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Dt 6, 5

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Matos Soares

5Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força.

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não se pode amar a Deus totalmente. Porque o amor segue o conhecimento. Ora, Deus não pode ser totalmente conhecido por nós, pois isto implicaria compreendê-Lo. Logo, não pode ser totalmente amado por nós. Objeção 2: Ademais, o amor é uma espécie de união, como mostra Dionísio (Div. Nom. iv). Mas o coração do homem não pode ser totalmente unido a Deus, porque "Deus é maior que o nosso coração" (1 Jo 3,20). Logo, Deus não pode ser totalmente amado. Objeção 3: Ademais, Deus ama-Se totalmente. Se, portanto, for totalmente amado por outro, este O amará tanto quanto Deus Se ama. Mas isto é irrazoável. Logo, Deus não pode ser totalmente amado por uma criatura. Em contrário, está escrito (Dt 6,5): "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração." Respondo: Visto que o amor pode ser considerado como algo entre o amante e o amado, quando perguntamos se Deus pode ser totalmente amado, a questão pode ser entendida de três modos: primeiro, de modo que a qualificação "totalmente" se refira à coisa amada, e assim Deus deve ser amado totalmente, pois o homem deve amar tudo o que pertence a Deus. Segundo, pode ser entendido como se "totalmente" qualificasse o amante: e assim, ainda, Deus deve ser amado totalmente, pois o homem deve amar a Deus com todas as suas forças e referir tudo o que tem ao amor de Deus, segundo Dt 6,5: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração." Terceiro, pode ser entendido por via de comparação do amante com a coisa amada, de modo que o modo do amante iguale o modo da coisa amada. Isto é impossível: pois, visto que uma coisa é amável na proporção de sua bondade, Deus é infinitamente amável, pois Sua bondade é infinita. Ora, nenhuma criatura pode amar a Deus infinitamente, porque todo poder das criaturas, seja natural ou infuso, é finito. Isto basta para as Respostas às Objeções, porque as três primeiras objeções consideram a questão neste terceiro sentido, enquanto a última a toma no segundo sentido.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether God can be loved wholly? [*Cf. Q[184], A[2]] · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1.** Parece que não foi convenientemente mandado que o homem ame a Deus de todo o seu coração. Porque o modo do ato virtuoso não é matéria de preceito, como foi mostrado acima (A.1, ad 1; I-II, q.100, a.9). Ora, as palavras «de todo o teu coração» significam o modo do amor de Deus. Logo, não foi convenientemente mandado que o homem ame a Deus de todo o seu coração. **Objeção 2.** Demais: «Uma coisa é inteira e perfeita quando nada lhe falta» (Fís. iii, 6). Se, portanto, é matéria de preceito que Deus seja amado de todo o coração, quem quer que faça algo que não pertence ao amor de Deus obra contra o preceito e, consequentemente, peca mortalmente. Ora, o pecado venial não pertence ao amor de Deus. Logo, o pecado venial seria pecado mortal, o que é absurdo. **Objeção 3.** Demais: Amar a Deus de todo o coração pertence à perfeição, pois, segundo o Filósofo (Fís. iii, text. 64), «ser inteiro é ser perfeito». Ora, o que pertence à perfeição não é matéria de preceito, mas de conselho. Portanto, não nos deve ser mandado que amemos a Deus de todo o coração. **Ao contrário,** está escrito (Dt 6,5): «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração.» **Respondo que,** sendo os preceitos dados acerca dos atos das virtudes, um ato é matéria de preceito conforme é ato de virtude. Ora, para que um ato seja virtuoso, é necessário não apenas que recaia sobre a sua própria matéria, mas também que seja revestido das suas devidas circunstâncias, pelas quais se adapta a essa matéria. Mas Deus deve ser amado como fim último, ao qual todas as coisas devem ser referidas. Por isso, cumpria indicar alguma totalidade a respeito do preceito do amor de Deus. **Resposta à objeção 1.** O mandamento que prescreve um ato de virtude não prescreve o modo que essa virtude recebe de outra e superior virtude; mas prescreve o modo que pertence à sua própria virtude, e esse modo é significado pelas palavras «de todo o teu coração». **Resposta à objeção 2.** Amar a Deus de todo o coração tem dupla significação. Primeiro, atualmente, de modo que todo o coração do homem esteja sempre atualmente dirigido a Deus: esta é a perfeição da pátria. Segundo, no sentido de que todo o coração do homem esteja habitualmente dirigido a Deus, de modo que não consinta em nada contrário ao amor de Deus: e esta é a perfeição da via. O pecado venial não é contrário a esta última perfeição, porque não destrói o hábito da caridade, visto que não tende a um objeto contrário, mas apenas impede o uso da caridade. **Resposta à objeção 3.** Aquela perfeição da caridade a que se ordenam os conselhos está entre as duas perfeições mencionadas na resposta precedente; e consiste em o homem renunciar, quanto possível, às coisas temporais, mesmo às lícitas, porque elas ocupam o espírito e impedem o movimento atual do coração para Deus.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether it is fittingly commanded that man should love God with his whole heart? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que não foi conveniente acrescentar às palavras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração", as expressões: "e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças" (Dt 6,5). Pois coração não significa aqui uma parte do corpo, visto que amar a Deus não é uma ação corporal; portanto, coração deve ser tomado aqui em sentido espiritual. Ora, o coração entendido espiritualmente é ou a própria alma ou uma parte dela. Logo, é supérfluo mencionar tanto coração como alma. Objeção 2: Além disso, a força de um homem, quer espiritual quer corporal, depende do coração. Portanto, depois das palavras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração", era desnecessário acrescentar: "com toda a tua força". Objeção 3: Ademais, em Mt 22,37 lemos: "com todo o teu entendimento", palavras que não ocorrem aqui. Logo, parece que este preceito está inconvenientemente redigido em Dt 6. Ao contrário, está a autoridade da Escritura. Respondo que este preceito está redigido diversamente em vários lugares: pois, como dissemos na primeira objeção, em Dt 6 mencionam-se três pontos: "de todo o teu coração", e "de toda a tua alma", e "de toda a tua força". Em Mt 22 encontramos dois destes mencionados, a saber: "de todo o teu coração" e "de toda a tua alma", omitindo-se "de toda a tua força", mas acrescenta-se "de todo o teu entendimento". Contudo, em Mc 12 encontramos todos os quatro, a saber: "de todo o teu coração", e "de toda a tua alma", e "de todo o teu entendimento", e "de toda a tua força", que é o mesmo que "poder". Além disso, estes quatro são indicados em Lc 10, onde em lugar de "força" ou "poder" lemos "com todas as tuas forças". [*Santo Tomás está explicando o texto latino que lê "ex tota fortitudine tua" (Dt), "ex tota virtute tua" (Mc) e "ex omnibus tuis" (Lc), embora o grego nos três casos tenha {ex holes tes ischyos}, que a versão Douay traduz "with thy whole strength".] Por conseguinte, estes quatro itens devem ser explicados, visto que o fato de um deles ser omitido aqui ou ali se deve a que um implica o outro. Devemos, pois, notar que o amor é um ato da vontade, a qual é aqui designada pelo "coração", porque, assim como o coração corporal é o princípio de todos os movimentos do corpo, assim também a vontade, especialmente quanto à intenção do fim último, que é o objeto da caridade, é o princípio de todos os movimentos da alma. Ora, há três princípios de ação que são movidos pela vontade, a saber: o intelecto, significado pela "mente"; a potência apetitiva inferior, significada pela "alma"; e a potência executiva exterior, significada pela "força", "poder" ou "vigor". Por conseguinte, somos mandados a dirigir toda a nossa intenção para Deus, e isto é significado pelas palavras "de todo o teu coração"; a submeter o nosso intelecto a Deus, e isto é expresso nas palavras "de todo o teu entendimento"; a regular o nosso apetite segundo Deus, nas palavras "de toda a tua alma"; e a obedecer a Deus nas nossas ações exteriores, e isto é amar a Deus com toda a nossa "força", "poder" ou "vigor". Crisóstomo [*A citação é de uma obra inacabada de um autor anônimo (Opus imperf. Hom. xlii, in Matth.) que é incluída nas obras de Crisóstomo], por outro lado, toma "coração" e "alma" no sentido contrário; e Agostinho (De Doctr. Christ. i, 22) refere "coração" ao pensamento, "alma" ao modo de vida, e "mente" ao intelecto. Outros, ainda, explicam "de todo o teu coração" como designando o intelecto, "de toda a tua alma" como significando a vontade, "com toda a tua mente" como apontando para a memória. E, ainda, segundo Gregório de Nissa (De Hom. Opif. viii), "coração" significa a alma vegetativa, "alma" a sensitiva, e "mente" a alma intelectiva, porque a nossa nutrição, sensação e entendimento devem ser todos por nós referidos a Deus. Isto basta para as Respostas às Objeções.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether to the words, 'Thou shalt love the Lord thy God with thy whole heart,' it was fitting to add 'and with thy whole soul, and with thy whole strength'? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que, nesta vida, é possível cumprir este preceito do amor de Deus. Pois, segundo Jerónimo [*Pelágio, Exposição da Fé Católica], “maldito seja aquele que diz que Deus mandou alguma coisa impossível”. Ora, Deus deu este mandamento, como é claro em Dt 6,5. Logo, é possível cumprir este preceito nesta vida. **Objeção 2:** Além disso, quem não cumpre um preceito peca mortalmente, porque, segundo Ambrósio (Do Paraíso, VIII), o pecado não é senão “uma transgressão da Lei Divina e desobediência aos mandamentos celestiais”. Se, portanto, este preceito não pode ser cumprido pelos peregrinos, segue-se que, nesta vida, ninguém pode estar sem pecado mortal; e isto vai contra o dito do Apóstolo (1 Cor 1,8): “o qual também vos confirmará até ao fim, para que sejais irrepreensíveis”, e (1 Tm 3,10): “e estes sejam primeiro provados, e depois exerçam o ministério, se forem irrepreensíveis”. **Objeção 3:** Além disso, os preceitos são dados para dirigir o homem no caminho da salvação, segundo Sl 18,9: “O preceito do Senhor é lúcido, que alumia os olhos”. Ora, é inútil dirigir alguém para o que é impossível. Logo, não é impossível cumprir este preceito nesta vida. **Em contrário,** Agostinho diz (Da Perfeição da Justiça, VIII): “Na plenitude da caridade celestial se cumprirá este preceito: ‘Amarás o Senhor teu Deus’, etc.” Pois, enquanto permanece alguma concupiscência carnal, que pode ser refreada pela continência, o homem não pode amar a Deus de todo o seu coração. **Respondo:** Um preceito pode ser cumprido de dois modos: perfeitamente e imperfeitamente. Cumpre-se perfeitamente o preceito quando se atinge o fim pretendido pelo autor do preceito; cumpre-se, porém, imperfeitamente, quando, embora não se alcance o fim pretendido pelo seu autor, não se abandona a ordem para esse fim. Assim, se o comandante de um exército ordena a seus soldados que combatam, a sua ordem será perfeitamente obedecida por aqueles que combatem e vencem o inimigo – o que é a intenção do comandante; contudo, é cumprida, ainda que imperfeitamente, por aqueles que combatem sem alcançar a vitória, desde que nada façam contra a disciplina militar. Ora, Deus, com este preceito, pretende que o homem esteja inteiramente unido a Ele; e isso realizar-se-á no céu, quando Deus for “tudo em todos”, segundo 1 Cor 15,28. Por isso, este preceito será observado plena e perfeitamente no céu; contudo, é cumprido, embora imperfeitamente, na via. Todavia, na via, um homem o cumprirá mais perfeitamente do que outro, e tanto mais quanto se aproxima, por alguma semelhança, da perfeição do céu. **Resposta à primeira objeção:** Este argumento prova que o preceito pode ser cumprido de alguma maneira na via, mas não perfeitamente. **Resposta à segunda objeção:** Assim como o soldado que combate legitimamente sem vencer não é censurado nem merece ser punido por isso, assim também aquele que não cumpre este preceito na via, mas nada faz contra o amor de Deus, não peca mortalmente. **Resposta à terceira objeção:** Como diz Agostinho (Da Perfeição da Justiça, VIII), “por que não seria prescrita esta perfeição ao homem, embora ninguém a atinja nesta vida? Pois não se pode correr retamente se não se sabe para onde correr. E como se saberia isto, se nenhum preceito o indicasse?”

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether it is possible in this life to fulfil this precept of the love of God? · séc. XIII

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