Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que em Cristo houve o "fomes" do pecado. Pois o "fomes" do pecado, e a passibilidade e a mortalidade do corpo, procedem do mesmo princípio, a saber, da privação da justiça original, pela qual as potências inferiores da alma estavam sujeitas à razão, e o corpo à alma. Ora, a passibilidade e a mortalidade do corpo estavam em Cristo. Logo, também ali houve o "fomes" do pecado. Objeção 2: Ademais, como diz Damasceno (Da Fé Ortodoxa, III, 19), "foi por consentimento da vontade divina que a carne de Cristo foi permitida padecer e fazer o que lhe pertencia". Ora, é próprio da carne cobiçar seus prazeres. Como o "fomes" do pecado não é senão a concupiscência, segundo a glosa sobre Rom 7,8, parece que em Cristo houve o "fomes" do pecado. Objeção 3: Ademais, é por causa do "fomes" do pecado que "a carne deseja contra o espírito", como está escrito (Gál 5,17). Ora, o espírito mostra-se tanto mais forte e digno de ser coroado quanto mais completamente vence seu inimigo—a saber, a concupiscência da carne—, segundo 2 Tim 2,5: "não é coroado senão aquele que peleja legitimamente". Ora, Cristo teve um espírito fortíssimo e vitorioso, e mui digno de coroa, conforme Apoc 6,2: "Foi-lhe dada uma coroa, e saiu vencendo, para vencer". Logo, especialmente pareceria que o "fomes" do pecado deveria ter estado em Cristo. Ao contrário, está escrito (Mt 1,20): "O que nela foi gerado, do Espírito Santo é". Ora, o Espírito Santo expulsa o pecado e a inclinação ao pecado, que está implícita na palavra "fomes". Portanto, em Cristo não devia ter havido o "fomes" do pecado. Respondo que, como foi dito acima (Q. 7, Aa. 2 e 9), Cristo teve a graça e todas as virtudes perfeitissimamente. Ora, as virtudes morais, que estão na parte irracional da alma, a sujeitam à razão, e tanto mais quanto a virtude é mais perfeita; assim, a temperança controla o apetite concupiscível, a fortaleza e a mansidão o apetite irascível, como foi dito na I-II, Q. 56, A. 4. Ora, pertence à própria natureza do "fomes" do pecado uma inclinação do apetite sensitivo para o que é contrário à razão. E daí é manifesto que, quanto mais perfeitas são as virtudes em um homem, tanto mais fraco se torna nele o "fomes" do pecado. Logo, como em Cristo as virtudes estavam no mais alto grau, o "fomes" do pecado não esteve de modo algum nele; tanto mais que esse defeito não pode ser ordenado para a satisfação, antes inclina ao que é contrário a ela. Resposta à Objeção 1: As potências inferiores pertencentes ao apetite sensitivo têm uma capacidade natural de obedecer à razão; mas não as potências corporais, nem as dos humores corpóreos, nem as da alma vegetativa, como é manifesto na Ética I, 13. E, portanto, a perfeição da virtude, que está de acordo com a reta razão, não exclui a passibilidade do corpo; contudo, exclui o "fomes" do pecado, cuja natureza consiste na resistência do apetite sensitivo à razão. Resposta à Objeção 2: A carne naturalmente busca o que lhe é aprazível pela concupiscência do apetite sensitivo; mas a carne do homem, que é animal racional, busca isso segundo o modo e a ordem da razão. E assim, com a concupiscência do apetite sensitivo, a carne de Cristo buscava naturalmente o alimento, a bebida, o sono, e tudo o mais que é buscado segundo a reta razão, como é claro por Damasceno (Da Fé Ortodoxa, III, 14). Não se segue, porém, que em Cristo houvesse o "fomes" do pecado, pois este implica o desejo das coisas deleitáveis contra a ordem da razão. Resposta à Objeção 3: O espírito mostra sua fortaleza em certo grau ao resistir àquela concupiscência da carne que lhe é oposta; contudo, maior fortaleza do espírito se manifesta se, por sua força, a carne é inteiramente vencida, de modo a ser incapaz de desejar contra o espírito. E, portanto, isso pertencia a Cristo, cujo espírito alcançou o mais alto grau de fortaleza. E, embora Ele não sofresse assalto interno por parte do "fomes" do pecado, suportou um assalto externo por parte do mundo e do demônio, e ganhou a coroa da vitória ao vencê-los.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether there was the 'fomes' of sin in Christ? · séc. XIII
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