Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Cristo, enquanto homem, não é a cabeça dos anjos. Porque a cabeça e os membros são de uma mesma natureza. Ora, Cristo, enquanto homem, não é da mesma natureza que os anjos, mas tão-somente dos homens, pois como está escrito (Heb 2,16): «Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão.» Logo, Cristo, enquanto homem, não é a cabeça dos anjos. Objeção 2: Ademais, Cristo é a cabeça dos que pertencem à Igreja, que é o seu Corpo, como está escrito (Ef 1,23). Ora, os anjos não pertencem à Igreja. Porque a Igreja é a congregação dos fiéis; e nos anjos não há fé, pois eles não «andam por fé, mas por vista»; de outro modo estariam «ausentes do Senhor», como argumenta o Apóstolo (2 Cor 5,6-7). Logo, Cristo, enquanto homem, não é a cabeça dos anjos. Objeção 3: Além disso, Agostinho diz (Tract. XIX; XXIII in Joan.) que, assim como «o Verbo», que «estava no princípio junto do Pai», vivifica as almas, assim o «Verbo feito carne» vivifica os corpos, dos quais os anjos carecem. Ora, o Verbo feito carne é Cristo, enquanto homem. Logo, Cristo, enquanto homem, não dá vida aos anjos e, portanto, enquanto homem, não é a cabeça dos anjos. Em contrário, diz o Apóstolo (Cl 2,10): «O qual é a cabeça de todo o principado e potestade», e a mesma razão vale para as outras ordens de anjos. Portanto, Cristo é a Cabeça dos anjos. Respondo: Como se disse acima (A[1], ad 2), onde há um corpo, é necessário reconhecer que há uma cabeça. Ora, uma multidão ordenada a um mesmo fim, com atos e deveres distintos, pode ser chamada metaforicamente de um corpo. Mas é manifesto que tanto os homens como os anjos são ordenados a um mesmo fim, que é a glória da fruição divina. Por conseguinte, o corpo místico da Igreja não consiste apenas de homens, mas também de anjos. Ora, de toda essa multidão Cristo é a Cabeça, pois está mais próximo de Deus e participa de seus dons mais plenamente, não só do que os homens, mas até mesmo do que os anjos; e de seu influxo participam não apenas os homens, mas também os anjos, pois está escrito (Ef 1,20-22) que Deus Pai «o fez sentar à sua direita nos céus, acima de todo principado, e potestade, e virtude, e dominação, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas debaixo de seus pés». Portanto, Cristo não é apenas a Cabeça dos homens, mas também dos anjos. Donde lemos (Mt 4,11) que «os anjos se chegaram e o serviam». Resposta à objeção 1: O influxo de Cristo sobre os homens é principalmente quanto às suas almas; nelas os homens concordam com os anjos na natureza genérica, embora não na natureza específica. Em razão dessa concordância, Cristo pode ser chamado de Cabeça dos anjos, embora a concordância seja deficiente quanto ao corpo. Resposta à objeção 2: A Igreja, na terra, é a congregação dos fiéis; mas, no céu, é a congregação dos compreensores. Ora, Cristo não foi apenas viandante, mas também compreensor. E, portanto, Ele é a Cabeça não só dos fiéis, mas também dos compreensores, por ter a graça e a glória em plenitude. Resposta à objeção 3: Agostinho usa aqui a semelhança de causa e efeito, enquanto as coisas corpóreas atuam sobre os corpos e as espirituais sobre as espirituais. Contudo, a humanidade de Cristo, em virtude da natureza espiritual, isto é, divina, pode causar algo não só nos espíritos dos homens, mas também nos espíritos dos anjos, por causa de sua estreitíssima conjunção com Deus, ou seja, pela união pessoal.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether Christ is the Head of the angels? · séc. XIII
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