Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Cristo não mereceu ser exaltado por causa da Sua Paixão. Porque a eminência da dignidade pertence somente a Deus, assim como o conhecimento da verdade, segundo o Salmo 112:4: "O Senhor é excelso sobre todas as nações, e a sua glória está acima dos céus." Mas Cristo, como homem, teve o conhecimento de toda a verdade, não por algum mérito precedente, mas pela própria união de Deus e homem, segundo João 1:14: "Vimos a sua glória, como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." Logo, também não teve a exaltação pelo mérito da Paixão, mas só pela união. **Objeção 2:** Ademais, Cristo mereceu para Si desde o primeiro instante da sua conceição, como foi dito acima (Q. 34, A. 3). Mas o seu amor não foi maior durante a Paixão do que antes. Portanto, visto que a caridade é o princípio do mérito, parece que não mereceu a exaltação pela Paixão mais do que antes. **Objeção 3:** Ademais, a glória do corpo provém da glória da alma, como diz Agostinho (Epístola a Dióscoro). Ora, pela Paixão Cristo não mereceu a exaltação quanto à glória da sua alma, porque a sua alma foi beatificada desde o primeiro instante da sua conceição. Logo, também não mereceu pela Paixão a exaltação quanto à glória do seu corpo. **Em contrário**, está escrito (Filipenses 2:8): "Tornou-se obediente até à morte, e morte de cruz; pelo que também Deus o exaltou." **Respondo:** O mérito implica uma certa igualdade de justiça; por isso diz o Apóstolo (Romanos 4:4): "Ora, àquele que obra, o galardão lhe é reputado segundo a dívida." Mas quando alguém, por sua vontade injusta, atribui a si algo que lhe excede o devido, é justo que seja privado de outra coisa que lhe é devida; assim, "quando um homem furta uma ovelha, pagará quatro" (Êxodo 22:1). E diz-se que o merece, na medida em que a sua vontade injusta é assim castigada. Do mesmo modo, quando alguém, por sua vontade justa, se despoja do que lhe convém ter, merece que lhe seja concedido algo mais como recompensa da sua vontade justa. E por isso está escrito (Lucas 14:11): "Quem se humilha será exaltado." Ora, na sua Paixão, Cristo humilhou-se abaixo da sua dignidade de quatro maneiras. Primeiro, quanto à Paixão e à morte, às quais não estava obrigado; segundo, quanto ao lugar, pois o seu corpo foi posto num sepulcro e a sua alma no inferno; terceiro, quanto às vergonhas e escárnios que sofreu; quarto, quanto a ter sido entregue ao poder dos homens, como ele mesmo disse a Pilatos (João 19:11): "Não terias poder algum contra mim, se te não fosse dado do alto." E, consequentemente, mereceu pela sua Paixão uma quádrupla exaltação. Primeiro, quanto à sua gloriosa Ressurreição; por isso está escrito (Salmo 138:1): "Conheceste o meu assentar"—isto é, a humildade da minha Paixão—"e o meu levantar." Segundo, quanto à sua Ascensão ao céu; por isso está escrito (Efésios 4:9): "O que subiu, que é, senão porque também desceu primeiro às partes mais baixas da terra? O que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus." Terceiro, quanto ao assentar-se à direita do Pai e à manifestação da sua Divindade, segundo Isaías 52:13: "Ele será exaltado e sublimado, e será muito excelso; como muitos se admiraram dele, assim o seu aspecto será sem glória entre os homens." Além disso, (Filipenses 2:8) está escrito: "Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz; pelo que também Deus o exaltou, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome"—isto é, para que seja aclamado como Deus por todos; e todos lhe prestem homenagem como Deus. E isto se exprime no que se segue: "Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra." Quarto, quanto ao seu poder judiciário; pois está escrito (Jó 36:17): "A tua causa foi julgada como a dos ímpios; causa e juízo recuperarás." **Resposta à objeção 1:** A fonte do merecer vem da alma, enquanto o corpo é o instrumento da obra meritória. E, consequentemente, a perfeição da alma de Cristo, que era a fonte do merecer, não devia ser adquirida nele por mérito, como a perfeição do corpo, que era o sujeito do sofrimento e, por isso, instrumento do seu mérito. **Resposta à objeção 2:** Cristo pelos seus méritos anteriores mereceu a exaltação a favor da sua alma, cuja vontade estava animada pela caridade e pelas outras virtudes; mas na Paixão mereceu a sua exaltação por via de recompensa também a favor do seu corpo: pois é justo que o corpo, que por caridade foi submetido à Paixão, receba a recompensa na glória. **Resposta à objeção 3:** Foi por uma especial dispensa em Cristo que, antes da Paixão, a glória da sua alma não resplandecia no seu corpo, para que pudesse obter a glória corporal com maior honra, quando a tivesse merecido pela sua Paixão. Mas não convinha que a glória da sua alma fosse adiada, porque a alma estava unida imediatamente ao Verbo; por isso, convinha que a sua glória fosse preenchida pelo próprio Verbo. Mas o corpo estava unido ao Verbo por meio da alma.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether by His Passion Christ merited to be exalted? · séc. XIII
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