Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não somos obrigados a fazer bem a todos. Pois Agostinho diz (Da Doutrina Cristã I, 28) que "somos incapazes de fazer bem a todos". Ora, a virtude não inclina ao impossível. Logo, não é necessário fazer bem a todos. Objeção 2: Além disso, está escrito (Eclesiástico 12,5): "Dá ao bom, e não recebas o pecador." Mas muitos homens são pecadores. Logo, não precisamos fazer bem a todos. Objeção 3: Além disso, "A caridade não obra perversamente" (1 Coríntios 13,4). Ora, fazer bem a alguns é obrar perversamente: por exemplo, se alguém fizesse bem a um inimigo do bem comum, ou se fizesse bem a um excomungado, pois, fazendo-o, estaria em comunhão com ele. Logo, sendo a beneficência um ato de caridade, não devemos fazer bem a todos. Em contrário, o Apóstolo diz (Gálatas 6,10): "Enquanto temos tempo, façamos bem a todos os homens." Respondo que, como foi dito acima (A[1], ad 1), a beneficência é um efeito do amor na medida em que o amor move o superior a velar pelo inferior. Ora, os graus entre os homens não são imutáveis como entre os anjos, porque os homens estão sujeitos a muitas falhas, de modo que aquele que é superior em um aspecto, é ou pode ser inferior em outro. Portanto, visto que o amor da caridade se estende a todos, também a beneficência deve estender-se a todos, mas conforme o tempo e o lugar o exigem; porque todos os atos de virtude devem ser moderados com vistas às suas devidas circunstâncias. Resposta à Objeção 1: Falando absolutamente, é impossível fazer bem a cada um individualmente; mas é verdade de cada indivíduo que se pode estar obrigado a fazer-lhe bem em algum caso particular. Por isso a caridade nos obriga, embora não fazendo atualmente bem a alguém, a estar preparados de ânimo para fazer bem a qualquer um, se tivermos tempo de sobra. Há, contudo, um bem que podemos fazer a todos, senão a cada indivíduo, ao menos a todos em geral, como quando oramos por todos, tanto pelos infiéis como pelos fiéis. Resposta à Objeção 2: Num pecador há duas coisas: a sua culpa e a sua natureza. Por conseguinte, somos obrigados a socorrer o pecador quanto à manutenção da sua natureza, mas não de modo a favorecer o seu pecado, pois isso seria fazer mal antes que bem. Resposta à Objeção 3: Os excomungados e os inimigos do bem comum são privados de toda beneficência, na medida em que isso os impede de praticar más ações. Contudo, se a sua natureza estiver em urgente necessidade de socorro para não perecer, somos obrigados a ajudá-los; por exemplo, se estiverem em perigo de morte por fome ou sede, ou padecerem alguma aflição semelhante, a menos que isto seja segundo a ordem da justiça.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether we ought to do good to all? · séc. XIII
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