Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a informidade da matéria precedeu no tempo a sua formação. Pois está escrito (Gn 1,2): «A terra era vazia e vã», ou, segundo outra versão [Septuaginta], «invisível e informe»; pelo que se entende a informidade da matéria, como diz Agostinho (Confissões xii, 12). Logo, a matéria foi informe até receber a sua forma. **Objeção 2:** Ademais, a natureza, na sua operação, imita a operação de Deus, assim como a causa segunda imita a causa primeira. Ora, na operação da natureza, a informidade precede temporalmente a forma. Portanto, também na operação divina. **Objeção 3:** Ademais, a matéria é superior ao acidente, pois a matéria é parte da substância. Mas Deus pode fazer com que o acidente exista sem substância, como no Sacramento do Altar. Logo, poderia fazer com que a matéria existisse sem forma. **Ao contrário,** um efeito imperfeito prova imperfeição no agente. Mas Deus é um agente absolutamente perfeito; por isso se diz d'Ele (Dt 32,4): «As obras de Deus são perfeitas.» Portanto, a obra da sua criação nunca foi informe. Ademais, a formação das criaturas corpóreas foi efetuada pela obra da distinção. Ora, a confusão opõe-se à distinção, assim como a informidade à forma. Se, pois, a informidade precedeu no tempo a formação da matéria, segue-se que no princípio existiu confusão, chamada pelos antigos de caos, na criação corpórea. **Respondo que:** Neste ponto, os santos varões divergem em opinião. Agostinho, por exemplo (Gen. ad lit. i, 15), crê que a informidade da matéria não foi anterior no tempo à sua formação, mas apenas na origem ou na ordem da natureza; outros, porém, como Basílio (Hom. ii In Hexaem.), Ambrósio (In Hexaem. i) e Crisóstomo (Hom. ii In Gen.), sustentam que a informidade da matéria precedeu temporalmente a sua formação. E embora estas opiniões pareçam mutuamente contraditórias, na realidade diferem pouco; pois Agostinho toma a informidade da matéria em sentido diverso dos outros. No seu sentido, significa a ausência de toda forma; e se assim a entendermos, não podemos dizer que a informidade da matéria foi anterior no tempo, quer à sua formação, quer à sua distinção. Quanto à formação, o argumento é claro. Se a matéria informe precedeu em duração, já existia; pois isso é implicado pela duração, uma vez que o fim da criação é o ser em ato; e o próprio ato é uma forma. Dizer, pois, que a matéria precedeu, mas sem forma, é dizer que o ser existia em ato, contudo sem ato, o que é uma contradição nos termos. Nem se pode dizer que possuía alguma forma comum, sobre a qual sobrevieram depois as diversas formas que a distinguem. Pois isso seria sustentar a opinião dos antigos filósofos naturais, que afirmavam que a matéria prima era algo corpóreo em ato, como fogo, ar, água ou alguma substância intermédia. Daí resultaria que ser feito significaria meramente ser mudado; pois, uma vez que essa forma precedente conferia o ser substancial atual e fazia que alguma coisa particular existisse, a forma superveniente não faria simplesmente um ser em ato, mas 'este' ser em ato; o que é o efeito próprio de uma forma acidental. Assim, as formas consequentes seriam meros acidentes, implicando não geração, mas alteração. Portanto, devemos afirmar que a matéria prima não foi criada totalmente informe, nem sob uma forma comum qualquer, mas sob formas distintas. E assim, se a informidade da matéria for tomada com referência à condição da matéria prima, que em si mesma é informe, esta informidade não precedeu no tempo a sua formação ou distinção, mas apenas na origem e na natureza, como diz Agostinho; do mesmo modo que a potencialidade é anterior ao ato, e a parte ao todo. Mas os outros santos escritores entendem por informidade, não a exclusão de toda forma, mas a ausência daquela beleza e formosura que agora são patentes na criação corpórea. Por conseguinte, dizem que a informidade da matéria corpórea precedeu em duração a sua forma. E assim, quando isto é considerado, parece que Agostinho concorda com eles em alguns aspectos e noutros discorda, como se mostrará depois (Q[69], A[1]; Q[74], A[2]). Segundo se pode coligir do texto do Gênesis, faltava às criaturas corpóreas uma tríplice beleza, pela qual são ditas informes. Pois faltava a beleza da luz a todo aquele corpo transparente que chamamos céus, donde se diz que «as trevas estavam sobre a face do abismo». E a terra carecia de beleza de dois modos: primeiro, daquela beleza que adquiriu quando o seu véu aquoso foi retirado, e assim lemos que «a terra era vazia», ou «invisível», porquanto as águas a cobriam e ocultavam à vista; segundo, da que deriva de ser adornada por ervas e plantas, razão pela qual é chamada «vã», ou, segundo outra leitura [Septuaginta], «informe» — isto é, desadornada. Assim, após a menção de duas naturezas criadas, o céu e a terra, a informidade do céu é indicada pelas palavras «as trevas estavam sobre a face do abismo», uma vez que o ar está incluído sob o céu; e a informidade da terra, pelas palavras «a terra era vazia e vã». **Resposta à Objeção 1:** A palavra terra é tomada de modo diferente nesta passagem por Agostinho e por outros escritores. Agostinho sustenta que pelas palavras «terra» e «água», nesta passagem, se significa a própria matéria prima, por ser impossível a Moisés tornar a ideia de tal matéria inteligível a um povo ignorante, senão sob a similitude de objetos conhecidos. Daí que use várias figuras ao falar dela, chamando-lhe não só água, nem só terra, para que não pensassem que era verdadeiramente água ou terra. Ao mesmo tempo, tem tanta semelhança com a terra, por ser suscetível de forma, e com a água, pela sua adaptabilidade a uma variedade de formas. Neste sentido, pois, diz-se que a terra é «vazia e vã», ou «invisível e informe», porque a matéria é conhecida por meio da forma. Por conseguinte, considerada em si mesma, é chamada «invisível» ou «vazia», e a sua potencialidade é completada pela forma; assim Platão diz que a matéria é o «lugar» [Timeu, citado por Aristóteles, Física iv, text. 15]. Mas outros santos escritores entendem por terra o elemento terra, e já dissemos (A[1]) como, nesse sentido, a era, segundo eles, sem forma. **Resposta à Objeção 2:** A natureza produz o efeito em ato a partir do que está em potencialidade; e, consequentemente, nas operações da natureza, a potencialidade deve preceder o ato no tempo, e a informidade a forma. Mas Deus produz o ser em ato a partir do nada, e pode, portanto, produzir uma coisa perfeita num instante, segundo a grandeza do seu poder. **Resposta à Objeção 3:** O acidente, enquanto é forma, é uma espécie de ato; ao passo que a matéria, como tal, é essencialmente ser em potencialidade. Por isso, é mais repugnante que a matéria esteja em ato sem forma, do que o acidente esteja sem sujeito. Em resposta ao primeiro argumento em sentido contrário, dizemos que se, segundo alguns santos escritores, a informidade foi anterior no tempo à informação da matéria, isso proveio, não de falta de poder da parte de Deus, mas da sua sabedoria e do desígnio de preservar a devida ordem na disposição das criaturas, desenvolvendo a perfeição a partir da imperfeição. Em resposta ao segundo argumento, dizemos que certos antigos filósofos naturais sustentaram a confusão desprovida de toda distinção; exceto Anaxágoras, que ensinou que só o intelecto era distinto e sem mistura. Mas antes da obra da distinção, a Sagrada Escritura enumera vários tipos de diferenciação, sendo o primeiro a do céu e da terra, na qual se exprime até uma distinção material, como se mostrará depois (A[3]; Q[68], A[1]). Isto é significado pelas palavras: «No princípio criou Deus o céu e a terra.» A segunda distinção mencionada é a dos elementos segundo as suas formas, visto que tanto a terra como a água são nomeadas. O ar e o fogo não são mencionados pelo nome porque a natureza corpórea destes não seria tão evidente como a da terra e da água para o povo ignorante a quem Moisés falava. Platão (Timeu xxvi), contudo, entendeu que o ar era significado pelas palavras «Espírito de Deus», pois espírito é outro nome para ar, e considerou que pela palavra céu se entendia o fogo, porquanto sustentava que o céu era composto de fogo, como refere Agostinho (De Civ. Dei viii, 11). Mas o Rabi Moisés (Perplex. ii), embora concordando com Platão em outros pontos, diz que o fogo é significado pela palavra trevas, pois, dizia ele, o fogo não brilha na sua própria esfera. Contudo, parece mais razoável ater-nos ao que expusemos acima; porque pelas palavras «Espírito de Deus» a Escritura costuma significar o Espírito Santo, que se diz «mover-se sobre as águas», não, na verdade, em forma corpórea, mas como a vontade do artífice se pode dizer que se move sobre a matéria a que pretende dar forma. A terceira distinção é a de lugar; pois a terra é dita estar debaixo das águas que a tornavam invisível, enquanto o ar, sujeito das trevas, é descrito como estando sobre as águas, nas palavras: «As trevas estavam sobre a face do abismo.» As restantes distinções aparecerão do que se segue (Q[71]).
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether formlessness of created matter preceded in time its formation? · séc. XIII
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