Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que não houve necessidade de sacramentos depois da vinda de Cristo. Pois a figura deve cessar com a chegada da verdade. Ora, «a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo» (Jo 1,17). Portanto, visto que os sacramentos são sinais ou figuras da verdade, parece que não houve necessidade de sacramentos depois da Paixão de Cristo. **Objeção 2:** Demais. Os sacramentos consistem em certos elementos, como se disse acima (Q. 60, A. 4). Ora, o Apóstolo diz (Gl 4,3-4) que «quando éramos meninos, estávamos servindo debaixo dos elementos do mundo»; mas que agora, «chegada a plenitude dos tempos», já não somos meninos. Logo, parece que não devemos servir a Deus debaixo dos elementos deste mundo, usando de sacramentos corporais. **Objeção 3:** Demais. Segundo Tiago 1,17, em Deus «não há mudança, nem sombra de variação». Ora, parece argumentar alguma mudança na vontade divina que Deus dê ao homem certos sacramentos para a sua santificação agora, no tempo da graça, e outros sacramentos antes da vinda de Cristo. Logo, parece que não deveriam ser instituídos outros sacramentos depois de Cristo. **Em contrário,** diz Agostinho (Contra Faust. XIX) que os sacramentos da Lei Antiga «foram abolidos porque foram cumpridos; e foram instituídos outros, em menor número, porém mais eficazes, mais proveitosos e de mais fácil realização». **Respondo.** Assim como os antigos Padres se salvaram pela fé na vinda futura de Cristo, assim nós nos salvamos pela fé no nascimento e Paixão passada de Cristo. Ora, os sacramentos são sinais que professam a fé pela qual o homem é justificado; e os sinais devem variar conforme significam o futuro, o passado ou o presente; porque, como diz Agostinho (Contra Faust. XIX), «a mesma coisa é pronunciada de modo diverso como para ser feita e como já feita: por exemplo, a palavra "passurus" (que há de padecer) difere de "passus" (que padeceu)». Portanto, os sacramentos da Lei Nova, que significam Cristo em relação ao passado, devem necessariamente diferir dos da Lei Antiga, que prefiguravam o futuro. **Resposta à primeira objeção.** Como diz Dionísio (Hier. Ecl. V), o estado da Lei Nova está entre o estado da Lei Antiga, cujas figuras se cumprem na Nova, e o estado da glória, no qual toda a verdade será aberta e perfeitamente revelada. Por isso, então não haverá sacramentos. Mas agora, enquanto conhecemos «por um espelho, em enigma» (1 Cor 13,12), necessitamos de sinais sensíveis para alcançar as coisas espirituais; e esta é a função dos sacramentos. **Resposta à segunda objeção.** O Apóstolo chama os sacramentos da Lei Antiga de «elementos fracos e pobres» (Gl 4,9), porque nem continham nem causavam a graça. Por isso diz o Apóstolo que aqueles que usavam destes sacramentos serviam a Deus «debaixo dos elementos do mundo», pela mesma razão que esses sacramentos não eram mais que os elementos deste mundo. Mas os nossos sacramentos contêm e causam a graça; portanto, a comparação não procede. **Resposta à terceira objeção.** Assim como não se prova que o pai de família tenha ânimo volúvel por dar diversas ordens à sua casa em diversas estações, dispondo as coisas diferentemente no inverno e no verão; assim também não se segue que haja alguma mudança em Deus, por ter instituído sacramentos de um modo depois da vinda de Cristo, e de outro modo no tempo da Lei, porque estes eram adequados por prefigurarem a graça; aqueles, por significarem a presença da graça.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether there was need for any sacraments after Christ came? · séc. XIII
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