Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Pareceria que a vontade é movida necessariamente por uma paixão do apetite inferior. Pois o Apóstolo diz (Rm 7,19): "Não faço o bem que quero; mas o mal que não quero, esse faço"; e isto é dito por causa da concupiscência, que é uma paixão. Logo, a vontade é movida necessariamente por uma paixão. Objeção 2: Ademais, como se afirma na Ética, iii, 5, "conforme é o homem, assim lhe parece o fim". Mas não está no poder do homem afastar uma paixão uma vez presente. Logo, não está no poder do homem não querer aquilo para que a paixão o inclina. Objeção 3: Ademais, uma causa universal não é aplicada a um efeito particular senão por meio de uma causa particular; por isso a razão universal não move senão por meio de uma estimativa particular, como se afirma em Sobre a Alma, iii, 11. Ora, como a razão universal está para a estimativa particular, assim a vontade está para o apetite sensitivo. Portanto, a vontade não é movida a querer algo particular senão através do apetite sensitivo. Portanto, se o apetite sensitivo estiver disposto a algo, por causa de uma paixão, a vontade não pode mover-se em sentido contrário. Ao contrário, está escrito (Gn 4,7): "Debaixo de ti estará o teu desejo [Vulg.: 'desejo dele'] e tu dominarás sobre ele". Logo, a vontade do homem não é movida necessariamente pelo apetite inferior. Respondo que, como se disse acima (Q[9], A[2]), a paixão do apetite sensitivo move a vontade na medida em que a vontade é movida pelo seu objeto: isto é, na medida em que o homem, por estar disposto de tal e tal modo por uma paixão, julga algo como conveniente e bom, o que não julgaria assim não fosse a paixão. Ora, esta influência de uma paixão no homem ocorre de dois modos. Primeiro, de modo que sua razão fica totalmente atada, de modo que não tem o uso da razão: como acontece com aqueles que, por um violento acesso de ira ou concupiscência, se tornam furiosos ou insanos, assim como podem ficar por algum outro distúrbio corporal; pois tais paixões não ocorrem sem alguma mudança no corpo. E destes se deve dizer o mesmo que dos animais irracionais, que seguem necessariamente o impulso das suas paixões: pois neles não há movimento da razão, nem, consequentemente, da vontade. Às vezes, porém, a razão não é inteiramente absorvida pela paixão, de modo que o juízo da razão retém, em certa medida, sua liberdade; e assim o movimento da vontade permanece em certo grau. Por conseguinte, na medida em que a razão permanece livre e não sujeita à paixão, o movimento da vontade, que também permanece, não tende necessariamente àquilo para que a paixão o inclina. Consequentemente, ou não há movimento da vontade nesse homem, e só a paixão domina; ou, se há um movimento da vontade, não segue necessariamente a paixão. Resposta à objeção 1: Embora a vontade não possa impedir que surja o movimento da concupiscência, do qual o Apóstolo diz: "O mal que não quero, esse faço — isto é, desejo"; contudo, está no poder da vontade não querer desejar ou não consentir na concupiscência. E assim não segue necessariamente o movimento da concupiscência. Resposta à objeção 2: Como há no homem uma dupla natureza, intelectual e sensitiva; às vezes o homem é tal e tal uniformemente quanto a toda a sua alma: ou porque a parte sensitiva está totalmente sujeita a esta razão, como no virtuoso; ou porque a razão está inteiramente absorvida pela paixão, como no louco. Mas às vezes, embora a razão esteja obscurecida pela paixão, algo desta razão permanece livre. E quanto a isto, o homem pode ou repelir inteiramente a paixão, ou pelo menos conter-se de modo a não ser levado pela paixão. Pois, quando assim disposto, como o homem é disposto de modo diferente segundo as diferentes partes da alma, uma coisa aparece-lhe de modo diferente segundo a sua razão do que segundo uma paixão. Resposta à objeção 3: A vontade é movida não só pelo bem universal apreendido pela razão, mas também pelo bem apreendido pelos sentidos. Pelo que pode ser movida a algum bem particular independentemente de uma paixão do apetite sensitivo. Pois queremos e fazemos muitas coisas sem paixão, e só pela escolha; como é evidentíssimo naqueles casos em que a razão resiste à paixão.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the will is moved, of necessity, by the lower appetite? · séc. XIII
tradução automática