Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que em Cristo houve esperança. Pois está dito na Pessoa de Cristo (Sl 30,1): «Em Vós, Senhor, esperei». Ora, a virtude da esperança é aquela pela qual o homem espera em Deus. Logo, a virtude da esperança estava em Cristo. **Objeção 2:** Ademais, a esperança é a expectação da bem-aventurança vindoura, como foi demonstrado acima (SS, q. 17, a. 5, ad 3). Mas Cristo aguardava algo concernente à bem-aventurança, a saber, a glorificação do Seu corpo. Logo, parece que havia esperança nEle. **Objeção 3:** Além disso, todo homem pode esperar o que pertence à sua perfeição, se ainda está por vir. Ora, algo ainda estava por vir concernente à perfeição de Cristo, segundo Efésios 4,12: «Para a perfeição dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo». Donde parece que convinha a Cristo ter esperança. **Em contrário,** está escrito (Rm 8,24): «O que o homem vê, por que espera?». Assim, é claro que, assim como a fé é acerca do invisível, também o é a esperança. Ora, em Cristo não houve fé, como foi dito acima (a. 1): consequentemente, também não houve esperança. **Respondo:** Assim como é próprio da fé assentir ao que não se vê, assim é próprio da esperança esperar o que ainda não se possui; e como a fé, enquanto virtude teologal, não diz respeito a toda coisa invisível, mas somente a Deus, assim também a esperança, como virtude teologal, tem o próprio Deus por objeto, cuja fruição o homem espera principalmente pela virtude da esperança; contudo, por consequência, quem tem a virtude da esperança pode esperar o auxílio divino em outras coisas, assim como quem tem a virtude da fé crê em Deus não apenas nas coisas divinas, mas também em tudo quanto é divinamente revelado. Ora, desde o início da Sua conceição, Cristo teve plenamente a fruição divina, como será demonstrado (q. 34, a. 4), e, portanto, não teve a virtude da esperança. Não obstante, Ele teve esperança quanto àquelas coisas que ainda não possuía, embora não tivesse fé acerca de coisa alguma; porque, embora conhecesse todas as coisas plenamente, donde a fé Lhe faltou inteiramente, todavia não possuía ainda plenamente tudo o que pertencia à Sua perfeição, a saber, a imortalidade e a glória do corpo, as quais podia esperar. **Resposta à primeira objeção:** Isto se diz de Cristo com referência à esperança, não como virtude teologal, mas enquanto Ele esperava outras coisas ainda não possuídas, como foi dito acima. **Resposta à segunda objeção:** A glória do corpo não pertence à beatitude como aquilo em que a beatitude consiste principalmente, mas por uma certa efusão da glória da alma, como foi dito acima (FS, q. 4, a. 6). Por onde, a esperança, como virtude teologal, não diz respeito à bem-aventurança do corpo, mas à bem-aventurança da alma, que consiste na fruição divina. **Resposta à terceira objeção:** A edificação da Igreja pela conversão dos fiéis não pertence à perfeição de Cristo, pela qual Ele é perfeito em Si mesmo, senão enquanto leva outros a participar da Sua perfeição. E porque a esperança diz propriamente respeito ao que é esperado por quem espera, a virtude da esperança não pode, a rigor, ser dita em Cristo, pela razão já aduzida.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether in Christ there was hope? · séc. XIII
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