Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que em Cristo não houve o dom do temor. Porque a esperança parece ser mais forte que o temor, visto que o objeto da esperança é o bem, e o do temor, o mal, como se disse acima (I-II, Q. 40, A. 1; I-II, Q. 42, A. 1). Ora, em Cristo não houve a virtude da esperança, como também se disse acima (A. 4). Logo, igualmente, não houve n'Ele o dom do temor. **Objecção 2:** Ademais, pelo dom do temor tememos ou ser separados de Deus — o que pertence ao temor casto — ou ser por Ele castigados, o que pertence ao temor servil, como diz Agostinho (In Joan. Tract. ix). Mas Cristo não temia ser separado de Deus pelo pecado, nem ser por Ele castigado por causa de culpa, pois Lhe era impossível pecar, como se dirá (Q. 15, AA. 1, 2). Ora, o temor não recai sobre o impossível. Logo, em Cristo não houve o dom do temor. **Objecção 3:** Ademais, está escrito (1 Jo 4,18): «A perfeita caridade lança fora o temor.» Ora, em Cristo houve caridade perfeitíssima, segundo Efésios 3,19: «A caridade de Cristo, que excede todo o conhecimento.» Logo, em Cristo não houve o dom do temor. **Em contrário,** está escrito (Is 11,3): «E será cheio do espírito do temor do Senhor.» **Respondo que,** como se disse acima (I-II, Q. 42, A. 1), o temor tem dois objetos: um é o mal que causa terror; outro é aquele em cujo poder um mal pode ser infligido, como tememos ao rei enquanto ele tem poder de matar. Ora, quem pode causar dano não seria temido a menos que tivesse uma certa grandeza de poder, à qual não se pudesse oferecer fácil resistência; pois o que facilmente repelimos, não tememos. E daí é manifesto que ninguém é temido senão por alguma preeminência. E deste modo se diz que em Cristo houve o temor de Deus, não certamente enquanto diz respeito ao mal da separação de Deus pela culpa, nem enquanto diz respeito ao mal do castigo pela culpa, mas enquanto considera a preeminência divina, pela qual a alma de Cristo, guiada pelo Espírito Santo, se dirigia a Deus num ato de reverência. Por isso está escrito (Hb 5,7) que em todas as coisas «foi ouvido pela sua reverência». Pois Cristo, como homem, teve este ato de reverência para com Deus de modo mais pleno e além de todos os outros. E por isso a Escritura Lhe atribui a plenitude do temor do Senhor. **Resposta à Objecção 1:** Os hábitos das virtudes e dos dons consideram o bem própria e essencialmente, e o mal, consequentemente; pois pertence à natureza da virtude tornar os atos bons, como se diz na Ética (II, 6). E assim a natureza do dom do temor não diz respeito ao mal de que o temor se ocupa, mas à preeminência daquela bondade, isto é, de Deus, por cujo poder o mal pode ser infligido. Ao passo que a esperança, como virtude, não considera apenas o autor do bem, mas também o próprio bem, enquanto ainda não possuído. E por isso a Cristo, que já possuía o bem perfeito da beatitude, não atribuímos a virtude da esperança, mas atribuímos o dom do temor. **Resposta à Objecção 2:** Esta razão se funda no temor enquanto diz respeito ao objeto mau. **Resposta à Objecção 3:** A caridade perfeita lança fora o temor servil, que considera principalmente o castigo. Ora, este temor não existia em Cristo.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether in Christ there was the gift of fear? · séc. XIII
tradução automática