Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a blasfêmia não se opõe à confissão de fé. Porque blasfemar é proferir uma afronta ou insulto contra o Criador. Ora, isto pertence à má vontade para com Deus, antes que à incredulidade. Logo, a blasfêmia não se opõe à confissão de fé. Objeção 2: Além disso, sobre Efésios 4,31: "Toda a blasfêmia seja tirada dentre vós", diz uma glosa: "aquilo que é cometido contra Deus ou contra os santos". Ora, a confissão de fé, ao que parece, não versa senão sobre as coisas que pertencem a Deus, que é o objeto da fé. Logo, a blasfêmia nem sempre se opõe à confissão de fé. Objeção 3: Além disso, segundo alguns, há três espécies de blasfêmia. A primeira é quando se afirma algo inconveniente de Deus; a segunda, quando se nega algo conveniente d'Ele; e a terceira, quando se atribui a uma criatura algo que é próprio de Deus, de modo que, ao que parece, a blasfêmia não é somente acerca de Deus, mas também acerca de suas criaturas. Ora, o objeto da fé é Deus. Logo, a blasfêmia não se opõe à confissão de fé. Em contrário, o Apóstolo diz (1 Timóteo 1,12-13): "Eu, que antes fui blasfemo e perseguidor", e em seguida: "O fiz ignorantemente em incredulidade". Donde parece que a blasfêmia pertence à incredulidade. Respondo que a palavra blasfêmia parece significar a detração de uma bondade excelsa, especialmente a de Deus. Ora, Deus, como diz Dionísio (Nomes Divinos, cap. I), é a própria essência da verdadeira bondade. Portanto, tudo o que convém a Deus pertence à Sua bondade, e tudo o que não Lhe convém está longe da perfeição da bondade que é a Sua Essência. Consequentemente, quem quer que negue algo que convém a Deus, ou afirme algo que Lhe é inconveniente, detrai da bondade divina. Ora, isto pode acontecer de dois modos. De um modo, pode acontecer apenas quanto à opinião no intelecto; de outro modo, esta opinião une-se a uma certa detestação nas afeições, assim como, por outro lado, a fé em Deus é aperfeiçoada pelo amor d'Ele. Por conseguinte, esta detração da bondade divina dá-se ou somente no intelecto, ou também nas afeições. Se é apenas no pensamento, é blasfêmia do coração; se, porém, se manifesta exteriormente na fala, é blasfêmia da boca. Ora, a confissão de fé consiste numa declaração interior da fé. Por isso, a blasfêmia externa opõe-se à confissão de fé. Resposta à Objeção 1: Aquele que fala contra Deus com a intenção de O injuriar, detrai da bondade divina não só quanto à falsidade no seu intelecto, mas também pela maldade da sua vontade, pela qual detesta e se esforça por impedir a honra devida a Deus; e isto é a blasfêmia perfeita. Resposta à Objeção 2: Assim como Deus é louvado nos Seus santos, na medida em que se dá louvor às obras que Deus faz nos Seus santos, assim também a blasfêmia contra os santos redunda, por consequência, contra Deus. Resposta à Objeção 3: Propriamente falando, o pecado de blasfêmia não se divide assim em três espécies; pois afirmar coisas inconvenientes ou negar coisas convenientes de Deus diferem apenas como afirmação e negação. E esta diversidade não causa espécies distintas de hábitos, porque a falsidade das afirmações e das negações é conhecida pelo mesmo conhecimento, e é a mesma ignorância que erra de ambos os modos, visto que as negações se provam pelas afirmações, segundo o livro Primeiro dos Posteriores (cap. 25). Além disso, atribuir às criaturas coisas próprias de Deus parece equivaler a afirmar algo inconveniente d'Ele, pois o que é próprio de Deus é o próprio Deus; e atribuir a uma criatura o que é próprio de Deus é afirmar que Deus é o mesmo que a criatura.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether blasphemy is opposed to the confession of faith? · séc. XIII
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