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Gl 6, 10

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Matos Soares

10Logo, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos irmãos na fé.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não somos obrigados a fazer bem a todos. Pois Agostinho diz (Da Doutrina Cristã I, 28) que "somos incapazes de fazer bem a todos". Ora, a virtude não inclina ao impossível. Logo, não é necessário fazer bem a todos. Objeção 2: Além disso, está escrito (Eclesiástico 12,5): "Dá ao bom, e não recebas o pecador." Mas muitos homens são pecadores. Logo, não precisamos fazer bem a todos. Objeção 3: Além disso, "A caridade não obra perversamente" (1 Coríntios 13,4). Ora, fazer bem a alguns é obrar perversamente: por exemplo, se alguém fizesse bem a um inimigo do bem comum, ou se fizesse bem a um excomungado, pois, fazendo-o, estaria em comunhão com ele. Logo, sendo a beneficência um ato de caridade, não devemos fazer bem a todos. Em contrário, o Apóstolo diz (Gálatas 6,10): "Enquanto temos tempo, façamos bem a todos os homens." Respondo que, como foi dito acima (A[1], ad 1), a beneficência é um efeito do amor na medida em que o amor move o superior a velar pelo inferior. Ora, os graus entre os homens não são imutáveis como entre os anjos, porque os homens estão sujeitos a muitas falhas, de modo que aquele que é superior em um aspecto, é ou pode ser inferior em outro. Portanto, visto que o amor da caridade se estende a todos, também a beneficência deve estender-se a todos, mas conforme o tempo e o lugar o exigem; porque todos os atos de virtude devem ser moderados com vistas às suas devidas circunstâncias. Resposta à Objeção 1: Falando absolutamente, é impossível fazer bem a cada um individualmente; mas é verdade de cada indivíduo que se pode estar obrigado a fazer-lhe bem em algum caso particular. Por isso a caridade nos obriga, embora não fazendo atualmente bem a alguém, a estar preparados de ânimo para fazer bem a qualquer um, se tivermos tempo de sobra. Há, contudo, um bem que podemos fazer a todos, senão a cada indivíduo, ao menos a todos em geral, como quando oramos por todos, tanto pelos infiéis como pelos fiéis. Resposta à Objeção 2: Num pecador há duas coisas: a sua culpa e a sua natureza. Por conseguinte, somos obrigados a socorrer o pecador quanto à manutenção da sua natureza, mas não de modo a favorecer o seu pecado, pois isso seria fazer mal antes que bem. Resposta à Objeção 3: Os excomungados e os inimigos do bem comum são privados de toda beneficência, na medida em que isso os impede de praticar más ações. Contudo, se a sua natureza estiver em urgente necessidade de socorro para não perecer, somos obrigados a ajudá-los; por exemplo, se estiverem em perigo de morte por fome ou sede, ou padecerem alguma aflição semelhante, a menos que isto seja segundo a ordem da justiça.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether we ought to do good to all? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que dois preceitos de caridade não bastam. Porque os preceitos são dados acerca dos atos de virtude. Ora, os atos distinguem-se pelos objetos. Visto que, portanto, o homem é obrigado a amar quatro coisas por caridade, a saber, Deus, a si mesmo, o próximo e o próprio corpo, como se mostrou acima (Q. 25, a. 12; Q. 26), parece que devia haver quatro preceitos de caridade, de modo que dois não são suficientes. Objeção 2: Ademais, o amor não é o único ato de caridade, mas também a alegria, a paz e a beneficência. Ora, os preceitos devem ser dados acerca dos atos das virtudes. Logo, dois preceitos de caridade não bastam. Objeção 3: Ademais, a virtude consiste não somente em fazer o bem, mas também em evitar o mal. Ora, pelos preceitos positivos somos levados a fazer o bem, e pelos preceitos negativos a evitar o mal. Portanto, devia haver acerca da caridade não só preceitos positivos, mas também negativos; e assim dois preceitos de caridade não são suficientes. Ao contrário, o Senhor disse (Mt 22,40): «Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas.» Respondo que a caridade, como se disse acima (Q. 23, a. 1), é uma espécie de amizade. Ora, a amizade é entre uma pessoa e outra, pelo que Gregório diz (Hom. in Ev. xvii): «A caridade não é possível entre menos de dois»; e já se explicou como alguém pode amar a si mesmo por caridade (Q. 25, a. 4). Ora, sendo o bem o objeto da dileção e do amor, e sendo o bem ou fim ou meio, convém que haja dois preceitos de caridade: um pelo qual somos induzidos a amar a Deus como nosso fim; outro pelo qual somos levados a amar o próximo por amor de Deus, como por causa do nosso fim. Resposta à objeção 1: Como diz Agostinho (De Doctr. Christ. i, 23), «embora quatro coisas sejam amáveis por caridade, não houve necessidade de preceito quanto à segunda e à quarta», isto é, o amor de si mesmo e do próprio corpo. «Pois, por mais que um homem se desvie da verdade, o amor de si mesmo e do próprio corpo permanece sempre nele.» Contudo, o modo desse amor devia ser prescrito ao homem, a saber, que ame a si mesmo e ao próprio corpo de modo ordenado, e isto se faz amando a Deus e ao próximo. Resposta à objeção 2: Como se disse acima (Q. 28, a. 4; Q. 29, a. 3), os outros atos de caridade resultam do ato de amor como efeitos de sua causa. Portanto, os preceitos do amor incluem virtualmente os preceitos acerca dos outros atos. E, contudo, achamos que, por causa dos tardos, foram dados preceitos especiais acerca de cada ato — acerca da alegria (Fp 4,4): «Alegrai-vos sempre no Senhor» — acerca da paz (Hb 12,14): «Segui a paz com todos» — acerca da beneficência (Gl 6,10): «Enquanto temos tempo, façamos bem a todos» — e a Sagrada Escritura contém preceitos acerca de cada uma das partes da beneficência, como pode ver quem atentamente considerar a matéria. Resposta à objeção 3: Fazer o bem é mais do que evitar o mal, e por isso os preceitos positivos incluem virtualmente os preceitos negativos. Contudo, encontramos preceitos explícitos contra os vícios contrários à caridade: pois, contra o ódio está escrito (Lv 19,17): «Não aborrecerás teu irmão em teu coração»; contra a preguiça (Eclo 6,26): «Não te entristeças com seus vínculos»; contra a inveja (Gl 5,26): «Não nos façamos desejosos de vanglória, provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros»; contra a discórdia (1Cor 1,10): «Que todos digais uma mesma coisa, e que não haja entre vós cismas»; e contra o escândalo (Rm 14,13): «Que não ponhais tropeço ou escândalo ao caminho de vosso irmão.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether two precepts of charity suffice? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a ordem da caridade não está incluída no preceito. Porque todo aquele que transgride um preceito comete uma injúria. Ora, se um homem ama a alguém tanto quanto deve, e ama a outro mais, a ninguém injuria. Logo, não transgride o preceito. Portanto, a ordem da caridade não está incluída no preceito. Objeção 2: Demais, tudo quanto é matéria de preceito é-nos suficientemente transmitido na Sagrada Escritura. Ora, a ordem da caridade, que foi dada acima (Q[26]), em parte alguma é indicada na Sagrada Escritura. Logo, não está incluída no preceito. Objeção 3: Demais, a ordem implica alguma distinção. Ora, o amor do próximo é prescrito sem distinção alguma, nas palavras: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.» Logo, a ordem da caridade não está incluída no preceito. Em contrário, Tudo o que Deus opera em nós pela sua graça, primeiro no-lo ensina por sua Lei, segundo Jeremias 31,33: «Porei a minha Lei no seu coração [*Vulg.: ‘nas suas entranhas, e a escreverei no seu coração’].» Ora, Deus causa em nós a ordem da caridade, segundo o Cântico dos Cânticos 2,4: «Ordenou em mim a caridade.» Logo, a ordem da caridade cai sob o preceito da Lei. Respondo que, como foi dito acima (A[4], ad 1), o modo que é essencial a um ato de virtude cai sob o preceito que prescreve aquele ato virtuoso. Ora, a ordem da caridade é essencial à virtude, pois se baseia na proporção do amor ao objeto amado, como foi mostrado acima (Q[25], A[12]; Q[26], AA[1],2). É, portanto, evidente que a ordem da caridade deve cair sob o preceito. Resposta à Objeção 1: Um homem gratifica mais a pessoa que ama mais; de modo que, se amasse menos aquele que devia amar mais, desejaria gratificar mais aquele que devia gratificar menos, e assim faria injúria àquele que devia amar mais. Resposta à Objeção 2: A ordem das quatro coisas que devemos amar por caridade é expressa na Sagrada Escritura. Pois, quando nos é mandado amar a Deus de «todo o nosso coração», dá-se-nos a entender que O devemos amar acima de todas as coisas. Quando nos é mandado amar o próximo «como a nós mesmos», o amor de si mesmo é posto antes do amor do próximo. De igual modo, quando nos é mandado (1 João 3,16) «dar a vida», isto é, a vida do corpo, «pelos irmãos», dá-se-nos a entender que o homem deve amar o próximo mais do que o próprio corpo; e novamente, quando nos é mandado (Gálatas 6,10) «fazer o bem… especialmente aos que são da família da fé», e quando um homem é repreendido (1 Timóteo 5,8) se não «tem cuidado dos seus, e especialmente dos de sua casa», significa que devemos amar mais aqueles dos nossos próximos que são mais virtuosos ou mais chegados a nós. Resposta à Objeção 3: Segue-se das próprias palavras: «Amarás o teu próximo» que os que nos são mais próximos devem ser mais amados.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether the order of charity is included in the precept? · séc. XIII

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