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Gn 2, 23

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Matos Soares

23E Adão disse: eis aqui agora o osso de meus ossos e a carne da minha carne; ela se chamará Virago, porque do varão foi tomada.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria que, se o homem não houvera pecado, Deus ainda assim se teria encarnado. Pois, permanecendo a causa, permanece também o efeito. Mas, como diz Agostinho (De Trin. xiii, 17): «Muitas outras coisas hão de considerar-se na Encarnação de Cristo além da absolvição do pecado»; e estas foram discutidas acima (A[2]). Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 2:** Demais, pertence à onipotência do poder divino aperfeiçoar as suas obras e manifestar-se a Si mesmo por algum efeito infinito. Ora, nenhuma criatura pura pode chamar-se efeito infinito, pois é finita pela sua própria essência. Mas, ao que parece, só na obra da Encarnação se manifesta de modo especial um efeito infinito do poder divino, pelo qual se unem coisas infinitamente distantes, uma vez que se trouxe a efeito que o homem é Deus. E nesta obra principalmente o universo pareceria ser aperfeiçoado, visto que a última criatura — o homem — é unida ao primeiro princípio — Deus. Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 3:** Demais, a natureza humana não se tornou mais capaz de graça pelo pecado. Ora, depois do pecado ela é capaz da graça de união, que é a máxima graça. Logo, se o homem não houvera pecado, a natureza humana teria sido capaz desta graça; nem Deus teria recusado à natureza humana qualquer bem de que ela fosse capaz. Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 4:** Demais, a predestinação de Deus é eterna. Ora, diz-se de Cristo (Rm 1,4): «Que foi predestinado Filho de Deus em poder». Logo, mesmo antes do pecado, era necessário que o Filho de Deus se encarnasse, para cumprir a predestinação de Deus. **Objeção 5:** Demais, o mistério da Encarnação foi revelado ao primeiro homem, como se vê claramente de Gn 2,23: «Isto é agora osso dos meus ossos», etc., o que o Apóstolo diz ser «grande sacramento… em Cristo e na Igreja», como é claro de Ef 5,32. Ora, o homem não podia ter presciência da sua queda, pela mesma razão por que os anjos não puderam, como prova Agostinho (Gênese à letra xi, 18). Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Em contrário,** Agostinho diz (Das Palavras do Apóstolo viii, 2), expondo o que se relata em Lc 19,10: «Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido»; «Portanto, se o homem não houvera pecado, o Filho do Homem não teria vindo.» E sobre 1 Tm 1,15: «Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores», diz uma glosa: «Não houve causa da vinda de Cristo ao mundo senão para salvar pecadores. Tirai as doenças, tirai as chagas, e não há necessidade de remédio.» **Respondo que** há diferentes opiniões sobre esta questão. Pois alguns dizem que, mesmo que o homem não houvera pecado, o Filho do Homem se teria encarnado. Outros afirmam o contrário, e ao que parece devemos antes dar o nosso assentimento a esta opinião. Porque tais coisas que procedem da vontade de Deus e excedem o devido à criatura só nos podem ser conhecidas mediante a revelação na Sagrada Escritura, na qual a Vontade divina nos é manifestada. Donde, visto que em toda a Sagrada Escritura se assinala o pecado do primeiro homem como razão da Encarnação, é mais conforme a isto dizer que a obra da Encarnação foi ordenada por Deus como remédio do pecado; de modo que, se o pecado não houvera existido, a Encarnação não teria lugar. E contudo o poder de Deus não está limitado a isto; mesmo que o pecado não houvera existido, Deus poderia ter-Se encarnado. **Resposta à objeção 1:** Todas as outras causas que se assinalam no artigo precedente dizem respeito ao remédio do pecado. Pois, se o homem não houvera pecado, teria sido dotado da luz da sabedoria divina e aperfeiçoado por Deus com a retidão da justiça para conhecer e realizar tudo o que fosse necessário. Mas porque o homem, ao desertar de Deus, se abaixara às coisas corpóreas, foi necessário que Deus tomasse carne e, pelas coisas corpóreas, lhe ministrasse o remédio da salvação. Por isso, sobre Jo 1,14: «E o Verbo se fez carne», diz Santo Agostinho (Tratado ii): «A carne te cegara, a carne te cura; porque Cristo veio e derribou os vícios da carne.» **Resposta à objeção 2:** A infinitude do poder divino mostra-se no modo de produção das coisas a partir do nada. Além disso, basta para a perfeição do universo que a criatura seja ordenada de modo natural a Deus como a um fim. Mas que uma criatura se una a Deus em pessoa excede os limites da perfeição da natureza. **Resposta à objeção 3:** Pode notar-se na natureza humana uma dupla capacidade: uma, quanto à ordem do poder natural, e esta é sempre cumprida por Deus, que distribui a cada um segundo a sua capacidade natural; a outra, quanto à ordem do poder divino, a qual todas as criaturas implicitamente obedecem; e a capacidade de que falamos pertence a esta. Mas Deus não cumpre todas estas capacidades; de outro modo, Deus só poderia fazer o que fez nas criaturas, o que é falso, como se disse acima (FP, Q[105], A[6]). Mas não há razão para que a natureza humana não fosse elevada a algo maior depois do pecado. Pois Deus permite que os males aconteçam para daí tirar um bem maior; por isso está escrito (Rm 5,20): «Onde abundou o pecado, superabundou a graça.» Donde, também na bênção do círio pascal dizemos: «Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor!» **Resposta à objeção 4:** A predestinação pressupõe a presciência das coisas futuras; e assim como Deus predestina a salvação de alguém para ser realizada pelas orações de outros, assim também predestinou a obra da Encarnação para ser o remédio do pecado humano. **Resposta à objeção 5:** Nada impede que um efeito seja revelado a alguém a quem a causa não é revelada. Donde, o mistério da Encarnação pôde ser revelado ao primeiro homem sem que ele tivesse presciência da sua queda. Pois nem todo aquele que conhece o efeito conhece a causa.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether, if man had not sinned, God would have become incarnate? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a carne de Cristo não foi concebida do puríssimo sangue da Virgem: pois na coleta (Festa da Anunciação) se diz que Deus «quis que o seu Verbo assumisse carne de uma Virgem». Ora, a carne difere do sangue. Logo, o corpo de Cristo não foi tomado do sangue da Virgem. Objeção 2: Além disso, assim como a mulher foi miraculosamente formada do homem, assim o corpo de Cristo foi miraculosamente formado da Virgem. Ora, não se diz que a mulher foi formada do sangue do homem, mas sim da sua carne e dos seus ossos, segundo Gn 2,23: «Isto é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne.» Parece, portanto, que nem o corpo de Cristo deveria ter sido formado do sangue da Virgem, mas da sua carne e ossos. Objeção 3: Além disso, o corpo de Cristo era da mesma espécie que os corpos dos outros homens. Ora, os corpos dos outros homens não são formados do puríssimo sangue, mas do sêmen e do sangue menstrual. Logo, parece que nem o corpo de Cristo foi concebido do puríssimo sangue da Virgem. Em contrário, Damasceno diz (De Fide Orth. iii): «O Filho de Deus, do puríssimo sangue da Virgem, formou para Si carne, animada com alma racional.» Respondo que, como foi dito acima (A[4]), na conceição de Cristo o seu nascimento de uma mulher foi conforme as leis da natureza, mas o ter nascido de uma virgem foi acima das leis da natureza. Ora, tal é a lei da natureza que, na geração de um animal, a fêmea fornece a matéria, enquanto o macho é o princípio ativo da geração, como prova o Filósofo (De Gener. Animal. i). Mas a mulher que concebe de um homem não é virgem. E por conseguinte pertence ao modo sobrenatural da geração de Cristo que o princípio ativo da geração fosse o poder sobrenatural de Deus; mas pertence ao modo natural da sua geração que a matéria da qual o seu corpo foi concebido seja semelhante à matéria que as outras mulheres fornecem para a conceição dos seus filhos. Ora, esta matéria, segundo o Filósofo (De Gener. Animal.), é o sangue da mulher, não um sangue qualquer, mas levado a um estágio mais perfeito de secreção pela potência geradora da mãe, de modo a ser apto para a conceição. E portanto de tal matéria foi concebido o corpo de Cristo. Resposta à primeira objeção: Visto que a Bem-aventurada Virgem era da mesma natureza que as outras mulheres, segue-se que ela tinha carne e ossos da mesma natureza que as delas. Ora, a carne e os ossos nas outras mulheres são partes atuais do corpo, cuja integridade resulta delas; e consequentemente não podem ser tirados do corpo sem que este seja corrompido ou diminuído. Mas, tendo Cristo vindo para curar o que estava corrompido, não era conveniente que Ele trouxesse corrupção ou diminuição à integridade de sua Mãe. Portanto, era conveniente que o corpo de Cristo fosse formado não da carne ou dos ossos da Virgem, mas do seu sangue, que ainda não é parte em ato, mas é potencialmente o todo, como se diz em De Gener. Animal. i. Por isso se diz que Ele tomou carne da Virgem, não porque a matéria da qual o seu corpo foi formado fosse carne atual, mas sangue, que é carne em potência. Resposta à segunda objeção: Como se diz na Primeira Parte, Q. 92, A. 3, ad 2, Adão, por ter sido estabelecido como uma espécie de princípio da natureza humana, tinha em seu corpo uma certa proporção de carne e osso, que lhe pertencia não como parte integrante da sua pessoa, mas em razão do seu estado como princípio da natureza humana. E disto foi formada a mulher, sem detrimento para o homem. Mas no corpo da Virgem não havia nada deste tipo, do qual o corpo de Cristo pudesse ser formado sem detrimento do corpo de sua Mãe. Resposta à terceira objeção: O sêmen da mulher não é apto para a geração, mas é algo imperfeito na ordem seminal, que, por causa da imperfeição da potência feminina, não foi possível levar à perfeição seminal completa. Consequentemente, este sêmen não é a matéria necessária da conceição; como diz o Filósofo (De Gener. Animal. i): por isso não houve tal sêmen na conceição de Cristo; tanto mais que, embora seja imperfeito na ordem seminal, uma certa concupiscência acompanha a sua emissão, como também a do sêmen masculino; ao passo que naquela conceição virginal não podia haver concupiscência. Por isso Damasceno diz (De Fide Orth. iii) que o corpo de Cristo não foi concebido «seminalmente». Mas o sangue menstrual, cujo fluxo está sujeito a períodos mensais, tem uma certa impureza natural de corrupção; como outras superfluidades, que a natureza não considera, e por isso expulsa. De tal sangue menstrual infectado de corrupção e repudiado pela natureza, não se forma a conceição; mas de uma certa secreção do sangue puro que, por um processo de eliminação, é preparada para a conceição, sendo, por assim dizer, mais pura e mais perfeita que o restante do sangue. Contudo, está manchada com a impureza da concupiscência na conceição dos outros homens: na medida em que, pelo ato sexual, este sangue é atraído a um lugar apto para a conceição. Isto, porém, não ocorreu na conceição de Cristo: porque este sangue foi reunido no ventre da Virgem e formado em criança pela operação do Espírito Santo. Portanto, o corpo de Cristo é dito «formado do castíssimo e puríssimo sangue da Virgem».

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether the flesh of Christ was conceived of the Virgin's purest blood? · séc. XIII

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