Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a discórdia não é pecado. Porque discordar do próximo é separar-se da vontade alheia. Mas isso não parece ser pecado, porque só a vontade de Deus, e não a do próximo, é a regra da nossa vontade. Logo, a discórdia não é pecado. Objeção 2: Ademais, quem induz outrem a pecar, também ele peca. Ora, parece que não é pecado incitar outros à discórdia, pois está escrito (Atos 23, 6) que Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus e a outra de fariseus, clamou no conselho: "Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; pela esperança e ressurreição dos mortos sou chamado a juízo. E, tendo dito isto, houve dissensão entre os fariseus e os saduceus." Logo, a discórdia não é pecado. Objeção 3: Ademais, o pecado, especialmente o mortal, não se encontra num homem santo. Ora, a discórdia encontra-se até entre homens santos, pois está escrito (Atos 15, 39): "Houve dissensão" entre Paulo e Barnabé, "de modo que se separaram um do outro." Logo, a discórdia não é pecado, e muito menos pecado mortal. Em sentido contrário, as "dissensões", isto é, as discórdias, são contadas entre as obras da carne (Gl 5, 20), das quais depois se diz (Gl 5, 21) que "os que fazem tais coisas não alcançarão o reino de Deus". Ora, nada, exceto o pecado mortal, exclui o homem do reino de Deus. Logo, a discórdia é pecado mortal. Respondo que a discórdia se opõe à concórdia. Ora, como foi dito acima (Q[29], AA[1],3), a concórdia resulta da caridade, na medida em que a caridade dirige muitos corações juntamente para uma só coisa, que é principalmente o bem divino e, secundariamente, o bem do próximo. Por onde, a discórdia é pecado, na medida em que se opõe a esta concórdia. Mas é necessário observar que esta concórdia é destruída pela discórdia de dois modos: primeiro, diretamente; segundo, acidentalmente. Ora, os atos e movimentos humanos dizem-se diretos quando são segundo a intenção. Por onde, o homem discorda diretamente do seu próximo quando, consciente e intencionalmente, dissentir do bem divino e do bem do próximo, a que deveria consentir. Isto é pecado mortal quanto ao seu género, porque é contrário à caridade, embora os primeiros movimentos de tal discórdia sejam pecados veniais por serem atos imperfeitos. O acidental nos atos humanos é o que ocorre fora da intenção. Por isso, quando vários intentam um bem pertencente à honra de Deus ou ao proveito do próximo, mas um julga boa uma coisa e outro pensa o contrário, a discórdia é, neste caso, acidentalmente contrária ao bem divino ou ao do próximo. Tal discórdia não é pecaminosa nem contrária à caridade, a menos que seja acompanhada de erro acerca das coisas necessárias à salvação ou de obstinação indevida, porque também foi dito acima (Q[29], AA[1],3, ad 2) que a concórdia, que é efeito da caridade, é união de vontades, não de opiniões. Disto se segue que a discórdia é, às vezes, pecado só de uma das partes, por exemplo, quando um quer um bem que o outro conscientemente resiste; outras vezes implica pecado em ambas as partes, como quando cada um dissentir do bem do outro e ama o seu próprio. Resposta à Objeção 1: A vontade de um homem, considerada em si mesma, não é regra da vontade de outro homem; mas, na medida em que a vontade do próximo adere à vontade de Deus, torna-se, consequentemente, uma regra regulada segundo a sua medida própria. Por onde, é pecado discordar de tal vontade, porque, por isso mesmo, se discorda da regra divina. Resposta à Objeção 2: Assim como a vontade do homem que adere a Deus é uma regra reta, discordar da qual é pecado, assim a vontade do homem que é oposta a Deus é uma regre perversa, discordar da qual é bom. Por isso, causar uma discórdia pela qual se destrói uma boa concórdia resultante da caridade é pecado grave; donde está escrito (Prov. 6, 16): "Seis coisas há que o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma detesta", e a sétima diz-se (Prov. 6, 19) ser "o que semeia discórdia entre os irmãos". Por outro lado, suscitar uma discórdia pela qual se destrói uma concórdia má (isto é, a concórdia numa vontade má) é louvável. Deste modo, Paulo foi de louvar por semear discórdia entre os que concordavam no mal, porque também o Senhor disse de Si mesmo (Mt 10, 34): "Não vim trazer a paz, mas a espada." Resposta à Objeção 3: A discórdia entre Paulo e Barnabé foi acidental e não direta; porque cada um intentava algum bem, mas um pensava ser bom uma coisa, e o outro julgava outra, o que se devia à deficiência humana; pois aquela controvérsia não era acerca de coisas necessárias à salvação. Além disso, tudo isto foi ordenado pela divina providência, por causa do bem que daí havia de resultar.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether discord is a sin? · séc. XIII
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