Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Cristo não tomou carne da descendência de Davi. Mas José não era pai de Cristo, como se mostrou acima (Q. 28, art. 1, ad 1,2). Logo, parece que Cristo não descendeu de Davi. Ora, Maria, Mãe de Cristo, é chamada prima de Isabel, que era filha de Aarão, como é claro por Lc. 1,5.36. Portanto, sendo Davi da tribo de Judá, como se mostra em Mt. 1, parece que Cristo não descendeu de Davi. (Jr. 22,30): «Escreve este homem estéril… porque não haverá homem da sua descendência que se assente sobre o trono de Davi.» Ao passo que de Cristo está escrito (Is. 9,7): «Ele se assentará sobre o trono de Davi.» Logo, Cristo não foi da descendência de Jeconias; nem, consequentemente, da família de Davi, visto que Mateus traça a genealogia desde Davi por Jeconias. **Em contrário,** está escrito (Rm. 1,3): «Que lhe foi feito da descendência de Davi segundo a carne.» **Respondo** que Cristo é dito ter sido filho especialmente de dois dos patriarcas, Abraão e Davi, como é claro por Mt. 1,1. Muitas são as razões para isso. Primeiro, porque a estes especialmente foi feita a promessa acerca de Cristo. Pois foi dito a Abraão (Gn. 22,18): «Na tua descendência serão benditas todas as gentes da terra»; palavras que o Apóstolo expõe de Cristo (Gl. 3,16): «A Abraão foram feitas as promessas e à sua descendência. Ele não diz: 'E às suas descendências', como de muitas; mas como de uma: 'E à tua descendência', que é Cristo.» E a Davi foi dito (Sl. 131,11): «Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono.» Por isso o povo judeu, recebendo-o com honra régia, disse (Mt. 21,9): «Hossana ao Filho de Davi.» A segunda razão é porque Cristo devia ser rei, profeta e sacerdote. Ora, Abraão foi sacerdote; o que é claro do Senhor lhe dizer (Gn. 15,9): «Toma tu [Vulg.: 'para mim'] uma vaca de três anos», etc. Foi também profeta, segundo Gn. 20,7: «É profeta; e orará por ti.» Por fim, Davi foi rei e profeta. A terceira razão é porque a circuncisão teve início em Abraão; enquanto em Davi a eleição de Deus se manifestou de modo claríssimo, segundo 1 Reis 13,14: «O Senhor buscou para si um homem segundo o seu coração.» E por isso Cristo é chamado de modo especialíssimo Filho de ambos, a fim de mostrar que veio para a salvação tanto dos circuncisos como dos eleitos dentre os gentios. **Resposta à objeção 1:** Fausto, o Maniqueu, argumentou assim, no desejo de provar que Cristo não é Filho de Davi, porque não foi concebido de José, em quem termina a genealogia de Mateus. Agostinho respondeu a este argumento assim (Contra Faust. XXII): «Visto que o mesmo evangelista afirma que José era marido de Maria e que a Mãe de Cristo era virgem, e que Cristo era da descendência de Abraão, que devemos crer, senão que Maria não era estranha à família de Davi; e que não é sem razão que ela foi chamada esposa de José, pela estreita aliança de seus corações, embora não misturados na carne; e que a genealogia é traçada até José antes que a ela, pela dignidade do marido? Portanto, cremos que Maria também era da família de Davi; porque cremos nas Escrituras, que afirmam tanto que Cristo era da descendência de Davi segundo a carne, como que Maria era sua Mãe, não por união carnal, mas conservando a virgindade.» Pois, como diz Jerônimo sobre Mt. 1,18: «José e Maria eram da mesma tribo; por isso ele estava obrigado pela lei a desposá-la, como parenta sua. Daí que foram alistados juntos em Belém, como descendentes do mesmo tronco.» **Resposta à objeção 2:** Gregório de Nazianzo responde a esta objeção dizendo que sucedeu por vontade de Deus que a família real se unisse à linhagem sacerdotal, para que Cristo, que é rei e sacerdote, nascesse de ambas segundo a carne. Por isso Aarão, que foi o primeiro sacerdote segundo a Lei, desposou uma mulher da tribo de Judá, Isabel, filha de Aminadab. É possível, portanto, que o pai de Isabel desposasse uma mulher da família de Davi, pela qual a Bem-aventurada Virgem Maria, que era da família de Davi, seria prima de Isabel; ou, inversamente e com maior probabilidade, que o pai da Bem-aventurada Maria, que era da família de Davi, desposasse uma mulher da família de Aarão. Pode-se ainda dizer com Agostinho (Contra Faust. XXII) que, se Joaquim, pai de Maria, era da família de Aarão (como o herege Fausto pretendia provar de certos escritos apócrifos), então devemos crer que a mãe de Joaquim, ou sua esposa, era da família de Davi, contanto que digamos que Maria de algum modo descende de Davi. **Resposta à objeção 3:** esta passagem profética não nega que nasça uma posteridade da descendência de Jeconias. E assim Cristo é de sua descendência. Tampouco o fato de Cristo reinar é contrário à profecia, porque Ele não reinou com honra mundana; pois declarou: «Meu reino não é deste mundo.»
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ took flesh of the seed of David? · séc. XIII
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