Santo Thomas Aquinas
**Artigo 3 — Se a essência de Deus pode ser vista com o olho corporal.** **Objecção 1:** Parece que a essência de Deus pode ser vista pelo olho corporal. Porquanto está escrito (Job 19,26): «Na minha carne verei a Deus», e (Job 42,5): «Com o ouvido do ouvido te ouvi, mas agora o meu olho te vê.» **Objecção 2:** Demais, Agostinho diz (Cidade de Deus xxix, 29): «Aqueles olhos» (a saber, os glorificados) «terão, portanto, um maior poder de visão, não tanto para ver mais perspicazmente, como alguns referem da vista das serpentes ou das águias (pois qualquer acuidade de visão que possuam estas criaturas, só podem ver coisas corporais), mas para ver até mesmo coisas incorpóreas.» Ora, quem pode ver coisas incorpóreas pode ser elevado a ver a Deus. Logo, o olho glorificado pode ver a Deus. **Objecção 3:** Demais, Deus pode ser visto pelo homem mediante uma visão imaginária. Porquanto está escrito: «Vi o Senhor assentado sobre um trono», etc. (Isaías 6,1). Ora, a visão imaginária origina-se do sentido; pois a imaginação é movida pelo sentido a agir. Portanto, Deus pode ser visto por uma visão dos sentidos. **Em contrário,** Agostinho diz (A respeito de ver a Deus, Ep. cxlvii): «Ninguém jamais viu a Deus, nem nesta vida como Ele é, nem na vida angélica, como as coisas visíveis são vistas pela visão corporal.» **Respondo que** é impossível que Deus seja visto pelo sentido da vista, ou por qualquer outro sentido, ou faculdade da potência sensitiva. Pois toda potência deste género é o acto de um órgão corporal, como se mostrará adiante (Q. 78). Ora, o acto é proporcionado à natureza que o possui. Logo, nenhuma potência deste género pode transcender as coisas corporais. Pois Deus é incorpóreo, como foi demonstrado acima (Q. 3, A. 1). Portanto, não pode ser visto pelo sentido nem pela imaginação, mas apenas pelo intelecto. **Resposta à objecção 1:** As palavras «Na minha carne verei a Deus, meu Salvador» não significam que Deus será visto com o olho da carne, mas que o homem, existindo na carne depois da ressurreição, verá a Deus. Do mesmo modo, as palavras «Agora o meu olho te vê» devem ser entendidas do olho da mente, como diz o Apóstolo: «Ele vos dê o espírito de sabedoria… no conhecimento d’Ele, para que os olhos do vosso coração sejam iluminados» (Efésios 1,17-18). **Resposta à objecção 2:** Agostinho fala como quem investiga, e condicionalmente. Isto aparece pelo que diz anteriormente: «Portanto, terão um poder totalmente diferente (a saber, os olhos glorificados), se virem aquela natureza incorpórea»; e depois explica isto, dizendo: «É muito crível que veremos os corpos mundanos do novo céu e da nova terra, de modo a ver clarissimamente Deus presente em toda a parte, governando todas as coisas corporais, não como agora vemos as coisas invisíveis de Deus, entendidas por aquilo que foi feito; mas como, quando vemos homens entre os quais vivemos, vivendo e exercendo as funções da vida humana, não cremos que vivem, mas vemo-lo.» Assim, é evidente como os olhos glorificados verão a Deus, como agora os nossos olhos veem a vida de outro. Mas a vida não é vista com o olho corporal, como uma coisa em si mesma visível, mas como objecto indirecto do sentido; a qual, na verdade, não é conhecida pelo sentido, mas imediatamente, juntamente com o sentido, por alguma outra potência cognitiva. Mas que a presença divina seja conhecida pelo intelecto imediatamente à vista, e mediante, coisas corporais, acontece por duas causas: pela perspicácia do intelecto e pela refulgência da glória divina infundida no corpo depois da sua renovação. **Resposta à objecção 3:** A essência de Deus não é vista numa visão imaginária; mas a imaginação recebe alguma forma que representa Deus segundo algum modo de semelhança; como na divina Escritura as coisas divinas são descritas metaforicamente por meio de coisas sensíveis.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether the essence of God can be seen with the bodily eye? · séc. XIII
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