Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a vontade não é movida só por Deus como princípio exterior. Porque é natural que o inferior seja movido pelo seu superior: assim os corpos inferiores são movidos pelos corpos celestes. Ora, há algo que é mais alto que a vontade do homem e abaixo de Deus, a saber, o anjo. Logo, a vontade do homem pode ser movida também por um anjo, como princípio exterior. Objeção 2: Ademais, o ato da vontade segue o ato do intelecto. Ora, o intelecto do homem é reduzido ao ato, não só por Deus, mas também pelo anjo que o ilumina, como diz Dionísio (Hier. Cel. iv). Pela mesma razão, portanto, a vontade também é movida por um anjo. Objeção 3: Além disso, Deus não é causa senão de coisas boas, conforme Gn 1,31: «Viu Deus todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas.» Se, portanto, a vontade do homem fosse movida só por Deus, nunca seria movida para o mal: e no entanto é a vontade pela qual «pecamos e obramos retamente», como diz Agostinho (Retrat. i, 9). Ao contrário, está escrito (Fl 2,13): «Deus é quem opera em vós o querer e o executar.» Respondo que o movimento da vontade é interior, como também o é o movimento da natureza. Ora, embora seja possível que algo mova uma coisa natural sem ser a causa da coisa movida, contudo, somente aquilo que é de algum modo a causa da natureza de uma coisa pode causar um movimento natural na mesma. Pois uma pedra é movida para cima por um homem, que não é a causa da natureza da pedra, mas este movimento não é natural à pedra; ao passo que o movimento natural da pedra não é causado senão pela causa da sua natureza. Por isso se diz na Fís. vii, 4, que o gerador move localmente os corpos pesados e leves. Assim, o homem dotado de vontade é às vezes movido por algo que não é a sua causa; mas que o seu movimento voluntário provenha de um princípio exterior que não é a causa da sua vontade, é impossível. Ora, a causa da vontade não pode ser senão Deus. E isto é evidente por duas razões. Primeiro, porque a vontade é uma potência da alma racional, a qual é causada só por Deus, pela criação, como foi dito na Primeira Parte, Q. 90, a. 2. Segundo, é evidente pelo fato de que a vontade é ordenada para o bem universal. Portanto, nenhuma outra coisa pode ser a causa da vontade, exceto o próprio Deus, que é o bem universal; enquanto todo outro bem é bem por participação, e é um bem particular, e uma causa particular não dá uma inclinação universal. Por isso, nem a matéria prima, que é potência para todas as formas, pode ser criada por algum agente particular. Resposta à Objeção 1: Um anjo não está acima do homem de modo a ser a causa da sua vontade, como os corpos celestes são causas das formas naturais, das quais resultam os movimentos naturais dos corpos naturais. Resposta à Objeção 2: O intelecto do homem é movido por um anjo, da parte do objeto, que pelo poder da luz angélica é proposto ao conhecimento do homem. E deste modo também a vontade pode ser movida por uma criatura exteriormente, como foi dito acima (a. 4). Resposta à Objeção 3: Deus move a vontade do homem, como Motor Universal, para o objeto universal da vontade, que é o bem. E sem este movimento universal, o homem não pode querer coisa alguma. Mas o homem determina-se a si mesmo pela sua razão a querer isto ou aquilo, que é bem verdadeiro ou aparente. Contudo, às vezes Deus move especialmente alguns para o querer de algo determinado, que é bem; como no caso daqueles que Ele move pela graça, como adiante se dirá (Q. 109, a. 2).
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether the will is moved by God alone, as exterior principle? · séc. XIII
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