Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que se pode nesta vida ver a essência divina. Pois Jacó disse: «Vi a Deus face a face» (Gn 32,30). Mas vê-Lo face a face é ver a Sua essência, como se vê pelas palavras: «Vemos agora por espelho em enigma, mas então face a face» (1 Cor 13,12). **Objecção 2:** Demais, disse o Senhor a Moisés: «Falo com ele boca a boca, e claramente, e não por enigmas e figuras vê o Senhor» (Nm 12,8); ora, isto é ver a Deus em Sua essência. Logo, é possível ver a essência de Deus nesta vida. **Objecção 3:** Demais, aquilo em que conhecemos todas as outras coisas, e pelo qual julgamos das outras coisas, é conhecido em si mesmo por nós. Mas agora mesmo conhecemos todas as coisas em Deus; pois Agostinho diz (Confissões VIII): «Se nós ambos vemos que é verdade o que tu dizes, e ambos vemos que é verdade o que eu digo; onde, pergunto, vemos isto? nem eu em ti, nem tu em mim; mas ambos na própria incomutável verdade, que está acima das nossas mentes». E também diz (Da Verdadeira Religião XXX): «Nós julgamos de todas as coisas segundo a verdade divina»; e (Da Trindade XII): «É dever da razão julgar destas coisas corpóreas segundo as ideias incorpóreas e eternas; as quais, se não estivessem acima da mente, não poderiam ser incomutáveis». Portanto, mesmo nesta vida vemos o próprio Deus. **Objecção 4:** Demais, segundo Agostinho (Da Gênese à Letra XII, 24,25), as coisas que estão na alma por sua essência são vistas pela visão intelectual. Mas a visão intelectual é das coisas inteligíveis, não por semelhanças, mas pelas suas próprias essências, como também diz (Da Gênese à Letra XIII, 24,25). Logo, visto que Deus está em nossa alma por Sua essência, segue-se que Ele é visto por nós em Sua essência. **Em contrário,** está escrito: «O homem não Me verá, e viverá» (Ex 32,20); e uma glosa sobre isto diz: «Nesta vida mortal Deus pode ser visto por certas imagens, mas não pela própria semelhança de Sua natureza». **Respondo que:** Deus não pode ser visto em Sua essência por um mero ser humano, a menos que esteja separado desta vida mortal. A razão é porque, como foi dito acima (A[4]), o modo de conhecimento segue o modo da natureza do conhecedor. Ora, a nossa alma, enquanto vivemos nesta vida, tem seu ser na matéria corpórea; portanto, naturalmente conhece apenas o que tem forma na matéria, ou o que pode ser conhecido por tal forma. Ora, é evidente que a essência divina não pode ser conhecida através da natureza das coisas materiais. Pois foi mostrado acima (AA[2],9) que o conhecimento de Deus por meio de qualquer semelhança criada não é a visão de Sua essência. Logo, é impossível para a alma do homem nesta vida ver a essência de Deus. Isto pode ser visto no fato de que quanto mais a nossa alma é abstraída das coisas corpóreas, mais ela é capaz de receber coisas inteligíveis abstratas. Por isso, nos sonhos e nas alienações dos sentidos corporais, as revelações divinas e a presciência dos eventos futuros são percebidas mais claramente. Não é possível, portanto, que a alma nesta vida mortal seja elevada ao supremo dos objetos inteligíveis, i.e., à essência divina. **Resposta à Objecção 1:** Segundo Dionísio (Hier. Cel. IV), diz-se nas Escrituras que o homem vê a Deus no sentido de que certas figuras são formadas nos sentidos ou na imaginação, segundo alguma semelhança que representa em parte a divindade. Assim, quando Jacó diz: «Vi a Deus face a face», isto não significa a essência divina, mas alguma figura que representa a Deus. E isto deve ser referido a algum modo elevado de profecia, de modo que Deus parece falar, embora numa visão imaginária; como será explicado adiante (SS, Q[174]) ao tratar dos graus de profecia. Podemos também dizer que Jacó falou assim para designar alguma contemplação intelectual excelsa, acima do estado comum. **Resposta à Objecção 2:** Assim como Deus opera milagres nas coisas corpóreas, assim também faz maravilhas sobrenaturais acima da ordem comum, elevando as mentes de alguns, vivendo na carne, para além do uso dos sentidos, até mesmo à visão de Sua própria essência; como Agostinho diz (Da Gênese à Letra XII, 26,27,28) de Moisés, o mestre dos judeus; e de Paulo, o mestre dos gentios. Isto será tratado mais amplamente na questão do arrebatamento (SS, Q[175]). **Resposta à Objecção 3:** Todas as coisas se dizem vistas em Deus e todas as coisas são julgadas n'Ele, porque pela participação de Sua luz conhecemos e julgamos todas as coisas; pois a luz da própria razão natural é uma participação da luz divina; assim como também somos ditos ver e julgar das coisas sensíveis no sol, i.e., pela luz do sol. Donde Agostinho diz (Solilóquios I, 8): «As lições da instrução só podem ser vistas como que por seu próprio sol», a saber, Deus. Assim como, portanto, para ver um objeto sensível não é necessário ver a substância do sol, do mesmo modo, para ver qualquer objeto inteligível não é necessário ver a essência de Deus. **Resposta à Objecção 4:** A visão intelectual é das coisas que estão na alma por sua essência, assim como as coisas inteligíveis estão no intelecto. E assim Deus está nas almas dos bem-aventurados; não está assim em nossa alma, mas por presença, essência e poder.
Summa Theologiae — First Part · Article. 11 - Whether anyone in this life can see the essence of God? · séc. XIII
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