Santo Thomas Aquinas
Parece que o conhecimento matutino e o vespertino são um só. Pois está dito (Gn 1,5): «E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro». Mas pela expressão «dia» deve-se entender o conhecimento dos anjos, como diz Agostinho (Gen. ad lit. IV, 23). Logo, o conhecimento matutino e vespertino dos anjos são um e o mesmo. Além disso, é impossível que uma mesma faculdade tenha duas operações ao mesmo tempo. Mas os anjos estão sempre usando seu conhecimento matutino, porque estão sempre contemplando a Deus e as coisas em Deus, segundo Mt 18,10. Logo, se o conhecimento vespertino fosse diferente do matutino, o anjo nunca poderia exercer seu conhecimento vespertino. Ademais, o Apóstolo diz (1 Cor 13,10): «Quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será abolido». Mas, se o conhecimento vespertino é diferente do matutino, ele se compara a este como o menos perfeito ao perfeito. Logo, o conhecimento vespertino não pode existir juntamente com o matutino. Ao contrário, Agostinho diz (Gen. ad lit. IV, 24): «Há uma vasta diferença entre conhecer qualquer coisa como ela está no Verbo de Deus, e como ela está em sua própria natureza; de modo que o primeiro pertence ao dia, e o segundo à tarde». Respondo: Como foi observado (A[6]), o conhecimento vespertino é aquele pelo qual os anjos conhecem as coisas em sua natureza própria. Isso não pode ser entendido como se eles extraíssem seu conhecimento da natureza própria das coisas, de modo que a preposição «em» denote a forma de um princípio; porque, como já foi dito (Q[55], A[2]), os anjos não extraem seu conhecimento das coisas. Segue-se, então, que quando dizemos «em sua natureza própria» nos referimos ao aspecto da coisa conhecida enquanto é objeto de conhecimento; isto é, que o conhecimento vespertino está nos anjos enquanto eles conhecem o ser das coisas que essas coisas têm em sua própria natureza. Ora, eles conhecem isso por um duplo meio, a saber, pelas ideias inatas ou pelas formas das coisas existentes no Verbo. Pois, contemplando o Verbo, eles conhecem não apenas o ser das coisas como existente no Verbo, mas o ser possuído pelas próprias coisas; assim como Deus, contemplando a Si mesmo, vê aquele ser que as coisas têm em sua própria natureza. Portanto, se for chamado conhecimento vespertino enquanto, quando os anjos contemplam o Verbo, eles conhecem o ser que as coisas têm em sua natureza própria, então o conhecimento matutino e o vespertino são essencialmente um e o mesmo, e diferem apenas quanto às coisas conhecidas. Se for chamado conhecimento vespertino enquanto, por meio de ideias inatas, eles conhecem o ser que as coisas têm em suas próprias naturezas, então o conhecimento matutino e o vespertino diferem. Assim parece entendê-lo Agostinho quando atribui um como inferior ao outro. Resposta à primeira objeção: Os seis dias, como Agostinho os entende, são tomados como as seis classes de coisas conhecidas pelos anjos; de modo que a unidade do dia é tomada segundo a unidade da coisa entendida; a qual, no entanto, pode ser apreendida por várias maneiras de conhecê-la. Resposta à segunda objeção: Podem haver duas operações da mesma faculdade ao mesmo tempo, uma das quais é referida à outra; como é evidente quando a vontade, ao mesmo tempo, quer o fim e os meios para o fim; e o intelecto, num mesmo instante, percebe os princípios e as conclusões por meio desses princípios, quando já adquiriu conhecimento. Como diz Agostinho (Gen. ad lit. IV, 24), o conhecimento vespertino é referido ao conhecimento matutino nos anjos; donde nada impede que ambos estejam ao mesmo tempo nos anjos. Resposta à terceira objeção: Ao vir o que é perfeito, o imperfeito oposto é abolido: assim como a fé, que é das coisas que não se veem, é anulada quando sobrevém a visão. Mas a imperfeição do conhecimento vespertino não se opõe à perfeição do conhecimento matutino. Pois que uma coisa seja conhecida em si mesma não é oposto a ser conhecida em sua causa. Nem, ainda, há qualquer incoerência em conhecer uma coisa por dois meios, um dos quais é mais perfeito e o outro menos perfeito; assim como podemos ter um meio demonstrativo e um provável para alcançar a mesma conclusão. De modo semelhante, uma coisa pode ser conhecida pelo anjo por meio do Verbo incriado e por meio de uma ideia inata.
Summa Theologiae — First Part · Article. 7 - Whether the morning and evening knowledge are one? · séc. XIII
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