Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a Lei Nova deveria ter sido dada desde o princípio do mundo. «Porque não há acepção de pessoas diante de Deus» (Rm 2,11). Mas todos os homens «pecaram e necessitam da glória de Deus» (Rm 3,23). Portanto, a Lei do Evangelho deveria ter sido dada desde o princípio do mundo, a fim de que trouxesse socorro a todos. Objeção 2: Além disso, assim como os homens habitam em vários lugares, assim também vivem em vários tempos. Mas Deus, «que quer que todos os homens se salvem» (1 Tm 2,4), mandou que o Evangelho fosse pregado em todos os lugares, como se vê nos últimos capítulos de Mateus e Marcos. Portanto, a Lei do Evangelho deveria estar ao alcance de todos os tempos, de modo a ser dada desde o princípio do mundo. Objeção 3: Além disso, o homem necessita salvar sua alma, que é para toda a eternidade, mais do que salvar seu corpo, que é matéria temporal. Mas Deus proveu o homem desde o princípio do mundo com as coisas necessárias para a saúde do seu corpo, sujeitando ao seu poder tudo o que foi criado por causa do homem (Gn 1,26-29). Portanto, a Lei Nova também, que é muito necessária para a saúde da alma, deveria ter sido dada ao homem desde o princípio do mundo. Pelo contrário, diz o Apóstolo (1 Cor 15,46): «Não é primeiro o que é espiritual, senão o que é natural.» Ora, a Lei Nova é altamente espiritual. Logo, não conviria que fosse dada desde o princípio do mundo. Respondo: Três razões podem ser atribuídas para que não conviesse dar a Lei Nova desde o princípio do mundo. A primeira é porque a Lei Nova, como foi dito acima (A[1]), consiste principalmente na graça do Espírito Santo, a qual não conviria que fosse dada abundantemente até que o pecado, que é obstáculo à graça, fosse expulso do homem mediante a realização da sua redenção por Cristo; por isso está escrito (Jo 7,39): «Ainda o Espírito não era dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.» Esta razão o Apóstolo expõe claramente (Rm 8,2 e segs.), onde, depois de falar da «Lei do Espírito de vida», acrescenta: «Deus, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne de pecado, do pecado* condenou o pecado na carne, para que a justificação da Lei se cumprisse em nós.» [*Santo Tomás, citando talvez de memória, omite o «et» (e), depois de «carne de pecado». O texto citado deve ler-se assim: «em semelhança de carne de pecado, e como oferta pelo pecado ({peri hamartias}), tem», etc.] Uma segunda razão pode ser tirada da perfeição da Lei Nova. Porque uma coisa não é levada à perfeição imediatamente desde o início, mas através de uma sucessão ordenada de tempo; assim, primeiro alguém é menino, e depois homem. E esta razão é exposta pelo Apóstolo (Gl 3,24-25): «A Lei foi nosso pedagogo para Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Mas, depois que veio a fé, já não estamos sob pedagogo.» A terceira razão se encontra no fato de que a Lei Nova é a lei da graça: pelo que convinha que o homem fosse primeiramente deixado a si mesmo sob o estado da Lei Velha, para que, caindo em pecado, reconhecesse sua fraqueza e confessasse sua necessidade de graça. Esta razão é exposta pelo Apóstolo (Rm 5,20): «A Lei entrou para que abundasse o pecado; e, onde abundou o pecado, superabundou a graça.» Resposta à primeira objeção: O gênero humano, por causa do pecado de nossos primeiros pais, mereceu ser privado do auxílio da graça; e assim «a quem ela é negada, é justamente negada; e a quem é dada, é misericordiosamente dada», como diz Agostinho (De Perfect. Justit. iv) [*Cf. Ep. ccvii; De Pecc. Mer. et Rem. ii, 19]. Consequentemente, não se segue que haja acepção de pessoas em Deus pelo fato de Ele não ter oferecido a Lei da graça a todos desde o princípio do mundo, Lei que havia de ser publicada no devido decurso do tempo, como foi dito acima. Resposta à segunda objeção: O estado do gênero humano não varia segundo a diversidade de lugar, mas segundo a sucessão de tempo. Portanto, a Lei Nova vale para todos os lugares, mas não para todos os tempos; embora em todos os tempos tenha havido algumas pessoas pertencentes ao Novo Testamento, como foi dito acima (A[1], ad 3). Resposta à terceira objeção: As coisas que pertencem à saúde do corpo servem ao homem quanto à sua natureza, que o pecado não destrói; ao passo que as coisas que pertencem à saúde da alma são ordenadas à graça, que se perde pelo pecado. Portanto, a comparação não procede.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the New Law should have been given from the beginning of the world? · séc. XIII
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