Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a inveja não é pecado. Pois Jerônimo escreve a Leta sobre a educação de sua filha (Ep. cvii): «Tenha ela companheiras, para que aprenda juntamente com elas, as inveje, e sinta picada quando forem louvadas.» Ora, ninguém deve ser aconselhado a cometer pecado. Logo, a inveja não é pecado. **Objeção 2:** Além disso, «A inveja é tristeza pelo bem alheio», como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 14). Ora, isso às vezes é louvável; pois está escrito (Prov 29,2): «Quando os ímpios dominarem, o povo gemerá.» Logo, a inveja nem sempre é pecado. **Objeção 3:** Mais ainda, inveja designa uma espécie de zelo. Mas há um zelo bom, segundo o Sl 68,10: «O zelo da tua casa me devorou.» Logo, a inveja nem sempre é pecado. **Objeção 4:** Ademais, a pena divide-se com a culpa. Ora, a inveja é uma espécie de pena; pois Gregório diz (Moral. v, 46): «Quando a chaga torpe da inveja corrompe o coração vencido, até o próprio exterior mostra quão violentamente a mente é urgida pelo frenesi. Pois a palidez toma a tez, os olhos se tornam pesados, o espírito se inflama, enquanto os membros se esfriam, há frenesi no coração, há ranger de dentes.» Logo, a inveja não é pecado. **Em contrário,** está escrito (Gl 5,26): «Não nos tornemos desejosos de vanglória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.» **Respondo:** Como foi dito acima (A[1]), a inveja é tristeza pelo bem alheio. Ora, essa tristeza pode ocorrer de quatro modos. Primeiro, quando alguém se entristece pelo bem de outro, por temor de que cause dano seja a si mesmo, seja a outros bens. Essa tristeza não é inveja, como foi dito acima (A[1]), e pode ser isenta de pecado. Por isso Gregório diz (Moral. xxii, 11): «Muitas vezes acontece que, sem que a caridade se perca, tanto a ruína de um inimigo nos alegra, como também a sua glória, sem pecado de inveja, nos entristece, pois, quando ele cai, julgamos que alguns são justamente exaltados, e quando ele prospera, tememos que muitos sofram injustamente.» Em segundo lugar, podemos entristecer-nos pelo bem alheio, não porque ele o tenha, mas porque o bem que ele tem, nós não o temos; e isto, propriamente falando, é zelo, como diz o Filósofo (Rhet. ii, 9). E se esse zelo é acerca de bens virtuosos, é louvável, segundo 1Cor 14,1: «Sede zelosos dos dons espirituais»; ao passo que, se é acerca de bens temporais, pode ser ou pecaminoso ou isento de pecado. Em terceiro lugar, pode-se entristecer pelo bem alheio, porque aquele que porventura tem esse bem é indigno dele. Tal tristeza não pode ser ocasionada pelos bens virtuosos, que fazem o homem justo, mas, como afirma o Filósofo, é acerca das riquezas e daquelas coisas que podem advir tanto aos dignos como aos indignos; e ele chama a essa tristeza *némesis* [*O equivalente mais próximo é «indignação». O uso da palavra «némesis» para significar «vingança» não representa o grego original.], dizendo que pertence aos bons costumes. Mas ele diz isso porque considerava os bens temporais em si mesmos, na medida em que podem parecer grandes àqueles que não olham para os bens eternos; ao passo que, segundo o ensinamento da fé, os bens temporais que advêm aos indignos são assim dispostos segundo a justa ordenação de Deus, seja para a correção desses homens, seja para sua condenação, e tais bens são como nada em comparação com os bens vindouros, que estão preparados para os bons. Por isso, essa tristeza é proibida na Sagrada Escritura, segundo o Sl 36,1: «Não sejas emulador dos malvados, nem tenhas inveja dos que obram iniquidade», e ainda (Sl 72,2-3): «Por pouco não resvalaram os meus passos, porque tive inveja dos ímpios, vendo a prosperidade dos pecadores [*Douay: 'porque tive zelo por ocasião dos ímpios, vendo a prosperidade dos pecadores'].» Em quarto lugar, entristecemo-nos pelo bem de um homem, na medida em que o seu bem supera o nosso; isto é, propriamente falando, a inveja, e é sempre pecaminosa, como também afirma o Filósofo (Rhet. ii, 10), porque fazer isso é entristecer-se pelo que deveria alegrar-nos, isto é, pelo bem do próximo. **Resposta à Objeção 1:** Inveja aí designa o zelo com que devemos esforçar-nos para progredir com aqueles que são melhores do que nós. **Resposta à Objeção 2:** Este argumento considera a tristeza pelo bem alheio no primeiro sentido acima exposto. **Resposta à Objeção 3:** A inveja difere do zelo, como foi dito acima. Por isso, um certo zelo pode ser bom, ao passo que a inveja é sempre má. **Resposta à Objeção 4:** Nada impede que um pecado seja acidentalmente penal, como foi dito acima (I-II, q. 87, a. 2) quando tratávamos dos pecados.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether envy is a sin? · séc. XIII
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