Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a felicidade consiste no poder. Pois todas as coisas desejam tornar-se semelhantes a Deus, como ao seu último fim e primeiro princípio. Mas os homens que estão no poder, por causa da semelhança de poder, parecem ser os mais semelhantes a Deus; por isso também na Escritura são chamados "deuses" (Êx 22,28): "Não dirás mal dos deuses". Logo, a felicidade consiste no poder. Objeção 2: Além disso, a felicidade é o bem perfeito. Ora, a mais alta perfeição para o homem é poder governar os outros; o que pertence àqueles que estão no poder. Logo, a felicidade consiste no poder. Objeção 3: Além disso, uma vez que a felicidade é sumamente desejável, é contrária àquilo que é, acima de tudo, evitado. Ora, mais do que qualquer outra coisa, os homens evitam a servidão, que é contrária ao poder. Logo, a felicidade consiste no poder. Em contrário, a felicidade é o bem perfeito. Mas o poder é imperfeitíssimo. Pois, como diz Boécio (De Consol. iii), "o poder do homem não pode aliviar os roedores cuidados, nem evitar o espinhoso caminho da ansiedade"; e mais adiante: "Pensais vós que um homem é poderoso que está rodeado de servos, aos quais inspira temor, mas a quem teme ainda mais?" Respondo que é impossível que a felicidade consista no poder; e isto por duas razões. Primeiro, porque o poder tem a natureza de princípio, como se afirma em Metaf. V, 12, ao passo que a felicidade tem a natureza de fim último. Segundo, porque o poder tem relação com o bem e o mal; ao passo que a felicidade é o bem próprio e perfeito do homem. Por isso, antes poderia a felicidade consistir no bom uso do poder, que se dá pela virtude, do que no próprio poder. Podem-se dar agora quatro razões gerais para provar que a felicidade não consiste em nenhum dos bens exteriores acima mencionados. Primeiro, porque, sendo a felicidade o sumo bem do homem, é incompatível com qualquer mal. Ora, todos os bens referidos podem encontrar-se tanto nos bons como nos maus. Segundo, porque, sendo próprio da felicidade "satisfazer por si mesma", como se diz em Ética I, 7, uma vez adquirida a felicidade, o homem não pode carecer de nenhum bem necessário. Mas, depois de adquirir qualquer um dos bens referidos, o homem pode ainda carecer de muitos bens que lhe são necessários; por exemplo, a sabedoria, a saúde do corpo e outros semelhantes. Terceiro, porque, sendo a felicidade o bem perfeito, dela nenhum mal pode advir a ninguém. Isto não se pode dizer dos bens referidos; pois está escrito (Ecl 5,12) que "as riquezas" são às vezes "guardadas para o dano do seu dono"; e o mesmo se pode dizer dos outros três. Quarto, porque o homem é ordenado à felicidade mediante princípios que estão nele; visto que para ela é ordenado naturalmente. Ora, os quatro bens mencionados acima se devem antes a causas externas e, na maioria dos casos, à fortuna; por isso são chamados bens de fortuna. Portanto, é evidente que a felicidade de modo algum consiste nos bens referidos. Resposta à Objeção 1: O poder de Deus é a sua bondade; por isso Ele não pode usar o seu poder senão bem. Mas não é assim com os homens. Consequentemente, não basta para a felicidade do homem que ele se torne semelhante a Deus no poder, a menos que se torne semelhante a Ele também na bondade. Resposta à Objeção 2: Assim como é muito bom para um homem fazer bom uso do poder no governo de muitos, assim é muito mau se dele fizer mau uso. E assim o poder é indiferente ao bem e ao mal. Resposta à Objeção 3: A servidão é um obstáculo ao bom uso do poder; por isso os homens a evitam naturalmente; não porque o sumo bem do homem consista no poder.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether man's happiness consists in power? · séc. XIII
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