Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que a Lei Antiga contém um só preceito. Porque a lei não é senão um preceito, como acima se disse (Q. 90, AA. 2, 3). Ora, a Lei Antiga é uma só. Logo, contém um só preceito. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Rom. 13, 9): «Se há algum outro mandamento, está compreendido nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.» Ora, este é um só mandamento. Logo, a Lei Antiga continha um só mandamento. Objeção 3: Além disso, está escrito (Mat. 7, 12): «Todas as coisas, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-lhas também vós; porque esta é a Lei e os Profetas.» Ora, toda a Lei Antiga está compreendida na Lei e nos Profetas. Logo, toda a Lei Antiga contém um só mandamento. Em sentido contrário, o Apóstolo diz (Efés. 2, 15): «Desfazendo a Lei dos mandamentos contidos em decretos»; onde se refere à Lei Antiga, como comenta a Glosa naquele passo. Logo, a Lei Antiga compreende muitos mandamentos. Respondo que, visto que um preceito de lei obriga, ele versa sobre algo que deve ser feito; e que uma coisa deve ser feita procede da necessidade de algum fim. Donde é evidente que o preceito implica, na sua própria ideia, relação a um fim, na medida em que uma coisa é mandada como necessária ou conveniente a um fim. Ora, muitas coisas podem ser necessárias ou convenientes a um fim; e, consequentemente, preceitos podem ser dados sobre várias coisas enquanto ordenadas a um só fim. Por conseguinte, devemos dizer que todos os preceitos da Lei Antiga são um quanto à sua relação com um só fim; e, contudo, são muitos quanto à diversidade das coisas que são ordenadas a esse fim. Réplica à Objeção 1: A Lei Antiga é dita una enquanto ordenada a um só fim; no entanto, compreende vários preceitos, segundo a diversidade das coisas que ela dirige ao fim. Assim também a arte de edificar é una pela unidade do seu fim, pois visa à construção de uma casa; e, contudo, contém várias regras, segundo a variedade dos atos a ela ordenados. Réplica à Objeção 2: Como diz o Apóstolo (1 Tim. 1, 5), «o fim do mandamento é a caridade»; pois toda lei visa estabelecer a amizade, quer entre homem e homem, quer entre homem e Deus. Por isso, toda a Lei está compreendida neste único mandamento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo», como exprimindo o fim de todos os mandamentos; porque o amor do próximo inclui o amor de Deus, quando amamos o próximo por amor de Deus. Donde o Apóstolo pôs este mandamento em lugar dos dois que versam sobre o amor de Deus e do próximo, e dos quais disse o Senhor (Mat. 22, 40): «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.» Réplica à Objeção 3: Como se diz na Ética ix, 8, «a amizade para com outrem nasce da amizade para consigo mesmo», na medida em que o homem considera o outro como a si mesmo. Por isso, quando se diz: «Todas as coisas, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-lhas também vós», isto é uma explicação da regra do amor ao próximo contida implicitamente nas palavras: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo»; de modo que é uma explicação deste mandamento.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the Old Law contains only one precept? · séc. XIII
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