Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os nomes são predicados primeiramente das criaturas antes que de Deus. Porque nomeamos qualquer coisa conforme a conhecemos, pois "os nomes", como diz o Filósofo, "são sinais das ideias". Ora, conhecemos as criaturas antes de conhecermos a Deus. Portanto, os nomes por nós impostos são predicados primeiramente das criaturas antes que de Deus. Objeção 2: Ademais, Dionísio diz (Dos Nomes Divinos, I): "Nomeamos a Deus a partir das criaturas." Ora, os nomes transferidos das criaturas para Deus são ditos primeiramente das criaturas antes que de Deus, como "leão", "pedra" e semelhantes. Logo, todos os nomes aplicados a Deus e às criaturas são aplicados primeiramente às criaturas antes que a Deus. Objeção 3: Ademais, todos os nomes igualmente aplicados a Deus e às criaturas são aplicados a Deus como causa de todas as criaturas, como diz Dionísio (Da Teologia Mística). Ora, o que é aplicado a algo por meio de sua causa é-lhe aplicado secundariamente, pois "sadio" é predicado primeiramente do animal antes que do medicamento, que é a causa da saúde. Portanto, estes nomes são ditos primeiramente das criaturas antes que de Deus. Em sentido contrário, está escrito: "Dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome" (Ef 3,14-15); e o mesmo se aplica aos outros nomes que se atribuem a Deus e às criaturas. Logo, estes nomes são aplicados primeiramente a Deus antes que às criaturas. Respondo que: Nos nomes predicados de muitos em sentido analógico, todos são predicados porque se referem a algo uno; e este algo uno deve ser colocado na definição de todos eles. E, uma vez que aquilo que é expresso pelo nome é a definição, como diz o Filósofo (Metafísica, IV), tal nome deve ser aplicado primeiramente àquilo que se põe na definição das outras coisas, e secundariamente a estas outras, segundo se aproximam mais ou menos daquele primeiro. Assim, por exemplo, "sadio" aplicado ao animal entra na definição de "sadio" aplicado ao medicamento, que é chamado sadio como causa da saúde no animal; e também na definição de "sadio" que se aplica à urina, chamada sadia enquanto sinal da saúde do animal. Assim, todos os nomes aplicados metaforicamente a Deus são aplicados às criaturas primeiramente antes que a Deus, porque, quando ditos de Deus, significam apenas semelhanças com tais criaturas. Pois assim como "sorridente" aplicado a um campo significa apenas que o campo, na beleza do seu florescimento, se assemelha à beleza do sorriso humano por uma semelhança proporcionada, assim também o nome "leão" aplicado a Deus significa apenas que Deus manifesta fortaleza nas Suas obras, como o leão nas suas. Portanto, é claro que, aplicados a Deus, a significação dos nomes só pode ser definida a partir do que se diz das criaturas. Mas, para outros nomes não aplicados a Deus em sentido metafórico, a mesma regra se aplicaria se fossem ditos de Deus apenas como causa, como alguns supuseram. Pois, quando se diz "Deus é bom", então isso significaria apenas "Deus é a causa da bondade da criatura"; assim, o termo bom aplicado a Deus incluiria no seu significado a bondade da criatura. Donde, "bom" se aplicaria primeiramente às criaturas antes que a Deus. Porém, como foi mostrado acima (A[2]), estes nomes são aplicados a Deus não só como causa, mas também essencialmente. Porque as palavras "Deus é bom" ou "sábio" não significam somente que Ele é a causa da sabedoria ou da bondade, mas que estas existem n'Ele de maneira mais excelente. Portanto, quanto ao que o nome significa, estes nomes são aplicados primeiramente a Deus antes que às criaturas, porque estas perfeições fluem de Deus para as criaturas; mas quanto à imposição dos nomes, são primeiramente aplicados por nós às criaturas, que conhecemos primeiro. Donde têm um modo de significar que pertence às criaturas, como foi dito acima (A[3]). Réplica à Objeção 1: Esta objeção se refere à imposição do nome. Réplica à Objeção 2: A mesma regra não se aplica aos nomes metafóricos e aos outros, como foi dito acima. Réplica à Objeção 3: Esta objeção seria válida se estes nomes fossem aplicados a Deus apenas como causa, e não também essencialmente, por exemplo como "sadio" se aplica ao medicamento.
Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether names predicated of God are predicated primarily of creatures? · séc. XIII
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