Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o pecado contra o Espírito Santo pode ser perdoado. Pois Agostinho diz (De Verb. Dom. Serm. lxxi): «Não devemos desesperar de homem algum, enquanto a paciência do Senhor o trouxer à penitência.» Ora, se algum pecado não pudesse ser perdoado, seria possível desesperar de alguns pecadores. Logo, o pecado contra o Espírito Santo pode ser perdoado. **Objeção 2:** Ademais, nenhum pecado é perdoado senão mediante a cura da alma por Deus. Mas «nenhuma doença é incurável para um médico omnipotente», como diz uma glosa sobre o Sl 102,3: «Que sara todas as tuas enfermidades.» Logo, o pecado contra o Espírito Santo pode ser perdoado. **Objeção 3:** Ademais, o livre-arbítrio é indiferente ao bem e ao mal. Ora, enquanto o homem é viandante, pode cair de qualquer virtude, pois até um anjo caiu do céu; por isso está escrito (Jó 4,18-19): «Nos seus anjos achou maldade; quanto mais os que habitam em casas de barro?» Logo, de igual modo, o homem pode retornar de qualquer pecado ao estado de justiça. Portanto, o pecado contra o Espírito Santo pode ser perdoado. **Pelo contrário,** está escrito (Mt 12,32): «Quem falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro»; e Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte i, 22) que «tão grande é a queda deste pecado que não se pode sujeitar à humilhação de pedir perdão.» **Respondo que,** conforme as várias interpretações do pecado contra o Espírito Santo, de vários modos se pode dizer que não pode ser perdoado. Pois, se pelo pecado contra o Espírito Santo entendemos a impenitência final, diz-se imperdoável porque de nenhum modo é perdoado: pois o pecado mortal em que o homem persevera até a morte não será perdoado na vida vindoura, visto que não foi remido pela penitência nesta vida. Segundo as outras duas interpretações, diz-se imperdoável não como se de nenhum modo seja perdoado, mas porque, considerado em si mesmo, merece não ser perdoado; e isto de dois modos. Primeiro, quanto à pena: pois aquele que peca por ignorância ou fraqueza merece menor pena, ao passo que aquele que peca por certa malícia não pode oferecer escusa alguma para alívio de sua pena. Do mesmo modo, os que blasfemaram contra o Filho do Homem antes que a sua Divindade fosse revelada podiam ter alguma escusa, por causa da fraqueza da carne que nele percebiam, e por isso mereciam menor pena; enquanto os que blasfemaram contra a própria Divindade, atribuindo ao diabo as obras do Espírito Santo, não tiveram escusa para diminuição da sua pena. Por isso, segundo o comentário de Crisóstomo (Hom. xlii in Matth.), diz-se que os judeus não foram perdoados deste pecado, nem neste mundo nem no vindouro, porque foram punidos por ele tanto na vida presente, pelos romanos, como na vida futura, nas penas do inferno. Assim também Atanásio aduz o exemplo de seus pais, que primeiro contenderam com Moisés por causa da falta de água e pão; e o Senhor suportou isso com paciência, porque deviam ser escusados pela fraqueza da carne; mas depois pecaram mais gravemente quando, atribuindo a um ídolo os benefícios concedidos por Deus, que os tirara do Egito, blasfemaram, por assim dizer, contra o Espírito Santo, dizendo (Êx 32,4): «Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito.» Por isso, o Senhor lhes infligiu castigo temporal, pois «naquele dia morreram cerca de vinte e três mil homens» (Êx 32,28), e ameaçou-os com castigo na vida vindoura, dizendo (Êx 32,34): «Eu, no dia da vingança, visitarei este seu pecado.» Segundo, isto pode ser entendido quanto à culpa: assim, diz-se que uma doença é incurável quanto à natureza da doença, que remove aquilo que poderia ser meio de cura, como quando tira a força da natureza ou causa aversão ao alimento e ao remédio, embora Deus possa curar tal doença. Assim também o pecado contra o Espírito Santo se diz imperdoável por sua natureza, na medida em que remove aquelas coisas que são meios para o perdão dos pecados. Isso, contudo, não fecha o caminho do perdão e da cura a um Deus omnipotente e misericordioso, que, às vezes, por assim dizer miraculosamente, restaura a saúde espiritual a tais homens. **Resposta à Objeção 1:** Não devemos desesperar de homem algum nesta vida, considerando a omnipotência e a misericórdia de Deus. Mas, se considerarmos as circunstâncias do pecado, alguns são chamados (Ef 2,2) «filhos da desconfiança». **Resposta à Objeção 2:** Este argumento considera a questão pelo lado da omnipotência de Deus, não pelo das circunstâncias do pecado. **Resposta à Objeção 3:** Nesta vida, com efeito, o livre-arbítrio permanece sempre sujeito à mutabilidade; contudo, às vezes rejeita aquilo pelo que, quanto a si, pode ser convertido ao bem. Por isso, considerado em si mesmo, este pecado é imperdoável, embora Deus o possa perdoar.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the sin against the Holy Ghost can be forgiven? · séc. XIII
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