Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que em Cristo não houve livre-arbítrio. Pois Damasceno diz (De Fide Orth. iii, 14) que *gnome*, i.e., opinião, pensamento ou cogitação, e *proairesis*, i.e., escolha, "não podem de modo algum ser atribuídas ao nosso Senhor, se quisermos falar com propriedade". Ora, nas coisas da fé, sobretudo, devemos falar com propriedade. Logo, não houve escolha em Cristo e, consequentemente, nenhum livre-arbítrio, do qual a escolha é o ato. **Objeção 2:** Ademais, o Filósofo diz (Ética iii, 2) que a escolha é "um desejo de algo após deliberação". Ora, a deliberação não parece existir em Cristo, porque não deliberamos acerca daquelas coisas de que estamos certos. Mas Cristo estava certo de tudo. Portanto, não houve deliberação e, consequentemente, nenhum livre-arbítrio em Cristo. **Objeção 3:** Ademais, o livre-arbítrio é indiferente. Ora, a vontade de Cristo estava determinada para o bem, visto que não podia pecar, como foi dito acima (Q[15], AA[1],2). Logo, não houve livre-arbítrio em Cristo. **Em contrário,** está escrito (Is 7,15): "Ele comerá manteiga e mel, para que saiba rejeitar o mal e escolher o bem", o que é ato do livre-arbítrio. Portanto, houve livre-arbítrio em Cristo. **Respondo que,** como foi dito acima (A[3]), houve em Cristo um duplo ato da vontade: um, pelo qual era atraído a algo querido em si mesmo, o que implica a natureza de fim; outro, pelo qual sua vontade era atraída a algo querido por estar ordenado a outro — o que pertence à natureza de meio. Ora, como diz o Filósofo (Ética iii, 2), a escolha difere da vontade nisto: a vontade, por si mesma, diz respeito ao fim, ao passo que a escolha diz respeito aos meios. E assim, a simples vontade é o mesmo que a "vontade como natureza"; mas a escolha é o mesmo que a "vontade como razão", e é o ato próprio do livre-arbítrio, como foi dito na Primeira Parte, Q[83], A[3]. Portanto, visto que a "vontade como razão" está posta em Cristo, devemos também pôr a escolha e, consequentemente, o livre-arbítrio, cujo ato é a escolha, como foi dito na Primeira Parte, Q[83], A[3]; Primeira da Segunda, Q[13], A[1]. **Resposta à Objeção 1:** Damasceno exclui a escolha de Cristo na medida em que considera que na palavra escolha está implícita a dúvida. Contudo, a dúvida não é necessária à escolha, pois até mesmo a Deus pertence escolher, segundo Efésios 1,4: "Ele nos elegeu nele antes da fundação do mundo", embora em Deus não haja dúvida. Todavia, a dúvida é acidental à escolha quando esta se dá numa natureza ignorante. O mesmo podemos dizer de tudo o mais que é mencionado na passagem citada. **Resposta à Objeção 2:** A escolha pressupõe a deliberação; contudo, só segue a deliberação enquanto determinada pelo juízo. Pois aquilo que julgamos dever ser feito, nós o escolhemos após a inquirição da deliberação, como se afirma (Ética iii, 2,3). Portanto, se algo é julgado necessário de ser feito, sem qualquer dúvida ou inquirição precedente, isso é suficiente para a escolha. Donde é claro que a dúvida ou a inquirição pertencem à escolha não essencialmente, mas apenas quando ela se dá numa natureza ignorante. **Resposta à Objeção 3:** A vontade de Cristo, embora determinada para o bem, não é determinada para este ou aquele bem. Por isso, pertence a Cristo, assim como aos bem-aventurados, escolher com um livre-arbítrio confirmado no bem.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether there was free-will in Christ? · séc. XIII
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