Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a adivinhação não é pecado. Adivinhação deriva de algo «divino»; e as coisas divinas pertencem à santidade, e não ao pecado. Logo parece que a adivinhação não é pecado. Objeção 2: Além disso, Agostinho diz (Do Livre Arbítrio I, 1): «Quem ousará dizer que o aprender é um mal?» e ainda: «De modo algum admitiria que a inteligência pode ser um mal». Ora, algumas artes são divinatórias, como o Filósofo afirma (Da Memória I); e a própria adivinhação parece pertencer a uma certa inteligência da verdade. Logo parece que a adivinhação não é pecado. Objeção 3: Além disso, não há inclinação natural para o mal, porque a natureza só se inclina para o que lhe é semelhante. Ora, os homens por inclinação natural procuram pressaber os eventos futuros; e isto pertence à adivinhação. Logo a adivinhação não é pecado. Em contrário, está escrito (Dt 18,10-11): «Não se ache entre vós quem consulte espíritos pítonicos ou adivinhadores», e afirma-se nas Decretais (26, qu. V, cân. Qui divinationes): «Os que buscam as adivinhações estarão sujeitos a uma penitência de cinco anos, segundo os graus fixos de penitência». Respondo que a adivinhação designa uma predição do futuro. Ora, o futuro pode ser conhecido de dois modos: primeiro, nas suas causas; segundo, em si mesmo. As causas do futuro são tríplices: umas produzem os seus efeitos necessariamente e sempre; e tais efeitos futuros podem ser conhecidos e preditos com certeza a partir da consideração das suas causas, como os astrólogos predizem um eclipse vindouro. Outras causas produzem os seus efeitos não necessariamente e sempre, mas na maioria das vezes, e raramente falham; e a partir de tais causas podem-se conhecer os seus efeitos futuros, não com certeza, mas por uma espécie de conjectura, como os astrólogos, considerando os astros, podem conhecer e predizer coisas relativas a chuvas e secas, e os médicos, relativas à saúde e à morte. Outras causas, ainda, consideradas em si mesmas, são indiferentes; e isto se dá principalmente nas potências racionais, que se comportam em relação aos opostos, segundo o Filósofo (Metaf. VIII, 2,5,8). Tais efeitos, assim como os que provêm de causas naturais por acaso e na minoria dos casos, não podem ser conhecidos a partir da consideração das suas causas, porque essas causas não têm inclinação determinada para produzi-los. Consequentemente, tais efeitos não podem ser conhecidos a menos que sejam considerados em si mesmos. Ora, o homem não pode considerar esses efeitos em si mesmos senão quando estão presentes, como quando vê Sócrates correndo ou andando; a consideração de tais coisas em si mesmas antes de ocorrerem é própria de Deus, que só Ele na Sua eternidade vê o futuro como se fosse presente, como foi dito na Primeira Parte (Q. 14, a. 13; Q. 57, a. 3; Q. 86, a. 4). Por isso está escrito (Is 41,23): «Anunciai-nos as coisas que hão de vir depois, e saberemos que sois deuses». Portanto, se alguém presume conhecer ou predizer tais coisas futuras por qualquer meio que seja, exceto pela revelação divina, usurpa manifestamente o que pertence a Deus. É por esta razão que certos homens são chamados divinos; pelo que Isidoro diz (Etim. VIII, 9): «São chamados divinos, como se estivessem cheios de Deus. Com efeito, fingem estar cheios da Divindade, e com uma fraude enganosa predizem o futuro aos homens». Assim, não se chama adivinhação se alguém prediz coisas que acontecem necessariamente, ou na maioria dos casos, porque tais podem ser conhecidas pela razão humana; nem tampouco se alguém conhece outros futuros contingentes por revelação divina; porque então não adivinha, isto é, não causa algo divino, mas antes recebe algo divino. Só se diz que um homem adivinha quando usurpa para si, de modo indevido, a predição de eventos futuros; e isto é manifestamente pecado. Por conseguinte, a adivinhação é sempre pecado; e por esta razão Jerônimo diz no seu comentário a Miqueias 3,9 ss. que «a adivinhação é sempre tomada em mau sentido». Resposta à objeção 1: A adivinhação toma o seu nome não de uma participação retamente ordenada de algo divino, mas de uma usurpação indevida dele, como foi dito. Resposta à objeção 2: Há certas artes para a presciência de eventos futuros que ocorrem necessária ou frequentemente, e estas não pertencem à adivinhação. Mas não há verdadeiras artes ou ciências para o conhecimento de outros eventos futuros, mas apenas vãs invenções do engano do demónio, como diz Agostinho (Da Cidade de Deus XXI, 8). Resposta à objeção 3: O homem tem inclinação natural para conhecer o futuro por meios humanos, mas não pelos meios indevidos da adivinhação.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether divination is a sin? · séc. XIII
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