o judeu, desejando conciliar ambos, sustentou que os anjos, enquanto chamados substâncias imateriais, se multiplicam segundo o número dos movimentos ou corpos celestes, como Aristóteles ensinou (Metaph. xi, text. 43); enquanto afirmava que nas Escrituras também os homens que transmitem uma mensagem divina são chamados anjos; e ainda, as próprias forças das coisas naturais, que manifestam o poder onipotente de Deus. Porém, é totalmente alheio ao costume das Escrituras que as forças das coisas irracionais sejam designadas como anjos. Por isso, é necessário dizer que os anjos, mesmo enquanto substâncias imateriais, existem em número excessivamente grande, ultrapassando toda a multidão material. Isto é o que Dionísio diz (Coel. Hier. xiv): "Há muitos exércitos bem-aventurados das inteligências celestes, que superam a débil e limitada conta dos nossos números materiais." A razão disto é a seguinte: porque, sendo a perfeição do universo o que Deus principalmente visa na criação das coisas, quanto mais perfeitas são algumas coisas, com tanto maior excesso são criadas por Deus. Ora, assim como nos corpos se observa tal excesso quanto à sua magnitude, assim nas coisas incorpóreas se observa quanto à sua multidão. Com efeito, vemos que os corpos incorruptíveis excedem os corpos corruptíveis quase incomparavelmente em magnitude; pois toda a esfera das coisas ativas e passivas é algo muito pequeno em comparação com os corpos celestes. Logo, é razoável concluir que as substâncias imateriais excedem, por assim dizer, incomparavelmente as substâncias materiais quanto à multidão. Resposta à primeira objeção. Nos anjos, o número não é o da quantidade discreta, produzida pela divisão do contínuo, mas aquele que é causado pela distinção das formas; conforme a multidão é contada entre os transcendentais, como se disse acima (Q. 30, a. 3; Q. 11). Resposta à segunda objeção. Por ser a natureza angélica a mais próxima de Deus, deve ter menos multidão na sua composição, mas não de modo a existir em poucos sujeitos. Resposta à terceira objeção. Este é o argumento de Aristóteles (Metaph. xii, text. 44), e concluiria necessariamente se as substâncias separadas fossem feitas para as substâncias corpóreas. Porque assim as substâncias imateriais existiriam em vão, a menos que algum movimento delas aparecesse nas coisas corpóreas. Mas não é verdade que as substâncias imateriais existam por causa das corpóreas, pois o fim é mais nobre do que os meios para o fim. Por isso Aristóteles diz (Metaph. xii, text. 44) que este não é um argumento necessário, mas provável. Ele foi forçado a usar este argumento, porque só através das coisas sensíveis podemos chegar a conhecer as inteligíveis. Resposta à quarta objeção. Este argumento provém da opinião daqueles que sustentam que a matéria é a causa da distinção das coisas; mas isto foi refutado acima (Q. 47, a. 1). Portanto, a multiplicação dos anjos não deve ser tomada segundo a matéria, nem segundo os corpos, mas segundo a sabedoria divina que dispõe as diversas ordens das substâncias imateriais.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether the angels exist in any great number? · séc. XIII
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