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Gl 3, 16

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Matos Soares

16Ora as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. (A Escritura) não diz: Aos seus descendentes — como (se se tratasse) de muitos — mas (diz) como de um só : A tua descendência (Gn. 12, 7), a qual é Cristo.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que Cristo não tomou carne da descendência de Davi. Mas José não era pai de Cristo, como se mostrou acima (Q. 28, art. 1, ad 1,2). Logo, parece que Cristo não descendeu de Davi. Ora, Maria, Mãe de Cristo, é chamada prima de Isabel, que era filha de Aarão, como é claro por Lc. 1,5.36. Portanto, sendo Davi da tribo de Judá, como se mostra em Mt. 1, parece que Cristo não descendeu de Davi. (Jr. 22,30): «Escreve este homem estéril… porque não haverá homem da sua descendência que se assente sobre o trono de Davi.» Ao passo que de Cristo está escrito (Is. 9,7): «Ele se assentará sobre o trono de Davi.» Logo, Cristo não foi da descendência de Jeconias; nem, consequentemente, da família de Davi, visto que Mateus traça a genealogia desde Davi por Jeconias. **Em contrário,** está escrito (Rm. 1,3): «Que lhe foi feito da descendência de Davi segundo a carne.» **Respondo** que Cristo é dito ter sido filho especialmente de dois dos patriarcas, Abraão e Davi, como é claro por Mt. 1,1. Muitas são as razões para isso. Primeiro, porque a estes especialmente foi feita a promessa acerca de Cristo. Pois foi dito a Abraão (Gn. 22,18): «Na tua descendência serão benditas todas as gentes da terra»; palavras que o Apóstolo expõe de Cristo (Gl. 3,16): «A Abraão foram feitas as promessas e à sua descendência. Ele não diz: 'E às suas descendências', como de muitas; mas como de uma: 'E à tua descendência', que é Cristo.» E a Davi foi dito (Sl. 131,11): «Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono.» Por isso o povo judeu, recebendo-o com honra régia, disse (Mt. 21,9): «Hossana ao Filho de Davi.» A segunda razão é porque Cristo devia ser rei, profeta e sacerdote. Ora, Abraão foi sacerdote; o que é claro do Senhor lhe dizer (Gn. 15,9): «Toma tu [Vulg.: 'para mim'] uma vaca de três anos», etc. Foi também profeta, segundo Gn. 20,7: «É profeta; e orará por ti.» Por fim, Davi foi rei e profeta. A terceira razão é porque a circuncisão teve início em Abraão; enquanto em Davi a eleição de Deus se manifestou de modo claríssimo, segundo 1 Reis 13,14: «O Senhor buscou para si um homem segundo o seu coração.» E por isso Cristo é chamado de modo especialíssimo Filho de ambos, a fim de mostrar que veio para a salvação tanto dos circuncisos como dos eleitos dentre os gentios. **Resposta à objeção 1:** Fausto, o Maniqueu, argumentou assim, no desejo de provar que Cristo não é Filho de Davi, porque não foi concebido de José, em quem termina a genealogia de Mateus. Agostinho respondeu a este argumento assim (Contra Faust. XXII): «Visto que o mesmo evangelista afirma que José era marido de Maria e que a Mãe de Cristo era virgem, e que Cristo era da descendência de Abraão, que devemos crer, senão que Maria não era estranha à família de Davi; e que não é sem razão que ela foi chamada esposa de José, pela estreita aliança de seus corações, embora não misturados na carne; e que a genealogia é traçada até José antes que a ela, pela dignidade do marido? Portanto, cremos que Maria também era da família de Davi; porque cremos nas Escrituras, que afirmam tanto que Cristo era da descendência de Davi segundo a carne, como que Maria era sua Mãe, não por união carnal, mas conservando a virgindade.» Pois, como diz Jerônimo sobre Mt. 1,18: «José e Maria eram da mesma tribo; por isso ele estava obrigado pela lei a desposá-la, como parenta sua. Daí que foram alistados juntos em Belém, como descendentes do mesmo tronco.» **Resposta à objeção 2:** Gregório de Nazianzo responde a esta objeção dizendo que sucedeu por vontade de Deus que a família real se unisse à linhagem sacerdotal, para que Cristo, que é rei e sacerdote, nascesse de ambas segundo a carne. Por isso Aarão, que foi o primeiro sacerdote segundo a Lei, desposou uma mulher da tribo de Judá, Isabel, filha de Aminadab. É possível, portanto, que o pai de Isabel desposasse uma mulher da família de Davi, pela qual a Bem-aventurada Virgem Maria, que era da família de Davi, seria prima de Isabel; ou, inversamente e com maior probabilidade, que o pai da Bem-aventurada Maria, que era da família de Davi, desposasse uma mulher da família de Aarão. Pode-se ainda dizer com Agostinho (Contra Faust. XXII) que, se Joaquim, pai de Maria, era da família de Aarão (como o herege Fausto pretendia provar de certos escritos apócrifos), então devemos crer que a mãe de Joaquim, ou sua esposa, era da família de Davi, contanto que digamos que Maria de algum modo descende de Davi. **Resposta à objeção 3:** esta passagem profética não nega que nasça uma posteridade da descendência de Jeconias. E assim Cristo é de sua descendência. Tampouco o fato de Cristo reinar é contrário à profecia, porque Ele não reinou com honra mundana; pois declarou: «Meu reino não é deste mundo.»

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ took flesh of the seed of David? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, sobre o Artigo 4 — Se a Lei Antiga devia ter sido dada só aos judeus?** **Objeção 1:** Parece que a Lei Antiga não devia ter sido dada só aos judeus. Porque a Lei Antiga dispôs os homens para a salvação que havia de vir por Cristo, como acima se disse (AA[2],3). Mas essa salvação havia de vir não só aos judeus, mas a todas as nações, segundo Is 49,6: «Pouca coisa é que tu sejas meu servo para levantar as tribos de Jacó e converter os resíduos de Israel. Eis que te dei por luz dos gentios, para que sejas a minha salvação até à extremidade da terra.» Logo, a Lei Antiga devia ter sido dada a todas as nações, e não a um só povo. **Objeção 2:** Ademais, segundo At 10,34-35, «Deus não faz acepção de pessoas; mas em toda nação, o que O teme e obra a justiça Lhe é aceito.» Portanto, o caminho da salvação não devia ter sido aberto a um povo mais que a outro. **Objeção 3:** Ademais, a lei foi dada por meio dos anjos, como acima se disse (A[3]). Mas Deus sempre concedeu os ministérios dos anjos não só aos judeus, mas a todas as nações; pois está escrito (Eclo 17,14): «Sobre toda nação pôs um príncipe.» Também a todas as nações concede os bens temporais, que são de menor conta diante de Deus que os bens espirituais. Logo, Ele devia ter dado a Lei também a todos os povos. **Em sentido contrário,** está escrito (Rm 3,1-2): «Qual é, pois, a vantagem do judeu? Muita, em toda a maneira. Primeiramente, porque lhes foram confiados os oráculos de Deus»; e (Sl 147,9): «Não fez assim a toda a nação; e não lhes manifestou os Seus juízos.» **Respondo que** Poderia apontar-se como razão de a Lei ter sido dada aos judeus antes que a outros povos o fato de que só o povo judeu permaneceu fiel ao culto de um só Deus, enquanto os outros se desviaram para a idolatria; por isso estes últimos eram indignos de receber a Lei, para que não se desse a coisa santa aos cães. Mas esta razão não parece adequada, porque aquele povo se voltou para a idolatria mesmo depois de a Lei ter sido feita, o que foi mais grave, como se vê claramente em Ex 32 e em Am 5,25-26: «Oferecestes-Me vítimas e sacrifícios no deserto por quarenta anos, ó casa de Israel? Antes levastes o tabernáculo do vosso Moloc, e a imagem dos vossos ídolos, a estrela do vosso deus, que fizestes para vós.» Além disso, está dito expressamente (Dt 9,6): «Sabe, pois, que o Senhor teu Deus não te dá esta boa terra em possessão por tuas justiças, porque és povo de cerviz dura»; mas a verdadeira razão é dada no versículo precedente: «Para que o Senhor cumprisse a Sua palavra, que prometeu sob juramento a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.» Que promessa foi esta, mostra-a o Apóstolo, que diz (Gl 3,16) que «a Abraão foram feitas as promessas e à sua descendência. Não diz: ‘E às suas descendências’, como de muitas, mas como de uma: ‘E à tua descendência’, que é Cristo.» E assim Deus concedeu tanto a Lei como outros dons especiais àquele povo, por causa da promessa feita a seus pais de que Cristo nasceria deles. Porque era conveniente que o povo do qual Cristo havia de nascer fosse assinalado por uma santificação especial, segundo as palavras de Lv 19,2: «Sede santos, porque Eu sou santo.» Nem foi por mérito do próprio Abraão que esta promessa lhe foi feita, isto é, que Cristo nasceria da sua descendência, mas por eleição e vocação gratuitas. Por isso está escrito (Is 41,2): «Quem suscitou do oriente o justo, chamou-o para O seguir?» É, portanto, evidente que foi unicamente por eleição gratuita que os patriarcas receberam a promessa, e que o povo deles descendente recebeu a lei, segundo Dt 4,36-37: «Vós ouvistes as Suas palavras do meio do fogo, porque amou a vossos pais, e escolheu a sua descendência depois deles.» E se se pergunta, ainda, por que escolheu este povo, e não outro, para que Cristo nascesse dele, dá uma resposta adequada Agostinho (Tract. super Joan. xxvi): «Por que atrai um e não atrai outro, não procures julgar, se não queres errar.» **Resposta à Objeção 1:** Embora a salvação que havia de vir por Cristo estivesse preparada para todas as nações, era necessário que Cristo nascesse de um povo, o qual, por esta razão, foi privilegiado acima dos outros povos, segundo Rm 9,4: «Dos quais» — a saber, os judeus — «é a adoção de filhos (de Deus), e o testamento, e o dom da Lei, e dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne.» **Resposta à Objeção 2:** A acepção de pessoas tem lugar naquelas coisas que são dadas segundo o devido; mas não tem lugar naquelas que são concedidas gratuitamente. Porque aquele que, por generosidade, dá do que é seu a um e não a outro, não faz acepção de pessoas; mas se fosse um dispensador de bens comuns e não os distribuísse segundo os méritos pessoais, seria um que faz acepção de pessoas. Ora, Deus concede os benefícios da salvação ao gênero humano gratuitamente; por isso não faz acepção de pessoas, se os dá a uns antes que a outros. Donde diz Agostinho (De Praedest. Sanct. viii): «A todos os que Deus ensina, ensina por misericórdia; mas aos que não ensina, por justiça não ensina»; pois isto se deve à condenação do gênero humano pelo pecado do primeiro pai. **Resposta à Objeção 3:** Os benefícios da graça são perdidos pelo homem por causa do pecado, mas não os benefícios da natureza. Entre estes últimos estão os ministérios dos anjos, que a própria ordem das diversas naturezas exige, a saber, que os seres inferiores sejam governados por meio dos intermediários; e também os auxílios corporais, que Deus concede não só aos homens, mas também aos animais, segundo Sl 35,7: «Homens e animais salvareis, Senhor.»

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the Old Law should have been given to the Jews alone? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Artículo 6 – Se a Lei Antiga foi convenientemente dada no tempo de Moisés? Objeção 1: Parece que a Lei Antiga não foi dada convenientemente no tempo de Moisés. Porque a Lei Antiga dispunha o homem para a salvação que havia de vir por Cristo, como foi dito acima (AA[2],3). Ora, o homem necessitava deste remédio salutar imediatamente após ter pecado. Logo, a Lei deveria ter sido dada imediatamente após o pecado. Objeção 2: Ademais, a Lei Antiga foi dada para a santificação daqueles de quem Cristo havia de nascer. Ora, a promessa concernente à «descendência, que é Cristo» (Gl 3,16) foi feita primeiramente a Abraão, conforme se relata em Gn 12,7. Logo, a Lei deveria ter sido dada imediatamente no tempo de Abraão. Objeção 3: Ademais, assim como Cristo nasceu somente daqueles que descendiam de Noé por Abraão, a quem a promessa foi feita; assim também Ele não nasceu de nenhum outro dos descendentes de Abraão senão de Davi, a quem a promessa foi renovada, conforme 2 Reis 23,1: «O homem a quem foi designado acerca do Cristo do Deus de Jacó… disse.» Logo, a Lei Antiga deveria ter sido dada depois de Davi, assim como foi dada depois de Abraão. Ao contrário, o Apóstolo diz (Gl 3,19) que a Lei «foi estabelecida por causa das transgressões, até que viesse a descendência a quem fora feita a promessa, ordenada por anjos pela mão de um Mediador»: ordenada, isto é, «dada de maneira ordenada», como explica a glosa. Portanto, convinha que a Lei Antiga fosse dada nesta ordem de tempo. Respondo que foi sumamente conveniente que a Lei fosse dada no tempo de Moisés. A razão disto pode ser tomada de duas coisas pelas quais toda lei é imposta a dois tipos de homens. Porque é imposta a alguns homens de coração duro e soberbo, aos quais a lei refreia e doma; e é imposta aos bons homens, que, por serem instruídos pela lei, são ajudados a cumprir o que desejam fazer. Por isso, convinha que a Lei fosse dada em um tempo que fosse apropriado para vencer a soberba do homem. Pois o homem se ufanava de duas coisas, a saber, do conhecimento e do poder. Ufanava-se do seu conhecimento, como se a sua razão natural lhe pudesse bastar para a salvação; e, por conseguinte, para que a sua soberba fosse vencida nesta matéria, o homem foi deixado ao governo da sua razão sem o auxílio de uma lei escrita; e o homem pôde aprender pela experiência que a sua razão era deficiente, pois por volta do tempo de Abraão o homem havia caído precipitadamente na idolatria e nos mais vergonhosos vícios. Portanto, depois daqueles tempos, foi necessário dar uma lei escrita como remédio para a ignorância humana; porque «pela Lei vem o conhecimento do pecado» (Rm 3,20). Mas, depois que o homem foi instruído pela Lei, a sua soberba foi convencida da sua fraqueza, por não poder cumprir o que conhecia. Por isso, como conclui o Apóstolo (Rm 8,3-4), «o que era impossível à Lei, porquanto era fraca pela carne, Deus, enviando o seu próprio Filho…, para que a justificação da Lei se cumprisse em nós.» Quanto aos bons, a Lei foi-lhes dada como auxílio; auxílio de que o povo mais necessitava, no tempo em que a lei natural começou a obscurecer-se por causa da abundância do pecado; porque convinha que este auxílio fosse concedido aos homens de maneira ordenada, a fim de que fossem conduzidos da imperfeição à perfeição; por isso, era conveniente que a Lei Antiga fosse dada entre a lei da natureza e a lei da graça. Resposta à Objeção 1: Não convinha que a Lei Antiga fosse dada imediatamente após o pecado do primeiro homem: tanto porque o homem estava tão confiante na sua própria razão, que não reconhecia a sua necessidade da Lei Antiga; como porque ainda não se tinha obscurecido o ditame da lei natural pelo pecado habitual. Resposta à Objeção 2: A lei não deve ser dada senão ao povo, visto que é um preceito geral, como foi dito acima (Q[90], AA[2],3); por isso, no tempo de Abraão, Deus deu aos homens certos preceitos familiares e, por assim dizer, domésticos; mas quando os descendentes de Abraão se multiplicaram, a ponto de formar um povo, e quando foram libertados da escravidão, convinha que lhes fosse dada uma lei; pois «os escravos não são aquela parte do povo ou do Estado para a qual convém que a lei seja dirigida», como diz o Filósofo (Polit. iii, 2,4,5). Resposta à Objeção 3: Visto que a Lei devia ser dada ao povo, não só aqueles de quem Cristo nasceu receberam a Lei, mas todo o povo, que foi marcado com o selo da circuncisão, que era o sinal da promessa feita a Abraão, e na qual ele creu, segundo Rm 4,11; portanto, ainda antes de Davi, a Lei devia ser dada àquele povo logo que se reunisse.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether the Old Law was suitably given at the time of Moses? · séc. XIII

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Gl 3, 16 nos Padres da Igreja | Aurea