Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que um homem pode odiar a si mesmo. Pois está escrito (Sl 10,6): «O que ama a iniquidade aborrece a sua própria alma.» Ora, muitos amam a iniquidade. Logo, muitos odeiam a si mesmos. Objeção 2: Ademais, odiamos aquele a quem desejamos e obramos o mal. Mas, por vezes, o homem deseja e obra o mal a si mesmo, como aquele que se mata. Logo, alguns homens odeiam a si mesmos. Objeção 3: Além disso, Boécio diz (Da Consolação, II) que «a avareza torna o homem odioso»; donde podemos concluir que todos odeiam o avarento. Ora, alguns homens são avarentos. Logo, odeiam a si mesmos. Em contrário, o Apóstolo diz (Ef 5,29) que «ninguém aborreceu jamais a sua própria carne.» Respondo que, propriamente falando, é impossível que um homem odeie a si mesmo. Pois todo ser naturalmente deseja o bem, nem pode alguém desejar algo para si senão sob a razão de bem: porque «o mal está fora do âmbito da vontade», como diz Dionísio (Dos Nomes Divinos, IV). Ora, amar a alguém é querer-lhe o bem, como acima se disse (Q. 26, A. 4). Consequentemente, o homem deve, necessariamente, amar a si mesmo; e é impossível que um homem odeie a si mesmo, propriamente falando. Mas, acidentalmente, acontece que um homem odeia a si mesmo; e isto de dois modos. Primeiro, da parte do bem que o homem quer para si. Pois sucede, às vezes, que aquilo que é desejado como bem em algum particular respeito é simplesmente mal; e assim, o homem quer acidentalmente o mal para si; e deste modo odeia a si mesmo. Segundo, quanto a si mesmo, a quem quer o bem. Pois cada coisa é aquilo que nela predomina; donde se diz que o Estado faz o que o rei faz, como se o rei fosse todo o Estado. Ora, é claro que o homem é principalmente a mente do homem. E acontece que alguns homens se consideram a si mesmos como sendo principalmente aquilo que são em sua natureza material e sensitiva. Por onde, amam a si mesmos segundo o que julgam ser, enquanto odeiam aquilo que realmente são, desejando o que é contrário à razão. E de ambos os modos, «o que ama a iniquidade aborrece» não só «a sua própria alma», mas também a si mesmo. Portanto, é evidente a resposta à Primeira Objeção. Resposta à Objeção 2: Ninguém quer ou obra o mal para si mesmo, a menos que o apreenda sob a razão de bem. Pois mesmo aqueles que se matam apreendem a própria morte como um bem, considerada como pondo termo a alguma desgraça ou dor. Resposta à Objeção 3: O avarento odeia algo acidental a si mesmo, mas nem por isso odeia a si mesmo; assim como o doente odeia a sua doença precisamente porque ama a si mesmo. Ou podemos dizer que a avareza torna o homem odioso aos outros, mas não a si mesmo. Na verdade, ela é causada pelo amor-próprio desordenado, pelo qual o homem deseja para si os bens temporais mais do que deve.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a man can hate himself? · séc. XIII
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