Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a caridade não é algo criado na alma. Pois Agostinho diz (De Trin. viii, 7): "Aquele que ama o seu próximo, consequentemente, ama o próprio amor." Ora, Deus é amor. Logo, segue-se que ele ama a Deus em primeiro lugar. Diz ainda (De Trin. xv, 17): "Foi dito: Deus é Caridade, assim como foi dito: Deus é Espírito." Portanto, a caridade não é algo criado na alma, mas é o próprio Deus. Objeção 2: Ademais, Deus é a vida da alma espiritualmente, assim como a alma é a vida do corpo, conforme Dt. 30,20: "Ele é a tua vida." Ora, a alma por si mesma vivifica o corpo. Logo, Deus vivifica a alma por Si mesmo. Mas Ele a vivifica pela caridade, segundo 1 Jo. 3,14: "Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos." Portanto, Deus é a própria caridade. Objeção 3: Ademais, nenhuma coisa criada é de poder infinito; pelo contrário, toda criatura é vaidade. Ora, a caridade não é vaidade, antes é oposta à vaidade; e é de poder infinito, pois leva a alma humana ao bem infinito. Logo, a caridade não é algo criado na alma. Ao contrário, Agostinho diz (De Doctr. Christ. iii, 10): "Por caridade entendo o movimento da alma para o gozo de Deus por si mesmo." Ora, um movimento da alma é algo criado na alma. Logo, a caridade é algo criado na alma. Respondo que o Mestre examina profundamente esta questão na Q[17] do Primeiro Livro, e conclui que a caridade não é algo criado na alma, mas é o próprio Espírito Santo habitando na mente. Nem quer ele dizer que este movimento de amor pelo qual amamos a Deus seja o próprio Espírito Santo, mas que este movimento é do Espírito Santo sem qualquer hábito intermediário, ao passo que outros atos virtuosos são do Espírito Santo por meio dos hábitos das outras virtudes, por exemplo, o hábito da fé ou da esperança ou de alguma outra virtude: e isto ele disse por causa da excelência da caridade. Mas, se considerarmos devidamente a questão, isto, pelo contrário, seria prejudicial à caridade. Pois quando o Espírito Santo move a mente humana, o movimento da caridade não procede desta moção de tal modo que a mente humana seja meramente movida, sem ser o princípio deste movimento, como quando um corpo é movido por uma potência motriz extrínseca. Pois isto é contrário à natureza do ato voluntário, cujo princípio precisa estar em si mesmo, como foi dito acima (FS, Q[6], A[1]): de modo que se seguiria que amar não é um ato voluntário, o que envolve uma contradição, pois o amor, por sua própria natureza, implica um ato da vontade. Da mesma forma, não se pode dizer que o Espírito Santo move a vontade para o ato de amar como se a vontade fosse um instrumento, pois um instrumento, embora seja princípio de ação, não tem contudo o poder de agir ou não agir, pois então novamente o ato deixaria de ser voluntário e meritório, enquanto foi dito acima (FS, Q[114], A[4]) que o amor da caridade é a raiz do mérito: e, dado que a vontade é movida pelo Espírito Santo para o ato de amor, é necessário que a vontade seja também a causa eficiente desse ato. Ora, nenhum ato é perfeitamente produzido por uma potência ativa, a menos que seja conatural a essa potência em razão de alguma forma que é o princípio dessa ação. Por onde Deus, que move todas as coisas aos seus devidos fins, conferiu a cada coisa a forma pela qual é inclinada ao fim a ela designado por Ele; e deste modo "dispõe todas as coisas suavemente" (Sab. 8,1). Mas é evidente que o ato de caridade supera a natureza da potência da vontade, de modo que, portanto, a menos que alguma forma seja superadicionada à potência natural, inclinando-a ao ato de amor, este mesmo ato seria menos perfeito que os atos naturais e os atos das outras potências; nem seria fácil e prazeroso de realizar. E isto é evidentemente falso, pois nenhuma virtude tem uma inclinação tão forte ao seu ato como a caridade, nem nenhuma virtude realiza seu ato com tão grande prazer. Portanto, é sumamente necessário que, para realizarmos o ato de caridade, haja em nós alguma forma habitual superadicionada à potência natural, inclinando essa potência ao ato de caridade, e fazendo-a agir com facilidade e prazer. Resposta à Objeção 1: A própria Essência Divina é caridade, assim como é sabedoria e bondade. Por onde, assim como dizemos ser bons com a bondade que é Deus, e sábios com a sabedoria que é Deus (pois a bondade pela qual somos formalmente bons é uma participação da bondade divina, e a sabedoria pela qual somos formalmente sábios é uma participação da sabedoria divina), assim também a caridade pela qual formalmente amamos o próximo é uma participação da caridade divina. Pois este modo de falar é comum entre os platônicos, com cujas doutrinas Agostinho estava imbuído; e a falta de atenção a isto foi para alguns ocasião de erro. Resposta à Objeção 2: Deus é efetivamente a vida tanto da alma pela caridade, como do corpo pela alma: mas formalmente a caridade é a vida da alma, assim como a alma é a vida do corpo. Consequentemente, podemos concluir disto que, assim como a alma está imediatamente unida ao corpo, também a caridade o está à alma. Resposta à Objeção 3: A caridade opera formalmente. Ora, a eficácia de uma forma depende do poder do agente, que infunde a forma, pelo que é evidente que a caridade não é vaidade. Mas porque produz um efeito infinito, pois, justificando a alma, une-a a Deus, isto prova a infinitude do poder divino, que é o autor da caridade.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether charity is something created in the soul? · séc. XIII
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