Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a incredulidade não é o maior dos pecados. Pois Agostinho diz (De Bapt. contra Donat. iv, 20): “Eu hesitaria em decidir se um católico muito perverso deve ser preferido a um herege, em cuja vida nada se encontra repreensível além do fato de ser herege.” Ora, um herege é um incrédulo. Logo, não devemos afirmar absolutamente que a incredulidade é o maior dos pecados. Objeção 2: Além disso, aquilo que diminui ou desculpa um pecado não parece ser o maior dos pecados. Ora, a incredulidade desculpa ou diminui o pecado: pois o Apóstolo diz (1 Tm 1,12‑13): “Eu, que antes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; porém alcancei misericórdia… porque o fiz com ignorância na incredulidade.” Portanto, a incredulidade não é o maior dos pecados. Objeção 3: Ademais, o maior pecado merece maior castigo, segundo Dt 25,2: “Segundo a medida do pecado será também a medida dos açoites.” Ora, maior castigo é devido aos crentes do que aos incrédulos, conforme Hb 10,29: “Quanto maiores suplícios cuidais vós que merecerá aquele que pisou o Filho de Deus, e teve por imundo o sangue do testamento, com o qual foi santificado?” Logo, a incredulidade não é o maior dos pecados. Ao contrário, Agostinho, comentando Jo 15,22: “Se eu não viera e lhes falara, não teriam pecado”, diz (Trat. lxxxix sobre João): “Sob o nome geral, refere‑se a um pecado singularmente grande. Pois este”, isto é, a incredulidade, “é o pecado ao qual todos os outros se reduzem.” Portanto, a incredulidade é o maior dos pecados. Respondo: Todo pecado consiste formalmente na aversão de Deus, como foi dito acima (FS, Q[71], A[6]; FS, Q[73], A[3]). Portanto, quanto mais um pecado separa o homem de Deus, mais grave é. Ora, o homem é mais do que nunca separado de Deus pela incredulidade, porque não tem sequer o verdadeiro conhecimento de Deus; e pelo falso conhecimento de Deus, o homem não se aproxima d’Ele, mas é separado d’Ele. E não é possível que aquele que tem uma opinião falsa sobre Deus o conheça de modo algum, porque o objeto de sua opinião não é Deus. Portanto, é claro que o pecado da incredulidade é maior do que qualquer pecado que ocorre na perversão dos costumes. Isto não se aplica aos pecados que são opostos às virtudes teologais, como será dito adiante (Q[20], A[3]; Q[34], A[2], ad 2; Q[39], A[2], ad 3). Resposta à objeção 1: Nada impede que um pecado mais grave em seu gênero seja menos grave em consideração a algumas circunstâncias. Por isso Agostinho hesitou em decidir entre um mau católico e um herege que não pecava de outro modo, porque embora o pecado do herege seja mais grave genericamente, pode ser atenuado por uma circunstância, e, inversamente, o pecado do católico pode ser agravado por alguma circunstância. Resposta à objeção 2: A incredulidade inclui tanto a ignorância, como acessória, como a resistência às coisas da fé, e sob este último aspecto é um pecado gravíssimo. Contudo, com respeito a essa ignorância, tem certa razão de desculpa, especialmente quando alguém não peca por maldade, como foi o caso do Apóstolo. Resposta à objeção 3: O incrédulo é punido mais severamente pelo seu pecado de incredulidade do que outro pecador o é por qualquer pecado que seja, se considerarmos o gênero do pecado. Mas no caso de outro pecado, por exemplo, o adultério, cometido por um crente e por um incrédulo, o crente, em igualdade de circunstâncias, peca mais gravemente do que o incrédulo, tanto por causa de seu conhecimento da verdade pela fé, quanto por causa dos sacramentos da fé com que foi saciado, e que insulta ao cometer pecado.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether unbelief is the greatest of sin? · séc. XIII
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