Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a Anunciação não devia ter sido feita por um anjo à bem-aventurada Virgem. Porque as revelações aos mais altos anjos são feitas imediatamente por Deus, como diz Dionísio (Hier. Cel. vii). Ora, a Mãe de Deus é exaltada acima de todos os anjos. Logo, parece que o mistério da Encarnação lhe devia ter sido anunciado imediatamente por Deus, e não por um anjo. Objeção 2: Além disso, se neste assunto convinha observar a ordem comum, pela qual as coisas divinas são anunciadas aos homens pelos anjos; da mesma forma, as coisas divinas são anunciadas à mulher pelo homem: por isso o Apóstolo diz (1 Cor 14,34-35): «As mulheres estejam caladas nas igrejas… mas se quiserem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus maridos.» Logo, parece que o mistério da Encarnação devia ter sido anunciado à bem-aventurada Virgem por algum homem: especialmente porque José, seu esposo, foi instruído sobre isso por um anjo, como se narra (Mt 1,20-21). Objeção 3: Demais, ninguém pode anunciar convenientemente o que não sabe. Ora, os mais altos anjos não conheciam plenamente o mistério da Encarnação: por isso Dionísio diz (Hier. Cel. vii) que a pergunta: «Quem é este que vem de Edom?» (Is 63,1) deve ser entendida como feita por eles. Logo, parece que o anúncio da Encarnação não podia ser feito convenientemente por nenhum anjo. Objeção 4: Ademais, coisas maiores devem ser anunciadas por mensageiros de maior dignidade. Ora, o mistério da Encarnação é o maior de todos os anunciados pelos anjos aos homens. Parece, portanto, que se convinha ser anunciado por algum anjo, isso devia ter sido feito por um anjo da mais alta ordem. Mas Gabriel não é da mais alta ordem, e sim da ordem dos arcanjos, que é a penúltima: por isso a Igreja canta: «Sabemos que o arcanjo Gabriel te trouxe uma mensagem de Deus» [*Festa da Purificação B.V.M. ix Resp. Brev. O.P.]. Logo, este anúncio não foi feito convenientemente pelo arcanjo Gabriel. Em contrário, está escrito (Lc 1,26): «Foi enviado por Deus o anjo Gabriel», etc. Respondo que convinha que o mistério da Encarnação fosse anunciado à Mãe de Deus por um anjo, por três razões. Primeiro, para que também nisto se mantivesse a ordem estabelecida por Deus, pela qual as coisas divinas são transmitidas aos homens por meio dos anjos. Por isso Dionísio diz (Hier. Cel. iv) que «os anjos foram os primeiros a ser ensinados acerca do divino mistério da benignidade de Jesus; depois, a graça do conhecimento nos foi comunicada por meio deles. Assim, pois, o mais divino Gabriel deu a conhecer a Zacarias que lhe nasceria um filho profeta; e a Maria, como se realizaria nela o divino mistério da inefável conceição de Deus.» Segundo, isto era conveniente à restauração da natureza humana que havia de ser efetuada por Cristo. Por isso Beda diz numa homilia (in Annunt.): «Foi um início adequado da restauração do homem que um anjo fosse enviado por Deus à Virgem que havia de ser santificada pelo Nascimento Divino: pois a primeira causa da ruína do homem foi o ter sido enviada a serpente pelo diabo para enganar a mulher com o espírito de soberba.» Terceiro, porque isto era conveniente à virgindade da Mãe de Deus. Por isso Jerônimo diz num sermão sobre a Assunção [*Atribuído a S. Jerônimo, mas não é sua obra]: «Está bem que um anjo seja enviado à Virgem; porque a virgindade é sempre afim da natureza angélica. Pois viver na carne e não segundo a carne não é vida terrena, mas celeste.» Resposta à objeção 1: A Mãe de Deus estava acima dos anjos quanto à dignidade para a qual foi escolhida por Deus. Mas quanto ao estado presente da vida, estava abaixo dos anjos. Pois o próprio Cristo, por causa da sua vida passível, «foi feito um pouco menor que os anjos», conforme Hb 2,9. Mas porque Cristo era ao mesmo tempo viandante e compreensor, não necessitava ser instruído pelos anjos quanto ao conhecimento das coisas divinas. A Mãe de Deus, porém, ainda não estava no estado de compreensão: e portanto devia ser instruída pelos anjos acerca da Conceição Divina. Resposta à objeção 2: Como diz Agostinho num sermão sobre a Assunção (De Assump. B.V.M. [*Obra de outro autor: entre as obras de S. Agostinho]), uma verdadeira estima da bem-aventurada Virgem a exclui de certas regras gerais. Pois «nem ela 'multiplicou as suas conceições', nem estava 'sujeita ao poder do homem, isto é, do seu marido' (Gn 3,16), ela que no seu imaculado ventre concebeu a Cristo do Espírito Santo.» Portanto, convinha que fosse informada do mistério da Encarnação não por meio de um homem, mas de um anjo. Por esta razão, foi-lhe anunciado antes de José: pois a mensagem foi-lhe trazida antes de conceber, mas a José depois de ela ter concebido. Resposta à objeção 3: Como se pode deduzir da passagem citada de Dionísio, os anjos conheciam o mistério da Encarnação; e todavia fizeram esta pergunta, desejando que Cristo lhes desse um conhecimento mais perfeito dos pormenores deste mistério, que são incompreensíveis a todo o intelecto criado. Assim Máximo [*Máximo de Constantinopla] diz que «não há dúvida de que os anjos sabiam que a Encarnação havia de ter lugar. Mas não lhes foi dado perscrutar o modo da conceição do Senhor, nem como Ele permaneceu inteiro no Pai, inteiro em todo o universo, e inteiro no estreito recinto da Virgem.» Resposta à objeção 4: Alguns dizem que Gabriel era da mais alta ordem; porque Gregório diz (Hom. de Centum Ovibus [*34 in Evang.]): «Convinha que viesse um dos mais altos anjos, porque a sua mensagem era a mais sublime.» Mas isto não implica que ele fosse da mais alta ordem de todas, mas em relação aos anjos: pois ele era um arcanjo. Assim a Igreja o chama arcanjo, e o próprio Gregório numa homilia (De Centum Ovibus 34) diz que «são chamados arcanjos aqueles que anunciam coisas sublimes.» É, portanto, suficientemente crível que ele fosse o mais alto dos arcanjos. E, como diz Gregório (De Centum Ovibus 34), este nome concorda com o seu ofício: pois «Gabriel significa 'Força de Deus.'» Esta mensagem, portanto, foi convenientemente trazida pela «Força de Deus», porque o Senhor dos exércitos e poderoso na batalha vinha para vencer os poderes do ar.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether the annunciation should have been made by an angel to the Blessed Virgin? · séc. XIII
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