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Ef 5, 27

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Matos Soares

27para apresentar a si mesmo esta Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada.

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Pareceria que não é conveniente dizer que, quando Cristo foi batizado, o Espírito Santo desceu sobre Ele sob a forma de uma pomba. Porque o Espírito Santo habita no homem pela graça. Ora, a plenitude da graça estava no Homem-Cristo desde o início da sua conceição, porque Ele era o "Unigênito do Pai", como é claro pelo que foi dito acima (Q[7], A[12]; Q[34], A[1]). Logo, o Espírito Santo não deveria ter sido enviado a Ele no seu batismo. **Objeção 2:** Além disso, diz-se que Cristo "desceu" ao mundo no mistério da Encarnação, quando "se esvaziou a si mesmo, tomando a forma de servo" (Fl 2,7). Mas o Espírito Santo não se encarnou. Portanto, é inconveniente dizer que o Espírito Santo "desceu sobre Ele". **Objeção 3:** Além disso, aquilo que se realiza no nosso batismo deveria ter sido mostrado no batismo de Cristo, como num exemplar. Ora, no nosso batismo não ocorre nenhuma missão visível do Espírito Santo. Logo, também não deveria ter ocorrido uma missão visível do Espírito Santo no batismo de Cristo. **Objeção 4:** Além disso, o Espírito Santo é derramado sobre outros por meio de Cristo, segundo Jo 1,16: "Da sua plenitude todos nós recebemos". Ora, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos sob a forma, não de uma pomba, mas de fogo. Portanto, também não deveria ter descido sobre Cristo sob a forma de uma pomba, mas sob a forma de fogo. **Em contrário,** está escrito (Lc 3,22): "O Espírito Santo desceu em forma corpórea, como uma pomba, sobre Ele". **Respondo que,** o que ocorreu com respeito a Cristo no seu batismo, como diz Crisóstomo (Hom. iv in Mt. [*Do suposto Opus Imperfectum]), "está ligado ao mistério realizado em todos os que haviam de ser batizados depois". Ora, todos os que são batizados com o batismo de Cristo recebem o Espírito Santo, a menos que se aproximem indignamente; segundo Mt 3,11: "Ele vos batizará no Espírito Santo". Portanto, foi conveniente que, quando nosso Senhor foi batizado, o Espírito Santo descesse sobre Ele. **Resposta à Objeção 1:** Como diz Agostinho (De Trin. xv): "É absurdíssimo dizer que Cristo recebeu o Espírito Santo quando já tinha trinta anos; porque, quando veio para ser batizado, como era sem pecado, não era sem o Espírito Santo. Pois, se está escrito de João que 'será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe', que diremos do Homem-Cristo, cuja conceição na carne não foi carnal, mas espiritual? Portanto, agora", isto é, no seu batismo, "dignou-se prefigurar o seu corpo", ou seja, a Igreja, "na qual os que são batizados recebem o Espírito Santo de modo especial." **Resposta à Objeção 2:** Como diz Agostinho (De Trin. ii), diz-se que o Espírito Santo desceu sobre Cristo em forma corpórea, como uma pomba, não porque a própria substância do Espírito Santo fosse vista, pois Ele é invisível; nem como se aquela criatura visível fosse assumida na unidade da Pessoa divina; pois não se diz que o Espírito Santo era a pomba, como se diz que o Filho de Deus é homem por causa da união. Nem, ainda, foi o Espírito Santo visto sob a forma de uma pomba, à maneira como João viu o Cordeiro imolado no Apocalipse (5,6): "Porque esta última visão ocorreu no espírito, através de imagens espirituais de corpos; enquanto ninguém jamais duvidou que esta pomba foi vista pelos olhos do corpo." Nem, também, o Espírito Santo apareceu sob a forma de uma pomba no sentido em que se diz (1Cor 10,4): "Ora, a rocha era Cristo": pois esta já tinha existência criada e, pelo modo de sua ação, era chamada pelo nome de Cristo, a quem significava; enquanto esta pomba surgiu subitamente à existência, para cumprir o propósito de sua significação, e depois deixou de existir, como a chama que apareceu na sarça a Moisés." Por isso, diz-se que o Espírito Santo desceu sobre Cristo, não por estar unido à pomba; mas ou porque a própria pomba significava o Espírito Santo, na medida em que "desceu" quando veio sobre Ele; ou, ainda, pela graça espiritual, que é derramada por Deus, de modo a descer, por assim dizer, sobre a criatura, segundo Tg 1,17: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes." **Resposta à Objeção 3:** Como diz Crisóstomo (Hom. xii in Mt.): "No início de todas as transações espirituais, aparecem visões sensíveis, por causa daqueles que não podem conceber de modo algum uma natureza incorpórea... de modo que, embora depois nada de tal ocorra, eles possam moldar a sua fé segundo aquilo que ocorreu uma vez por todas." E, portanto, o Espírito Santo desceu visivelmente, sob uma forma corpórea, sobre Cristo no seu batismo, para que creiamos que Ele desce invisivelmente sobre todos os que são batizados. **Resposta à Objeção 4:** O Espírito Santo apareceu sobre Cristo no seu batismo, sob a forma de uma pomba, por quatro razões. Primeiro, pela disposição exigida no batizado — isto é, que se aproxime com boa fé: pois, como está escrito (Sb 1,5): "O espírito santo da disciplina fugirá do enganador." Porque a pomba é um animal de caráter simples, isento de astúcia e engano; donde se diz (Mt 10,16): "Sede simples como as pombas." Segundo, para designar os sete dons do Espírito Santo, que são significados pelas propriedades da pomba. Pois a pomba habita junto ao rio corrente, para que, ao perceber o gavião, mergulhe e escape. Isto se refere ao dom da sabedoria, pelo qual os santos habitam junto às águas correntes da Sagrada Escritura, para escapar dos assaltos do diabo. Além disso, a pomba prefere as sementes mais escolhidas. Isto se refere ao dom da ciência, pelo qual os santos escolhem as sãs doutrinas, com as quais se nutrem. Ainda, a pomba alimenta a ninhada de outras aves. Isto se refere ao dom do conselho, com o qual os santos, pelo ensino e pelo exemplo, alimentam homens que foram ninhada, isto é, imitadores, do diabo. Também, a pomba não rasga com o bico. Isto se refere ao dom do entendimento, com o qual os santos não rasgam as sãs doutrinas, como fazem os hereges. Também, a pomba não tem fel. Isto se refere ao dom da piedade, por cuja razão os santos estão livres da ira desordenada. Também, a pomba faz o seu ninho na fenda de uma rocha. Isto se refere ao dom da fortaleza, com o qual os santos fazem o seu ninho, isto é, se refugiam e esperam, nas chagas da morte de Cristo, que é a Rocha da fortaleza. Finalmente, a pomba tem um canto plangente. Isto se refere ao dom do temor, com o qual os santos se deleitam em chorar os pecados. Terceiro, o Espírito Santo apareceu sob a forma de uma pomba por causa do efeito próprio do batismo, que é a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus: pois a pomba é uma criatura mansa. Por isso, como diz Crisóstomo (Hom. xii in Mt.), "no Dilúvio, esta criatura apareceu trazendo um ramo de oliveira e publicando as novas da paz universal de todo o mundo; e agora, novamente, a pomba aparece no batismo, apontando para o nosso Libertador." Quarto, o Espírito Santo apareceu sobre nosso Senhor no seu batismo sob a forma de uma pomba, para designar o efeito comum do batismo — isto é, a edificação da unidade da Igreja. Por isso está escrito (Ef 5,25-27): "Cristo se entregou a si mesmo... para apresentar a si mesmo uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante... purificando-a pelo lavatório da água na palavra da vida." Portanto, foi conveniente que o Espírito Santo aparecesse no batismo sob a forma de uma pomba, que é uma criatura amante e gregária. Por isso também se diz da Igreja (Ct 6,8): "Uma é a minha pomba." Mas sobre os apóstolos o Espírito Santo desceu sob a forma de fogo, por duas razões. Primeiro, para mostrar com que fervor os seus corações deviam ser movidos, a fim de pregarem Cristo por toda parte, embora cercados de oposição. E por isso apareceu como língua de fogo. Donde diz Agostinho (Super Joan. Tract. vi): Nosso Senhor "manifesta" o Espírito Santo "visivelmente de dois modos" — a saber, "pela pomba que veio sobre o Senhor quando foi batizado; pelo fogo, que veio sobre os discípulos quando estavam reunidos... No primeiro caso, mostra-se a simplicidade; no segundo, o fervor... Aprendemos, pois, da pomba que os santificados pelo Espírito devem ser sem dolo; e do fogo, que a sua simplicidade não deve ser deixada a esfriar. Nem perturbe a alguém que as línguas eram partidas... na pomba reconhece a unidade." Segundo, porque, como diz Crisóstomo (Gregório, Hom. xxx in Ev.): "Visto que os pecados haviam de ser perdoados", o que se efetua no batismo, "era necessária a mansidão"; isto é mostrado pela pomba; "mas, quando obtivemos a graça, devemos esperar ser julgados"; e isto é significado pelo fogo.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether it is fitting to say that when Christ was baptized the Holy Ghost came down on Him in the form of a dove? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o pecado não causa mácula na alma. Porque uma natureza superior não pode ser maculada pelo contato com uma natureza inferior; daí o raio do sol não se macula pelo contato com corpos infectos, como diz Agostinho (Contra Quinque Haereses v). Ora, a alma humana é de uma natureza muito superior às coisas mutáveis, às quais se volta pecando. Logo, não contrai delas mácula pelo pecado. Objeção 2: Além disso, o pecado está principalmente na vontade, como foi dito acima (Q. 74, AA. 1,2). Ora, a vontade está na razão, como se diz em De Anima III, text. 42. Mas a razão ou o intelecto não se macula por considerar qualquer coisa; antes, é aperfeiçoado por isso. Logo, nem a vontade se macula pelo pecado. Objeção 3: Além disso, se o pecado causa uma mácula, esta mácula ou é algo positivo, ou uma pura privação. Se é algo positivo, só pode ser uma disposição ou um hábito; pois parece que nada mais pode ser causado por um ato. Mas não é nem disposição nem hábito: porque acontece que a mácula permanece mesmo depois de removida a disposição ou o hábito; por exemplo, num homem que, depois de cometer um pecado mortal de prodigalidade, muda de tal modo que cai num pecado do vício oposto. Portanto, a mácula não denota algo positivo na alma. Além disso, também não é uma pura privação. Porque todos os pecados concordam quanto à aversão e privação da graça; e então seguir-se-ia que há apenas uma mácula causada por todos os pecados. Logo, a mácula não é efeito do pecado. Ao contrário, foi dito a Salomão (Eclesiástico 47:22): "Manchaste a tua glória"; e está escrito (Efésios 5:27): "Para a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga"; e em ambos os casos se trata da mácula do pecado. Logo, a mácula é efeito do pecado. Respondo que a mácula é propriamente atribuída às coisas corpóreas, quando um corpo formoso perde a sua formosura pelo contato com outro corpo, por exemplo, uma veste, ouro ou prata, ou algo semelhante. Assim, a mácula é atribuída às coisas espirituais de modo semelhante. Ora, a alma do homem tem uma dupla formosura: uma, do resplendor da luz natural da razão, pela qual é dirigida em suas ações; a outra, do resplendor da luz divina, isto é, da sabedoria e da graça, pela qual o homem é também aperfeiçoado para o fim de praticar ações boas e convenientes. Ora, quando a alma adere às coisas por amor, há uma espécie de contato na alma; e quando o homem peca, adere a certas coisas contra a luz da razão e da lei divina, como foi mostrado acima (Q. 71, A. 6). Por onde, a perda da formosura ocasionada por este contato chama-se metaforicamente mácula na alma. Resposta à primeira objeção: A alma não é maculada pelas coisas inferiores por virtude própria, como se elas agissem sobre a alma; pelo contrário, a alma, por sua própria ação, se macula, aderindo desordenadamente a elas, contra a luz da razão e da lei divina. Resposta à segunda objeção: A ação do intelecto realiza-se pela coisa inteligível estar no intelecto, segundo o modo do intelecto, de modo que o intelecto não se macula, mas se aperfeiçoa por elas. Por outro lado, o ato da vontade consiste num movimento para as próprias coisas, de modo que o amor prende a alma à coisa amada. Assim é que a alma se macula, quando adere desordenadamente, segundo Oséias 9:10: "Tornaram-se abomináveis como aquelas coisas que amaram." Resposta à terceira objeção: A mácula não é algo positivo na alma, nem denota uma pura privação; denota uma privação do brilho da alma em relação à sua causa, que é o pecado; pelo que diversos pecados ocasionam diversas máculas. É como a sombra, que é a privação da luz pela interposição de um corpo, e que varia segundo a diversidade dos corpos interpostos.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether sin causes a stain on the soul? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, Artigo 1 — Se o pecado venial causa mácula na alma.** **Objeção 1:** Parece que o pecado venial causa mácula na alma. Porquanto diz Agostinho (De Poenit.) [*Hom. 50, inter L. 2] que, se os pecados veniais se multiplicam, destroem a beleza de nossas almas a ponto de nos privar dos abraços do nosso esposo celeste. Ora, a mácula do pecado não é senão a perda da beleza da alma. Logo, os pecados veniais causam mácula na alma. **Objeção 2:** Demais. O pecado mortal causa mácula na alma, por causa da desordem do ato e das afeições do pecador. Mas no pecado venial há desordem do ato e das afeições. Logo, o pecado venial causa mácula na alma. **Objeção 3:** Demais. A mácula na alma é causada pelo contato com uma coisa temporal, mediante o amor dela, como acima se disse (Q[86], A[1]). Ora, no pecado venial, a alma está em contato com uma coisa temporal por amor desordenado. Logo, o pecado venial traz mácula na alma. **Em contrário,** está escrito (Efésios 5,27): «Para a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mácula nem ruga», sobre o que diz a glosa: «isto é, algum pecado grave». Portanto, parece próprio do pecado mortal causar mácula na alma. **Respondo.** Como acima se disse (Q[86], A[1]), mácula designa a perda da formosura por causa do contato com alguma coisa, como se vê nas coisas corpóreas, de onde o termo foi transferido para a alma, por semelhança. Ora, assim como no corpo há uma dupla formosura — uma resultante da disposição interna dos membros e das cores, outra resultante do fulgor exterior que sobrevém —, assim também na alma há uma dupla formosura: uma habitual e, por assim dizer, intrínseca; outra atual, como um resplendor exterior. O pecado venial é obstáculo à formosura atual, mas não à formosura habitual, porque não destrói nem diminui o hábito da caridade e das demais virtudes, como adiante se mostrará (SS, Q[24], A[10]; Q[133], A[1], ad 2), mas apenas impede os seus atos. Ora, a mácula denota algo de permanente na coisa manchada; por isso parece ser da natureza da perda da formosura habitual, mais do que da atual. Portanto, propriamente falando, o pecado venial não causa mácula na alma. Se, todavia, se encontra afirmado algures que induz mácula, isso se diz em sentido restrito, enquanto impede a formosura que resulta dos atos de virtude. **Resposta à Objeção 1:** Agostinho fala do caso em que muitos pecados veniais conduzem dispositivamente ao pecado mortal; porque, de outro modo, não separariam a alma do seu esposo celeste. **Resposta à Objeção 2:** No pecado mortal, a desordem do ato destrói o hábito da virtude, mas não no pecado venial. **Resposta à Objeção 3:** No pecado mortal, a alma entra em contato com uma coisa temporal como seu fim, de modo que a efusão da luz da graça, que advém àqueles que, pela caridade, se unem a Deus como seu último fim, é totalmente cortada. Ao contrário, no pecado venial, o homem não se une a uma criatura como seu último fim; portanto, não há comparação.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether venial sin causes a stain on the soul? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o pecado não causa mancha alguma na alma. Pois uma natureza superior não pode ser contaminada pelo contato com uma natureza inferior: por isso o raio solar não se contamina pelo contato com corpos infectos, como diz Agostinho (Contra Quinque Haereses v). Ora, a alma humana é de natureza muito mais elevada do que as coisas mutáveis, para as quais se volta pelo pecado. Portanto, não contrai mancha alguma delas pelo pecado. Objeção 2: Além disso, o pecado reside principalmente na vontade, como foi dito acima (Q. 74, AA. 1 e 2). Ora, a vontade está na razão, como se afirma no De Anima iii, texto 42. Mas a razão ou intelecto não se mancha por considerar seja o que for; antes, por isso é aperfeiçoada. Logo, também a vontade não se mancha pelo pecado. Objeção 3: Além disso, se o pecado causa uma mancha, esta mancha é ou algo positivo, ou uma pura privação. Se é algo positivo, só pode ser uma disposição ou um hábito: pois parece que nada mais pode ser causado por um ato. Mas não é nem disposição nem hábito: pois acontece que a mancha permanece mesmo após a remoção da disposição ou do hábito; por exemplo, num homem que, depois de cometer um pecado mortal de prodigalidade, muda de tal modo que cai num pecado do vício oposto. Portanto, a mancha não denota nada de positivo na alma. Outrossim, não é uma pura privação. Porque todos os pecados concordam quanto à aversão e privação da graça: e assim se seguiria que há apenas uma mancha causada por todos os pecados. Logo, a mancha não é efeito do pecado. Ao contrário, foi dito a Salomão (Ecl. 47,22): "Tu manchaste a tua glória"; e está escrito (Efés. 5,27): "Para que a apresentasse a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula nem ruga"; e em ambos os casos se trata da mancha do pecado. Logo, a mancha é efeito do pecado. Respondo que a mancha é propriamente atribuída às coisas corpóreas, quando um corpo formoso perde sua formosura pelo contato com outro corpo, como um vestido, ouro ou prata, ou semelhante. Assim também a mancha é atribuída às coisas espirituais de modo semelhante. Ora, a alma do homem tem uma dupla formosura: uma, do resplendor da luz natural da razão, pela qual é dirigido em suas ações; a outra, do resplendor da luz divina, a saber, da sabedoria e da graça, pela qual o homem é também aperfeiçoado para fazer ações boas e convenientes. E quando a alma se apega às coisas pelo amor, há uma espécie de contato na alma; e quando o homem peca, apega-se a certas coisas contra a luz da razão e da Lei divina, como foi mostrado acima (Q. 71, A. 6). Por isso, a perda da formosura causada por esse contato é chamada metaforicamente de mancha na alma. Resposta à Objeção 1: A alma não é contaminada pelas coisas inferiores por virtude própria, como se elas agissem sobre a alma; pelo contrário, a alma, por sua própria ação, se contamina, ao apegar-se a elas desordenadamente contra a luz da razão e da Lei divina. Resposta à Objeção 2: A ação do intelecto realiza-se pela presença da coisa inteligível no intelecto, segundo o modo do intelecto, de modo que o intelecto não é contaminado, mas aperfeiçoado por elas. Por outro lado, o ato da vontade consiste num movimento para as próprias coisas, de modo que o amor liga a alma à coisa amada. Assim é que a alma se mancha quando se apega desordenadamente, segundo Oséias 9,10: "Tornaram-se abomináveis como aquelas coisas que amaram." Resposta à Objeção 3: A mancha não é algo de positivo na alma, nem denota uma pura privação: denota a privação do esplendor da alma em relação à sua causa, que é o pecado; por isso, diversos pecados ocasionam diversas manchas. É como a sombra, que é a privação da luz pela interposição de um corpo, e que varia segundo a diversidade dos corpos interpostos.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether sin causes a stain on the soul? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o pecado venial causa uma mácula na alma. Pois Agostinho diz (Sobre a Penitência [*Hom. 50, entre as L. 2]), que se os pecados veniais forem multiplicados, destroem a beleza das nossas almas, a ponto de nos privarem dos abraços do nosso Esposo celeste. Ora, a mácula do pecado não é senão a perda da beleza da alma. Logo, os pecados veniais causam uma mácula na alma. Objeção 2: Ademais, o pecado mortal causa uma mácula na alma, por causa da desordem do ato e das afeições do pecador. Ora, no pecado venial há uma desordem do ato e das afeições. Logo, o pecado venial causa uma mácula na alma. Objeção 3: Ademais, a mácula na alma é causada pelo contacto com uma coisa temporal, por amor dela, como foi dito acima (Q[86], A[1]). Ora, no pecado venial, a alma está em contacto com uma coisa temporal por amor desordenado. Logo, o pecado venial traz uma mácula na alma. Em contrário, está escrito (Efés. 5:27): "Para a apresentar a si mesmo a igreja gloriosa, sem mácula nem ruga", sobre o que a glosa diz: "i.e., algum pecado grave". Logo, parece que é próprio do pecado mortal causar uma mácula na alma. Respondo: Como foi dito acima (Q[86], A[1]), mácula denota uma perda de formosura devida ao contacto com alguma coisa, como se pode ver nas coisas corpóreas, de onde o termo foi transferido para a alma, por semelhança. Ora, assim como no corpo há uma dupla formosura, uma resultante da disposição interna dos membros e cores, e outra resultante de um resplendor externo que sobrevém, assim também, na alma, há uma dupla formosura, uma habitual e, por assim dizer, intrínseca, e outra atual como um lampejo externo de luz. Ora, o pecado venial é um obstáculo à formosura atual, mas não à formosura habitual, porque não destrói nem diminui o hábito da caridade e das outras virtudes, como mostraremos adiante (SS, Q[24], A[10]; Q[133], A[1], ad 2), mas apenas impede os seus atos. Por outro lado, mácula denota algo permanente na coisa manchada, pelo que parece estar na natureza de uma perda da formosura habitual, mais do que da atual. Portanto, propriamente falando, o pecado venial não causa uma mácula na alma. Se, contudo, encontrarmos dito em algum lugar que induz uma mácula, isto é num sentido restrito, na medida em que impede a formosura que resulta dos atos das virtudes. Resposta à Objeção 1: Agostinho fala do caso em que muitos pecados veniais conduzem dispositivamente ao pecado mortal: porque, de outro modo, não separariam a alma do seu Esposo celeste. Resposta à Objeção 2: No pecado mortal, a desordem do ato destrói o hábito da virtude, mas não no pecado venial. Resposta à Objeção 3: No pecado mortal, a alma entra em contacto com uma coisa temporal como seu fim, de modo que a efusão da luz da graça, que advém àqueles que, pela caridade, se unem a Deus como seu último fim, é inteiramente cortada. Ao contrário, no pecado venial, o homem não se une a uma criatura como seu último fim; portanto, não há comparação.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether venial sin causes a stain on the soul? · séc. XIII

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