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Ef 5, 29

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Matos Soares

29Com efeito, ninguém aborreceu jamais a sua própria carne, mas nutre-a e cuida dela, como também Cristo o faz à Igreja,

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que um homem pode odiar a si mesmo. Pois está escrito (Sl 10,6): «O que ama a iniquidade aborrece a sua própria alma.» Ora, muitos amam a iniquidade. Logo, muitos odeiam a si mesmos. Objeção 2: Ademais, odiamos aquele a quem desejamos e obramos o mal. Mas, por vezes, o homem deseja e obra o mal a si mesmo, como aquele que se mata. Logo, alguns homens odeiam a si mesmos. Objeção 3: Além disso, Boécio diz (Da Consolação, II) que «a avareza torna o homem odioso»; donde podemos concluir que todos odeiam o avarento. Ora, alguns homens são avarentos. Logo, odeiam a si mesmos. Em contrário, o Apóstolo diz (Ef 5,29) que «ninguém aborreceu jamais a sua própria carne.» Respondo que, propriamente falando, é impossível que um homem odeie a si mesmo. Pois todo ser naturalmente deseja o bem, nem pode alguém desejar algo para si senão sob a razão de bem: porque «o mal está fora do âmbito da vontade», como diz Dionísio (Dos Nomes Divinos, IV). Ora, amar a alguém é querer-lhe o bem, como acima se disse (Q. 26, A. 4). Consequentemente, o homem deve, necessariamente, amar a si mesmo; e é impossível que um homem odeie a si mesmo, propriamente falando. Mas, acidentalmente, acontece que um homem odeia a si mesmo; e isto de dois modos. Primeiro, da parte do bem que o homem quer para si. Pois sucede, às vezes, que aquilo que é desejado como bem em algum particular respeito é simplesmente mal; e assim, o homem quer acidentalmente o mal para si; e deste modo odeia a si mesmo. Segundo, quanto a si mesmo, a quem quer o bem. Pois cada coisa é aquilo que nela predomina; donde se diz que o Estado faz o que o rei faz, como se o rei fosse todo o Estado. Ora, é claro que o homem é principalmente a mente do homem. E acontece que alguns homens se consideram a si mesmos como sendo principalmente aquilo que são em sua natureza material e sensitiva. Por onde, amam a si mesmos segundo o que julgam ser, enquanto odeiam aquilo que realmente são, desejando o que é contrário à razão. E de ambos os modos, «o que ama a iniquidade aborrece» não só «a sua própria alma», mas também a si mesmo. Portanto, é evidente a resposta à Primeira Objeção. Resposta à Objeção 2: Ninguém quer ou obra o mal para si mesmo, a menos que o apreenda sob a razão de bem. Pois mesmo aqueles que se matam apreendem a própria morte como um bem, considerada como pondo termo a alguma desgraça ou dor. Resposta à Objeção 3: O avarento odeia algo acidental a si mesmo, mas nem por isso odeia a si mesmo; assim como o doente odeia a sua doença precisamente porque ama a si mesmo. Ou podemos dizer que a avareza torna o homem odioso aos outros, mas não a si mesmo. Na verdade, ela é causada pelo amor-próprio desordenado, pelo qual o homem deseja para si os bens temporais mais do que deve.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a man can hate himself? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a prudência da carne não é pecado. Pois a prudência é mais excelente que as outras virtudes morais, visto que as governa a todas. Ora, nenhuma justiça ou temperança é pecaminosa. Logo, também nenhuma prudência é pecado. Objeção 2: Ademais, não é pecado agir prudentemente para um fim que é lícito amar. Ora, é lícito amar a carne, «pois ninguém jamais odiou a sua própria carne» (Ef 5,29). Logo, a prudência da carne não é pecado. Objeção 3: Ademais, assim como o homem é tentado pela carne, também o é pelo mundo e pelo demónio. Ora, nenhuma prudência do mundo ou do demónio é considerada pecado. Logo, também nenhuma prudência da carne deve ser considerada entre os pecados. Em contrário, nenhum homem é inimigo de Deus senão pela maldade, segundo Sabedoria 14,9: «Igualmente aborrecíveis são para Deus o ímpio e a sua impiedade.» Ora, está escrito (Rm 8,7): «A prudência [Vulg.: 'sabedoria'] da carne é inimiga de Deus.» Portanto, a prudência da carne é pecado. Respondo que, como foi dito acima (Q.47, A.13), a prudência diz respeito às coisas ordenadas ao fim de toda a vida. Donde a prudência da carne significa propriamente a prudência de um homem que considera os bens carnais como o fim último da sua vida. Ora, é evidente que isto é pecado, porque envolve uma desordem no homem quanto ao seu fim último, que não consiste nos bens do corpo, como foi dito acima (I-II, Q.2, A.5). Portanto, a prudência da carne é pecado. Resposta à objeção 1: A justiça e a temperança incluem na sua própria natureza aquilo que as coloca entre as virtudes, a saber, a igualdade e o freio da concupiscência; por isso nunca são tomadas em mau sentido. Ao passo que a prudência é assim chamada por prever [providendo], como foi dito acima (Q.47, A.1; Q.49, A.6), o que pode estender-se também às coisas más. Portanto, embora a prudência seja tomada simplesmente em bom sentido, se lhe for acrescentado algo, pode ser tomada em mau sentido; e é assim que a prudência da carne é dita pecado. Resposta à objeção 2: A carne existe por causa da alma, como a matéria por causa da forma, e o instrumento por causa do agente principal. Portanto, a carne é amada licitamente se for ordenada ao bem da alma como seu fim. Se, porém, um homem colocar o seu fim último num bem da carne, o seu amor será desordenado e ilícito, e é assim que a prudência da carne é ordenada ao amor da carne. Resposta à objeção 3: O demónio tenta-nos não pelo bem do objeto apetecível, mas por via de sugestão. Por isso, visto que a prudência implica ordenação para um fim apetecível, não falamos de «prudência do demónio» como de uma prudência ordenada a um fim mau, que é o aspecto sob o qual o mundo e a carne nos tentam, na medida em que os bens mundanos ou carnais são propostos ao nosso apetite. Donde falamos de prudência «carnal» e também de prudência «mundana», segundo Lc 16,8: «Os filhos deste mundo são mais prudentes [Douay: 'sábios'] na sua geração», etc. O Apóstolo inclui tudo na «prudência da carne», porque cobiçamos as coisas externas do mundo por causa da carne. Podemos também responder que, visto que a prudência é chamada em certo sentido de «sabedoria», como foi dito acima (Q.47, A.2, ad 1), podemos distinguir uma tríplice prudência correspondente aos três tipos de tentação. Por isso está escrito (Tg 3,15) que há uma sabedoria que é «terrena, animal e diabólica», como foi explicado acima (Q.45, A.1, ad 1), quando tratávamos da sabedoria.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether prudence of the flesh is a sin? · séc. XIII

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