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Gl 5, 26

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Matos Soares

26Não nos façamos ávidos da vanglória, provocando-nos uns aos outros e tendo inveja uns dos outros.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a inveja não é pecado. Pois Jerônimo escreve a Leta sobre a educação de sua filha (Ep. cvii): «Tenha ela companheiras, para que aprenda juntamente com elas, as inveje, e sinta picada quando forem louvadas.» Ora, ninguém deve ser aconselhado a cometer pecado. Logo, a inveja não é pecado. **Objeção 2:** Além disso, «A inveja é tristeza pelo bem alheio», como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 14). Ora, isso às vezes é louvável; pois está escrito (Prov 29,2): «Quando os ímpios dominarem, o povo gemerá.» Logo, a inveja nem sempre é pecado. **Objeção 3:** Mais ainda, inveja designa uma espécie de zelo. Mas há um zelo bom, segundo o Sl 68,10: «O zelo da tua casa me devorou.» Logo, a inveja nem sempre é pecado. **Objeção 4:** Ademais, a pena divide-se com a culpa. Ora, a inveja é uma espécie de pena; pois Gregório diz (Moral. v, 46): «Quando a chaga torpe da inveja corrompe o coração vencido, até o próprio exterior mostra quão violentamente a mente é urgida pelo frenesi. Pois a palidez toma a tez, os olhos se tornam pesados, o espírito se inflama, enquanto os membros se esfriam, há frenesi no coração, há ranger de dentes.» Logo, a inveja não é pecado. **Em contrário,** está escrito (Gl 5,26): «Não nos tornemos desejosos de vanglória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.» **Respondo:** Como foi dito acima (A[1]), a inveja é tristeza pelo bem alheio. Ora, essa tristeza pode ocorrer de quatro modos. Primeiro, quando alguém se entristece pelo bem de outro, por temor de que cause dano seja a si mesmo, seja a outros bens. Essa tristeza não é inveja, como foi dito acima (A[1]), e pode ser isenta de pecado. Por isso Gregório diz (Moral. xxii, 11): «Muitas vezes acontece que, sem que a caridade se perca, tanto a ruína de um inimigo nos alegra, como também a sua glória, sem pecado de inveja, nos entristece, pois, quando ele cai, julgamos que alguns são justamente exaltados, e quando ele prospera, tememos que muitos sofram injustamente.» Em segundo lugar, podemos entristecer-nos pelo bem alheio, não porque ele o tenha, mas porque o bem que ele tem, nós não o temos; e isto, propriamente falando, é zelo, como diz o Filósofo (Rhet. ii, 9). E se esse zelo é acerca de bens virtuosos, é louvável, segundo 1Cor 14,1: «Sede zelosos dos dons espirituais»; ao passo que, se é acerca de bens temporais, pode ser ou pecaminoso ou isento de pecado. Em terceiro lugar, pode-se entristecer pelo bem alheio, porque aquele que porventura tem esse bem é indigno dele. Tal tristeza não pode ser ocasionada pelos bens virtuosos, que fazem o homem justo, mas, como afirma o Filósofo, é acerca das riquezas e daquelas coisas que podem advir tanto aos dignos como aos indignos; e ele chama a essa tristeza *némesis* [*O equivalente mais próximo é «indignação». O uso da palavra «némesis» para significar «vingança» não representa o grego original.], dizendo que pertence aos bons costumes. Mas ele diz isso porque considerava os bens temporais em si mesmos, na medida em que podem parecer grandes àqueles que não olham para os bens eternos; ao passo que, segundo o ensinamento da fé, os bens temporais que advêm aos indignos são assim dispostos segundo a justa ordenação de Deus, seja para a correção desses homens, seja para sua condenação, e tais bens são como nada em comparação com os bens vindouros, que estão preparados para os bons. Por isso, essa tristeza é proibida na Sagrada Escritura, segundo o Sl 36,1: «Não sejas emulador dos malvados, nem tenhas inveja dos que obram iniquidade», e ainda (Sl 72,2-3): «Por pouco não resvalaram os meus passos, porque tive inveja dos ímpios, vendo a prosperidade dos pecadores [*Douay: 'porque tive zelo por ocasião dos ímpios, vendo a prosperidade dos pecadores'].» Em quarto lugar, entristecemo-nos pelo bem de um homem, na medida em que o seu bem supera o nosso; isto é, propriamente falando, a inveja, e é sempre pecaminosa, como também afirma o Filósofo (Rhet. ii, 10), porque fazer isso é entristecer-se pelo que deveria alegrar-nos, isto é, pelo bem do próximo. **Resposta à Objeção 1:** Inveja aí designa o zelo com que devemos esforçar-nos para progredir com aqueles que são melhores do que nós. **Resposta à Objeção 2:** Este argumento considera a tristeza pelo bem alheio no primeiro sentido acima exposto. **Resposta à Objeção 3:** A inveja difere do zelo, como foi dito acima. Por isso, um certo zelo pode ser bom, ao passo que a inveja é sempre má. **Resposta à Objeção 4:** Nada impede que um pecado seja acidentalmente penal, como foi dito acima (I-II, q. 87, a. 2) quando tratávamos dos pecados.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether envy is a sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que dois preceitos de caridade não bastam. Porque os preceitos são dados acerca dos atos de virtude. Ora, os atos distinguem-se pelos objetos. Visto que, portanto, o homem é obrigado a amar quatro coisas por caridade, a saber, Deus, a si mesmo, o próximo e o próprio corpo, como se mostrou acima (Q. 25, a. 12; Q. 26), parece que devia haver quatro preceitos de caridade, de modo que dois não são suficientes. Objeção 2: Ademais, o amor não é o único ato de caridade, mas também a alegria, a paz e a beneficência. Ora, os preceitos devem ser dados acerca dos atos das virtudes. Logo, dois preceitos de caridade não bastam. Objeção 3: Ademais, a virtude consiste não somente em fazer o bem, mas também em evitar o mal. Ora, pelos preceitos positivos somos levados a fazer o bem, e pelos preceitos negativos a evitar o mal. Portanto, devia haver acerca da caridade não só preceitos positivos, mas também negativos; e assim dois preceitos de caridade não são suficientes. Ao contrário, o Senhor disse (Mt 22,40): «Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas.» Respondo que a caridade, como se disse acima (Q. 23, a. 1), é uma espécie de amizade. Ora, a amizade é entre uma pessoa e outra, pelo que Gregório diz (Hom. in Ev. xvii): «A caridade não é possível entre menos de dois»; e já se explicou como alguém pode amar a si mesmo por caridade (Q. 25, a. 4). Ora, sendo o bem o objeto da dileção e do amor, e sendo o bem ou fim ou meio, convém que haja dois preceitos de caridade: um pelo qual somos induzidos a amar a Deus como nosso fim; outro pelo qual somos levados a amar o próximo por amor de Deus, como por causa do nosso fim. Resposta à objeção 1: Como diz Agostinho (De Doctr. Christ. i, 23), «embora quatro coisas sejam amáveis por caridade, não houve necessidade de preceito quanto à segunda e à quarta», isto é, o amor de si mesmo e do próprio corpo. «Pois, por mais que um homem se desvie da verdade, o amor de si mesmo e do próprio corpo permanece sempre nele.» Contudo, o modo desse amor devia ser prescrito ao homem, a saber, que ame a si mesmo e ao próprio corpo de modo ordenado, e isto se faz amando a Deus e ao próximo. Resposta à objeção 2: Como se disse acima (Q. 28, a. 4; Q. 29, a. 3), os outros atos de caridade resultam do ato de amor como efeitos de sua causa. Portanto, os preceitos do amor incluem virtualmente os preceitos acerca dos outros atos. E, contudo, achamos que, por causa dos tardos, foram dados preceitos especiais acerca de cada ato — acerca da alegria (Fp 4,4): «Alegrai-vos sempre no Senhor» — acerca da paz (Hb 12,14): «Segui a paz com todos» — acerca da beneficência (Gl 6,10): «Enquanto temos tempo, façamos bem a todos» — e a Sagrada Escritura contém preceitos acerca de cada uma das partes da beneficência, como pode ver quem atentamente considerar a matéria. Resposta à objeção 3: Fazer o bem é mais do que evitar o mal, e por isso os preceitos positivos incluem virtualmente os preceitos negativos. Contudo, encontramos preceitos explícitos contra os vícios contrários à caridade: pois, contra o ódio está escrito (Lv 19,17): «Não aborrecerás teu irmão em teu coração»; contra a preguiça (Eclo 6,26): «Não te entristeças com seus vínculos»; contra a inveja (Gl 5,26): «Não nos façamos desejosos de vanglória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros»; contra a discórdia (1Cor 1,10): «Que todos digais uma mesma coisa, e que não haja entre vós cismas»; e contra o escândalo (Rm 14,13): «Que não ponhais tropeço ou escândalo ao caminho de vosso irmão.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether two precepts of charity suffice? · séc. XIII

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